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Foto de Paula C. – “Half day and I’m still drinking my water

O amor é sede depois de se ter bem bebido.

João Guimarães Rosa

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O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.

Carlos Drummond de Andrade“O Mundo é Grande”

O projecto é agora, então, transformar em casa a velha fábrica de vassouras, que fica centrada à zona do velho porto franco, de frente para o Negro e o seu vai-e-vém de embarcações e navios escancarado à boca Atlântica. Morada temporária, com precisão de móveis, onde – segundo Ela me narra – «as marés bateram tanto que as janelas ficaram abertas para o sempre.»
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Foto de Tati – 2006
Navegando o rio na direcção do último reduto Tupinambá, onde por altura mais ou menos coincidente com o Solistício de Verão, os povos se reunem para a Grande Dança das Tribos.

(…)

Como na canção de Jobim: «As praias desertas continuam / esperando por nós / A este encontro eu não devo faltar».

(…)

Escuto o coachar da noite, no lago do jardim fronteiro à casa. Os jacarandás transpirando um aroma mais discreto do que abaixo da linha tropicália. Ainda assim, um aroma!… E sou reverente a todas as formas de manifestação do que me é familiar. Reverente e atenta: por mais súbtis que se apresentem. Ninguém nos desvia do destino, é bem verdade. O destino é uma saia que se ajusta. De vez em quando se alarga ou estreita na volta da anca, mas sempre e só para melhor lhe vestir a curva!… Imagino esse pontilhado no breu que sinaliza o avanço dos povos ao longo das margens, rumo à Grande Ilha Sagrada onde se sucederão as três noites dos rituais em festa. Regresso à cama de rede pendurada sob a protecção do linólio e à amurada do barco. É meu o mesmo sopro húmido e fresco que com a madrugada desce pelas águas como um manto, um alívio de sereno feito unicamente e só para doar à pele esse doce e vago arrepio que a compensa do tórrido dos dias. Nessas ocasiões é possível escutar o rumor oco dos tambores, o rufar das batidas que parecem crescer de dentro da trepidante face arborizada do chão e chegar do coração da terra. Nessas ocasiões é possível não duvidar que nos cabe um rumo e que a todo o passo corresponde, sim, um caminho. No fundo no fundo sei que este será o segundo ano que estarei apenas aparentemente ausente da celebração tupinambarana!… Aparentemente, eu disse. Só muito “aparentemente”, é certo. E ainda bem.

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Gosto de ti como quem gosta do Sábado,
Gosto de ti como quem abraça o fogo,
Gosto de ti como quem vence o espaço,
Como quem abre o regaço,
Como quem salta o vazio,
(…)

Gosto de ti como quem mata o degredo,
Gosto de ti como quem finta o futuro,
Gosto de ti como quem diz não ter medo,
Como quem mente em segredo,
Como quem baila na estrada,
Vestido feito de nada,
As mãos fartas do corpo,
(…)

Gosto de ti quando o teu corpo pedia,
Quando nas mãos me ardia,
Como silêncio na guerra,
Beijos de luz e de terra,
E num passado imperfeito,
Um fogo farto no peito
E um mundo longe de nós.

Enquanto não há amanhã,
Ilumina-me, Ilumina-me.
Enquanto não há amanhã,
Ilumina-me, Ilumina-me.

Pedro Abrunhosa“Ilumina-me”

Directo do Bataclan de “Dona Maria Machadão” (… lembra?!). Directo de 1975. Era tema da trilha sonora de Gabriela (essa mesmo!), a que vinha com cheiro de cravo e perfume de canela e que saiu inteira (curvas e bunda, incluídas!) do devaneio mais humano que literário do Mestre Jorge Amado. Bem sei que é pouco mais de um minutinho, o que agora se disponibiliza ao remember, mas ainda assim… Aproveite bem e, se acaso no final ainda souber a pouco, aperte o “replay” e incremente a dose.

Fafá de Belém – “Filho da Bahia

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Foto de Luiz Sombra – “Pescadores” ( Lençóis Maranhenses)

As viagens agora são tão belas como eram dantes.
E um navio será sempre belo, só porque é um navio.
Viajar ainda é viajar e o longe está sempre onde esteve
– em parte nenhuma, graças a Deus!

Fernando PessoaOde Marítima

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Foto de Miguel Chikaoka
Do outro lado do oceano, na cidade das estradas d’água, nos bastidores do bairro que guarda memórias e estórias de tempos galopantes e distantes e, que por privilégio não almeja aplausos e nem autógrafos, basta-lhe apenas ser rio e floresta e cheirar Verão por todo o ano, me chega você, assim: vestida de poesia. Inconfundível na forma, na espessura e no tom! Trazes a poesia na ordem do dia. Mas que bom que existem os artistas da escrita, Senhora Artista! Muito me comove quando leio seus artigos, pois sei que nascem da tua alma profunda e cheia de bailados.
Sei que a escrita é a tua guerra!

V.

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Foto de Pierre Verger


Todo cais é uma saudade de pedra.


Álvaro de Campos


O País da Grande Floresta do Rio Largo mudou a minha percepção de “cais”. Suavizou-lhe a inevitabilidade do sentimento de partida/ausência e aguçou-lhe um travo mais doce de chegada/reencontro. A vantagem de no Amazonas se avançar por estradas d’água – quase sempre a única ligação viável entre municípios – é que se entra nas cidade pelo porto. E não há panorâmica mais bela do que essa imagem longitudinal de ver os lugares brotando da correnteza, perfilando-se por horizonte, desaguados à proa da embarcação.

Cidade média, aldeia, povaréu ou escasso agregado de casario ribeirinho, a verdade é que o que há de essencial nos lugares se deixa apreender com extrema exactidão logo nesse primeiro contacto. Pela boca escancarada do porto saem verdades que raramente o desembarque desmente ou dilui. Como se no dorso suado do movimento do cais se reflectisse, na maior da nitidez almejada, o lado necessitante e o lado generoso das gentes e do lugar, ficando-se de imediato a saber o que se abre à troca.

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Foto de Ritz Marie – “View From The Top” (2006)


Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores e diferentes, a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total.

João Guimarães RosaGrande Sertão Veredas

O contacto com as comunidades indígenas permite apreender o valor singular do entendimento e da compreensão como forma única de aproximação ao mundo e a tudo o que acima e abaixo dele se contém. Olhar o índio deixa surpreender da forma mais pura e descarnada o que tantos outros homens – que vieram adiante no rosário dos séculos e da História da Humanidade, que através deles se foi desfiando –, sábios ou pensadores apenas, disseram, a seu modo, de formas talvez apenas um pouco mais complexas e elaboradas: que o mundo só existe para nós na exacta dimensão da compreensão que dele temos. Reprimir ou abdicar dessa ânsia congénita de surpreender o redor é nunca saber de si, pois que nada se sabe sem o confronto com esse exterior que nos confere recorte. É viver espalmado contra a entediante mesmidade de um fundo que se reduz a nós mesmos, sendo que, como qualquer um pode rudimentarmente experienciar, o branco nem branco se pode dizer que seja contra um pano branco e todo o negro desaparece, já se sabe, contra um cenário negro também. Branco ou negro, facto é que não alçar o pescoço, não erguer o queixo, subir o sobrolho e elevar o olho, reduz o que há para perceber ao limitadíssimo espaço cúbico que ocupamos. Não surpreende, pois, que não só em breve não vejamos nada de suficiente estranho que possa suscitar o nosso interesse, como a muito curto trecho nem sequer consigamos mais perceber seja o que for em nosso lugar. Assim, anulado em primeiro lugar da esfera da compreensão, anula-se em seguida do universo daquilo que há para compreender. Uma vez daí desaparecido, não é sequer de pasmar que se evanesça irremediavelmente do que é apreendido. E o não apreendido, efectivamente, é nada: só vácuo e vazio em seu lugar. Dito de forma mais simples, não compreender o mundo é nem viver fora do mundo: é viver sem mundo.

Para o índio, a necessidade de explicar as coisas é extensão de um modelo de compreensão essencial para que o que o rodeia possua e seja trazido à existência. A construção do modelo explicativo da vida e das coisas viventes é, ao limite, aquilo que permite que, quer a vida, quer o que é vivente, possuam existência. É por isso que a relação das coisas que importam e são vitais para uma determinada comunidade se apreende facilmente, observando as suas representações, escutando as suas lendas e narrativas. É porque a Lua me importa que a contemplo e tento compreender, e é porque a procuro compreender que a possuo e faço minha, razão pela qual ela se torna importante para mim. Aquilo que mais me fascina entre as tribos é essa despudorada vocação para se importar.

É desse fascínio que mais me pesa a saudade no regresso ao Ocidente Branco, onde tantos (demasiados, convenhamos!) são tão facilmente “desimportados” com a vida e o que é vivente, que se afirmam quase orgulhosos dessa despliscência tão contra-natura, mas tão eficaz para desculpar a preguiça que gradualmente se foi espraiando por sobre suas cabeças anestesiadas e dormentes, esquecidas (tão esquecidas!) de se exercitarem, sob o preverso efeito secundário de uma comodidade “comodistamente” tentadora, perdidos (quem sabe, irremediavelmente) desse dom extremo que lhes conferiu o predicado da humanidade: a faculdade de serem pensantes.
Quanto crime, quanto pecado, há nesse desbaratar do cérebro em fuga, demissionário dessa sua vibração primeira: a de sair de si e se lançar contra o mundo, pelo simples movimento desse rubro entusiasmo que é a vontade de o compreender e poder beber inteiro!!…

O espanto, correlato da original necessidade de compreensão do mundo que nos faz humanos. A curiosidade, como expressão primeira do interesse que nos compromete com o seu entorno. Nada de mais sedutor. Nada de mais fascinante. Só essa endiabrada inquietação do que nos intriga. Do que não podendo confundir-se connosco queremos nosso. O intelecto como a nossa mão mais capaz de possuir e trazer a nós. Para dentro de nós. Até se confundir connosco. Por todo o sempre.

Escutando, não raras vezes, o discurso da possessão inabalável que o índio tem para si em relação a todas as coisas que chama suas, muitas vezes sorri branda, incapaz de partilhar dessa interpretação que geralmente os apelida de sobranceiros e altivos. É sua a Terra, sim. Porque o índio a compreende. São seus os rios, porque por eles se interessou e interessa ainda o suficiente para procurar entendê-los. Para ser inteiramente franca, é-me, aliás, extremamente fácil aceder à razão do índio, pois que eu mesma reconheço que nada me pertence tanto como aquilo que eu compreendo. E se algo irrevogavelmente possuo de meu, não são senão as coisas (embora ainda poucas) que na tentativa de entender vou compreendendo. Pelo raciocínio as trago a mim e pelo pensamento as faço minhas. Pois que nenhum lugar é mais seguro e fundo do que o cérebro, e nada nos pertence mais do que as coisas que lhe cabem dentro.

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Foto de V.M – DR (Matogrosso, 2007)

Quanto nome tem a Rainha do Mar?
Quanto nome tem a Rainha do Mar?

Dandalunda, Janaína,
Marabô, Princesa de Aiocá,
Inaê, Sereia, Mucunã,
Maria, Dona Iemanjá.

Onde ela vive?
Onde ela mora?

Nas águas,
Na loca de pedra,
Num palácio encantado,
No fundo do mar.

Como se saúda a Rainha do Mar?
Como se saúda a Rainha do Mar?

Alodê, Odofiaba,
Minha-mãe, Mãe-d’água,
Odoyá!

Qual é seu dia,
Nossa Senhora?

É dia dois de fevereiro
Quando na beira da praia
Eu vou me abençoar.

O que ela canta?
Por que ela chora?

Só canta cantiga bonita
Chora quando fica aflita
Se você chorar.

Quem é que já viu a Rainha do Mar?
Quem é que já viu a Rainha do Mar?

Maria Bethânia “Iemanjá, Rainha do Mar”

Que Ela vive ainda, eu já sabia. Que para sempre viverá, também. Mas que, contra todas as suspeitas, augúrios e suposições, continua viva e de boa saúde, soube agorinha mesmo. Faz apenas o tempo necessário para correr para cá e espalhar a boa nova – ela está viva, sim: está confirmado e é oficial. Acabou de dar sinal de si:

Sumiço! Uma tempestade caiu sobre a província fazendo com que a energia se esvaísse. Muitos banzeiros vieram desde que aqui cheguei. Muitos até então incompreensíveis, outros temíveis e, outros tantos, ainda irreconhecíveis. Saiba você que o pior já passou. Novamente andandooooo. Nada de celular para o momento, às águas do rio Negro o seqüestraram para sempre, levando-o para as suas profundezas eternas. Por tanto, os ventos continuam soprando abaixo da linha do Equador.

V. – recebido, hoje, via e-mail

… Deus seja louvado!!
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Foto de Margarida C. – Onça Pintada, acorrentada num quartel militar do Estado do Amazonas (Junho de 2004)

Não sou daqui. Mamei em peitos oceânicos
Minha mãe era ninfa, meu pai chuva de lava
Mestiça de onda e de enxofres vulcânicos,
sou de mim mesma, pomba húmida e brava

De mim mesma e de vós, ó Capitães trigueiros,
barbeados pelo sol, penteados pela bruma!
Que extraístes do ar dessa coisa nenhuma
a genesis, a pluma do meu país natal.

Não sou daqui, das praias da tristeza,
do insone jardim dos glaciares
Levai minha nudez, minha beleza,
e colocai-a à sombra dos palmares.

Não sou daqui. A minha pátria não é esta
bússola quebrada dos impulsos.
Sou rápida, sou solta, talvez nuvem.
Nuvens, minhas irmãs, que me argolais os pulsos!
Tomai os meus cabelos. Levai-os para a floresta.

Natália Correia – Cântico do País Emerso (1961)

Faltam 12 dias, 12 horas, 5 minutos e 51 segundos… e eu aqui!!


Paul Gaugin“We Shall Not Go To Market Today”

Desde sempre e muito cedo que o efeito garrido da obra de Gaugin me fez sentido. Primeiro era só um entendimento mudo, uma cumplicidade tácita na impressão da retina. Depois aprendi a ler. E li. Sobre Gaugin, também. Sobre a obra e a vida. Era inevitável que lesse. Li, portanto. Li, sim. Creio que, além do que talvez tenha lido, houve ainda quem me tivesse falado a seu respeito e contado sobre a sua história. E eu ouvi. Nesse caso, terei ouvido, sim. Era inevitável que ouvisse. No essencial, porém, o que terei lido ou ouvido não mudou nada ao que já compreendera. Talvez tenha só permitido trazer um pouco de consciência ao que já sabia sozinha, dentro do olho, no fundo da retina, numa espécie de entendimento cúmplice a que nem sequer se pedia que soubesse dar conta de si. Fiquei, pois, a saber o que já sabia. Que pode sim, o fascínio por um recanto do planeta, pela sua gente e pela sua cultura, ser estímulo e apelo irresistível para a criação. Que pode sim, um ser humano cair rendido em devoção, diante desse encanto maior que o faz criar. E tanto que pode que, em bom rigor, nunca mais o consegue deixar. Nem quando se ausenta. Nem quando não há outro remédio senão partir.

(*) Texto escrito e publicado em 20 de Agosto de 2006


Melancolia
Quem
(diante do sol e dos luares,
do olho no olho do mar e do infinito,
dos equinócios, das guerras
dos decretos,
da floração noturna das estrelas,
das epopéias do progresso, das quimeras
que ardem na lareira do desejo,
da súbita epifania da encantaria
submersa na linguagem-rio)
quem há de perceber em mim
(grão de poeira
na infinitamente azul ampulheta de Deus)
este botão de amor tombando no poema
depois que o abandonaste no meu peito?

João de Jesus Paes Loureiro“Melancolia”

Tarde na madrugada, descubro – quase por acaso – este pedacinho de florestania. Ganhei o dia. A evocação de imagens poéticas que me lembram a pátria, restabelecem-me como que por milagre do cansaço que trazia.

O poema é um dos 41 que compõem a antologia Eu Fui, organizada por Eunice Arruda, com um prefácio de Marlise Vaz Bridi muito bem escrito.

(*) Texto descoberto em 21 de Setembro de 2006

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copyright © Maggie C. 2004



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