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(…) É impressionante como o tempo voa! Foi uma semana tenebrosa, como o trabalho a crescer do chão, em dimensão, chatices e imprevistos, como sombras nas paredes do quarto, quando se é criança e alguém apaga as luzes. Demorou uma eternidade até ser fim-de-semana e agora parece que essa brecha de alívio voou. Sem se dar por nada está quase em tempo de repetir a insanidade. (…)

Ass: Eu

Nada assusta mais do que não saber para que é que os dias servem. Eu, por exemplo. Arrasto toda a semana atrás de mim um sem número de coisas, algumas prazenteiras outras nem por isso, que urgem fazer e para as quais o tempo nunca chega no frenesim do quotidiano. Quando chega o fim-de-semana e eu rodo, enfim, a chave na fechadura e entro em casa, é indescritível a dimensão do alívio, a alegria, tudo! Parece que o pesadelo acabou. Olho para a frente e tudo é ânimo e satisfação, como se esse ansiado estado de graça fosse dar para tudo e mais alguma coisa. Melhor: como se tivesse chegado para ficar e não fosse acabar nunca mais.
É por isso que continuo a não entender bem como é que afinal nunca chega para nada, como é que as coisas urgentes transitam invariavelmente para fazer de semana para semana. Vá lá que hoje esta constatação de facto não me trouxe a reboque aquele estado de desalento em que caio a cada anoitecer do último dia de descanso!…Vá lá!

Estava, como sempre faço a miúde, lendo Toínho.  Escreve ele:

Ando pensando um bocado a respeito da minha indisposição para escrever. Percebi que os bloqueios emocionais, aos quais costumamos atribuir o nome de preguiça, têm um forte componente social. Explico melhor: não derivam apenas de dramas estritamente pessoais, essas pequenas tragédias íntimas que são encenadas no teatro doméstico (que, aliás, também são muitas vezes repetições em menor escala de enredos escritos e inscritos no grande teatro coletivo e tratam de temas, digamos, universais) mas perfazem tentativas de refazer um sentido de Destino, uma ação pública, um discurso na ágora, ou seja, na falta de outra palavra, uma política.

E vai daí, não sei explicar, várias coisas que venho também pensando “a respeito da minha [igual] indisposição para escrever” fizeram sentido.

Porque faz bem começar do zero, quando a gente acha que está tudo errado.

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copyright © Maggie C. 2004



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