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Definições
Junho 29, 2007 in Minha Metade Tupinambá | Deixe um comentário
Na soleira do velho tapiche
Junho 29, 2007 in Minha Metade Tupinambá | Deixe um comentário
O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.
Carlos Drummond de Andrade – “O Mundo é Grande”
Avançam as tribos, rumo ao Grande Ritual
Junho 27, 2007 in Minha Metade Tupinambá | Deixe um comentário
Como na canção de Jobim: «As praias desertas continuam / esperando por nós / A este encontro eu não devo faltar».
Escuto o coachar da noite, no lago do jardim fronteiro à casa. Os jacarandás transpirando um aroma mais discreto do que abaixo da linha tropicália. Ainda assim, um aroma!… E sou reverente a todas as formas de manifestação do que me é familiar. Reverente e atenta: por mais súbtis que se apresentem. Ninguém nos desvia do destino, é bem verdade. O destino é uma saia que se ajusta. De vez em quando se alarga ou estreita na volta da anca, mas sempre e só para melhor lhe vestir a curva!… Imagino esse pontilhado no breu que sinaliza o avanço dos povos ao longo das margens, rumo à Grande Ilha Sagrada onde se sucederão as três noites dos rituais em festa. Regresso à cama de rede pendurada sob a protecção do linólio e à amurada do barco. É meu o mesmo sopro húmido e fresco que com a madrugada desce pelas águas como um manto, um alívio de sereno feito unicamente e só para doar à pele esse doce e vago arrepio que a compensa do tórrido dos dias. Nessas ocasiões é possível escutar o rumor oco dos tambores, o rufar das batidas que parecem crescer de dentro da trepidante face arborizada do chão e chegar do coração da terra. Nessas ocasiões é possível não duvidar que nos cabe um rumo e que a todo o passo corresponde, sim, um caminho. No fundo no fundo sei que este será o segundo ano que estarei apenas aparentemente ausente da celebração tupinambarana!… Aparentemente, eu disse. Só muito “aparentemente”, é certo. E ainda bem.
«Gosto de ti como quem gosta do Sábado»
Junho 25, 2007 in Minha Metade Tupinambá | Deixe um comentário
Gosto de ti como quem gosta do Sábado,
Gosto de ti como quem abraça o fogo,
Gosto de ti como quem vence o espaço,
Como quem abre o regaço,
Como quem salta o vazio,
(…)
Gosto de ti como quem mata o degredo,
Gosto de ti como quem finta o futuro,
Gosto de ti como quem diz não ter medo,
Como quem mente em segredo,
Como quem baila na estrada,
Vestido feito de nada,
As mãos fartas do corpo,
(…)
Gosto de ti quando o teu corpo pedia,
Quando nas mãos me ardia,
Como silêncio na guerra,
Beijos de luz e de terra,
E num passado imperfeito,
Um fogo farto no peito
E um mundo longe de nós.
Enquanto não há amanhã,
Ilumina-me, Ilumina-me.
Enquanto não há amanhã,
Ilumina-me, Ilumina-me.
Pedro Abrunhosa – “Ilumina-me”
«Amorenou»
Junho 23, 2007 in Minha Metade Tupinambá | Deixe um comentário
Fafá de Belém – “Filho da Bahia“
Serena Saudade Sépia
Junho 23, 2007 in Minha Metade Tupinambá | Deixe um comentário
Vestidos em estendal oceânico
Junho 20, 2007 in Minha Metade Tupinambá | Deixe um comentário
Do outro lado do oceano, na cidade das estradas d’água, nos bastidores do bairro que guarda memórias e estórias de tempos galopantes e distantes e, que por privilégio não almeja aplausos e nem autógrafos, basta-lhe apenas ser rio e floresta e cheirar Verão por todo o ano, me chega você, assim: vestida de poesia. Inconfundível na forma, na espessura e no tom! Trazes a poesia na ordem do dia. Mas que bom que existem os artistas da escrita, Senhora Artista! Muito me comove quando leio seus artigos, pois sei que nascem da tua alma profunda e cheia de bailados.
Sei que a escrita é a tua guerra!
V.
Eu gosto da vida rente ao cais
Junho 20, 2007 in Minha Metade Tupinambá | Deixe um comentário
Todo cais é uma saudade de pedra.
Álvaro de Campos
O País da Grande Floresta do Rio Largo mudou a minha percepção de “cais”. Suavizou-lhe a inevitabilidade do sentimento de partida/ausência e aguçou-lhe um travo mais doce de chegada/reencontro. A vantagem de no Amazonas se avançar por estradas d’água – quase sempre a única ligação viável entre municípios – é que se entra nas cidade pelo porto. E não há panorâmica mais bela do que essa imagem longitudinal de ver os lugares brotando da correnteza, perfilando-se por horizonte, desaguados à proa da embarcação.
Cidade média, aldeia, povaréu ou escasso agregado de casario ribeirinho, a verdade é que o que há de essencial nos lugares se deixa apreender com extrema exactidão logo nesse primeiro contacto. Pela boca escancarada do porto saem verdades que raramente o desembarque desmente ou dilui. Como se no dorso suado do movimento do cais se reflectisse, na maior da nitidez almejada, o lado necessitante e o lado generoso das gentes e do lugar, ficando-se de imediato a saber o que se abre à troca.
Nada que não compreendo me pertence
Junho 19, 2007 in Minha Metade Tupinambá | Deixe um comentário

Foto de Ritz Marie – “View From The Top” (2006)
Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores e diferentes, a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total.
João Guimarães Rosa – Grande Sertão Veredas
Para o índio, a necessidade de explicar as coisas é extensão de um modelo de compreensão essencial para que o que o rodeia possua e seja trazido à existência. A construção do modelo explicativo da vida e das coisas viventes é, ao limite, aquilo que permite que, quer a vida, quer o que é vivente, possuam existência. É por isso que a relação das coisas que importam e são vitais para uma determinada comunidade se apreende facilmente, observando as suas representações, escutando as suas lendas e narrativas. É porque a Lua me importa que a contemplo e tento compreender, e é porque a procuro compreender que a possuo e faço minha, razão pela qual ela se torna importante para mim. Aquilo que mais me fascina entre as tribos é essa despudorada vocação para se importar.
É desse fascínio que mais me pesa a saudade no regresso ao Ocidente Branco, onde tantos (demasiados, convenhamos!) são tão facilmente “desimportados” com a vida e o que é vivente, que se afirmam quase orgulhosos dessa despliscência tão contra-natura, mas tão eficaz para desculpar a preguiça que gradualmente se foi espraiando por sobre suas cabeças anestesiadas e dormentes, esquecidas (tão esquecidas!) de se exercitarem, sob o preverso efeito secundário de uma comodidade “comodistamente” tentadora, perdidos (quem sabe, irremediavelmente) desse dom extremo que lhes conferiu o predicado da humanidade: a faculdade de serem pensantes.
Quanto crime, quanto pecado, há nesse desbaratar do cérebro em fuga, demissionário dessa sua vibração primeira: a de sair de si e se lançar contra o mundo, pelo simples movimento desse rubro entusiasmo que é a vontade de o compreender e poder beber inteiro!!…
O espanto, correlato da original necessidade de compreensão do mundo que nos faz humanos. A curiosidade, como expressão primeira do interesse que nos compromete com o seu entorno. Nada de mais sedutor. Nada de mais fascinante. Só essa endiabrada inquietação do que nos intriga. Do que não podendo confundir-se connosco queremos nosso. O intelecto como a nossa mão mais capaz de possuir e trazer a nós. Para dentro de nós. Até se confundir connosco. Por todo o sempre.
Escutando, não raras vezes, o discurso da possessão inabalável que o índio tem para si em relação a todas as coisas que chama suas, muitas vezes sorri branda, incapaz de partilhar dessa interpretação que geralmente os apelida de sobranceiros e altivos. É sua a Terra, sim. Porque o índio a compreende. São seus os rios, porque por eles se interessou e interessa ainda o suficiente para procurar entendê-los. Para ser inteiramente franca, é-me, aliás, extremamente fácil aceder à razão do índio, pois que eu mesma reconheço que nada me pertence tanto como aquilo que eu compreendo. E se algo irrevogavelmente possuo de meu, não são senão as coisas (embora ainda poucas) que na tentativa de entender vou compreendendo. Pelo raciocínio as trago a mim e pelo pensamento as faço minhas. Pois que nenhum lugar é mais seguro e fundo do que o cérebro, e nada nos pertence mais do que as coisas que lhe cabem dentro.
"Como se saúda a Rainha do Mar?"
Junho 18, 2007 in Minha Metade Tupinambá | Deixe um comentário
Quanto nome tem a Rainha do Mar?
Dandalunda, Janaína,
Marabô, Princesa de Aiocá,
Inaê, Sereia, Mucunã,
Maria, Dona Iemanjá.
Onde ela vive?
Onde ela mora?
Nas águas,
Na loca de pedra,
Num palácio encantado,
No fundo do mar.
Como se saúda a Rainha do Mar?
Como se saúda a Rainha do Mar?
Alodê, Odofiaba,
Minha-mãe, Mãe-d’água,
Odoyá!
Qual é seu dia,
Nossa Senhora?
É dia dois de fevereiro
Quando na beira da praia
Eu vou me abençoar.
O que ela canta?
Por que ela chora?
Só canta cantiga bonita
Chora quando fica aflita
Se você chorar.
Quem é que já viu a Rainha do Mar?
Quem é que já viu a Rainha do Mar?
Maria Bethânia – “Iemanjá, Rainha do Mar”
Sumiço! Uma tempestade caiu sobre a província fazendo com que a energia se esvaísse. Muitos banzeiros vieram desde que aqui cheguei. Muitos até então incompreensíveis, outros temíveis e, outros tantos, ainda irreconhecíveis. Saiba você que o pior já passou. Novamente andandooooo. Nada de celular para o momento, às águas do rio Negro o seqüestraram para sempre, levando-o para as suas profundezas eternas. Por tanto, os ventos continuam soprando abaixo da linha do Equador.
V. – recebido, hoje, via e-mail
Definitivamente, gosto mesmo muito da língua que fala a Natália!
Junho 16, 2007 in Minha Metade Tupinambá | Deixe um comentário

Foto de Margarida C. – Onça Pintada, acorrentada num quartel militar do Estado do Amazonas (Junho de 2004)
Minha mãe era ninfa, meu pai chuva de lava
Mestiça de onda e de enxofres vulcânicos,
sou de mim mesma, pomba húmida e brava
De mim mesma e de vós, ó Capitães trigueiros,
barbeados pelo sol, penteados pela bruma!
Que extraístes do ar dessa coisa nenhuma
a genesis, a pluma do meu país natal.
Não sou daqui, das praias da tristeza,
do insone jardim dos glaciares
Levai minha nudez, minha beleza,
e colocai-a à sombra dos palmares.
Não sou daqui. A minha pátria não é esta
bússola quebrada dos impulsos.
Sou rápida, sou solta, talvez nuvem.
Nuvens, minhas irmãs, que me argolais os pulsos!
Tomai os meus cabelos. Levai-os para a floresta.
Natália Correia – Cântico do País Emerso (1961)
Faltam 12 dias, 12 horas, 5 minutos e 51 segundos… e eu aqui!!
De como pode acontecer tomarmo-nos de amores por um país
Junho 16, 2007 in Minha Metade Tupinambá | Deixe um comentário

Paul Gaugin – “We Shall Not Go To Market Today”
(*) Texto escrito e publicado em 20 de Agosto de 2006
Os artistas sentem-se provocados uns pelos outros
Junho 16, 2007 in Minha Metade Tupinambá | Deixe um comentário

Melancolia
Quem
(diante do sol e dos luares,
do olho no olho do mar e do infinito,
dos equinócios, das guerras
dos decretos,
da floração noturna das estrelas,
das epopéias do progresso, das quimeras
que ardem na lareira do desejo,
da súbita epifania da encantaria
submersa na linguagem-rio)
quem há de perceber em mim
(grão de poeira
na infinitamente azul ampulheta de Deus)
este botão de amor tombando no poema
depois que o abandonaste no meu peito?João de Jesus Paes Loureiro – “Melancolia”
O poema é um dos 41 que compõem a antologia Eu Fui, organizada por Eunice Arruda, com um prefácio de Marlise Vaz Bridi muito bem escrito.
(*) Texto descoberto em 21 de Setembro de 2006













