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amanhecerilha

Por diversas vezes fiz reparo em como é semelhante a luz de certas horas, com esta ‘tal’ luz de Lisboa que, desde séculos, tanta tela tem inspirado e tanta tinta tem feito correr à pena. Não acontece sempre, visto que a ilha bóia no Amazonas e, como toda a região, ela é por natureza e condição exuberante e berrante muito para lá dos cânones das circunspectas Europas temperadas. É só em certas horas, sim. O suficiente, todavia, para me saciar amplamente qualquer resquício de saudade alfacinha que sobrar pudesse. Suponho ser também por isso que não me lembro de em alguma ocasião lhe ter sentido a falta. Ou das suas gentes. O que vem a dar no mesmo.

Como me disse uma vez um caboclo, lá para as bandas do mercado à beira rio, “o peito da gente faz morada onde o coração se sente em casa“. E eu, então, lembrei-me de Shakespeare, que gostava de escrever máximas, mas tinha por costume escondê-las na boca de cena, disfarçadas de fala de gente:

aspas Quando o ancoradouro se torna amargo, a felicidade vai aportar em outro lugar.

* foto de Renato Stockler

O Aquecimento Global, segundo a Diesel:

Aquecimento Global, Global Warming Aquecimento global, Global Warming
Aquecimento global, Global Warming Aquecimento global, Global Warming
Aquecimento global, Global Warming Aquecimento global, Global Warming
Aquecimento global, Global Warming diesellondon

… E comenta o meu bom amigo ciber-garimpeiro, olho de lince, faro apurado, cérebro afiado:

Se este inverno tiver o padrão de 2 graus acima da temperatura média, como se diz por aí, de algum modo essa é uma das campanhas mais representativas de nosso “espírito” contemporâneo.

Ass: Catatau
(escrito a 19.Junho.2008)

criaartes1

Quando pela primeira vez ficámos de frente, Cria Minha, fiz-te alguns votos, sim. Não muitos. Apenas os que no momento me assaltaram a franqueza. Depois dei-me por satisfeita, confesso, por acreditar que nesses que me subiram ao pensamento estariam seguramente os que te poderiam ser mais essenciais. Depois, roguei por dentro e em segredo para que Deus cuidasse de te fadar a alguma arte. Qualquer que ela fosse. Para que tivesses sempre contigo o único antídoto capaz de destilar os nódulos que, por essa altura, eu já sabia que a vida também tem. E como não me era de crer que te poupasse inteiramente a eles, por não ser seu hábito alisar o caminho de ninguém, supus que era o máximo que me restava fazer, tendo em conta que nem sempre estarei por perto, nem tudo poderei resolver e, seguramente, por maior e mais forte o amor irredutível que te devote, nem de tudo serei capaz de te suprimir ou proteger.

Assim, confesso que quando te vi repetir esse gesto de pegar em telas e pincéis, qualquer coisa em mim se aquietou um pouco. Como se alastrou igualmente nas minhas entranhas um certo alívio, no instante em que o drama e as suas tragicomédias te fizeram tactear sozinha e por instinto no rumo dos bastidores e do mundo vasto que se esconde por detrás das cortinas.

criaartes2

Espero, Cria Minha Adorada, que saibas agora dar bom uso a essas artes que te atendem e que elas te sirvam, Meu Anjo Amado, para reparar cada joelho raspado, cada gomo ferido à asa, cada laivo em ti talhado pelos males e tristezas do mundo. E sempre que a minha mão, por um motivo ou por outro, se soltar da tua, que por favor te recordes que há algo que trazes sempre contigo e de que és capaz, e que a isso te agarres, Anjo Meu Adorado, Cria Minha Muito Amada, com força igual à daquilo que doer te possa. E que isso seja tudo quanto necessites. Que te reconcilies, pois, com as mordidas amargas da vida, abocanhando a tua arte e destilando através dela qualquer coisa outra que efectivamente valha a pena deixar cuspido em redor, quando o sangue estanca.

Àmen!

Ass: A mãe

Às vezes o cérebro humano prega partidas, como essa de se acostumar a proceder por comparação. Porque comparar acaba por se transformar num vício que se automatiza por si mesmo e sem grande intervenção da nossa vontade, a partir de certa altura. É fácil nem nos darmos conta e, ainda assim, já estarmos a estabelecer a inevitável comparação aos termos. Mesmo que ela seja dispensável. Mesmo que ela se revele até desajustada e inadequada à circunstância. Porque na maioria das vezes, quando assim sucede, acontece que caímos frequentemente no erro de comparar o que entre si nem tão pouco admite comparação, pois toda a gente sabe que entre grandezas distintas e de natureza diversa, a comparação não é sequer um método aplicável e qualquer conclusão a que se chegue com base nela é sempre errónea e propiciadora de tremendos equívocos, enganos e injustiças.

O que não entendo é como é que, se eu tão lucidamente sei tudo isto, continuo a cair na esparrela de fazer comparações entre o que nem sequer admite comparação. Por não ser de todo comparável com o que lhe coloco no outro prato da balança. Custa-me, aliás, demasiado a entender.

É quase assim. O barcos de linha transformados num arraial em festa, enquanto seguem com a correnteza. Até que uma hora, quase sempre ao amanhecer, o lombo fino da terra se descobre na rebaixa das águas fora da estação das chuvas. Linha vaga de chão firme, encostada ao corpo barrento do caudal, como se o casario boiasse junto com os ramos e galhos, na levada. Perpendicular imaginária, perceptível apenas pelos sentidos, desenhada a cada aportar entre a proa e a margem e que, no desvio, suspende a embarcação ao bico do horizonte infinito. Sim, é quase assim. Se não do mesmo jeito, de um jeito igual, troando a sirene para saudar quem já chegou… os restantes barcos aportados, o ancoradoro saudoso, as amarras do cais em guarda paciente, na resseca do cordame tisnado sob o sol e os salpicos salobros ventados do rio, durante a ausência… a sirene apitando exuberante, quase impúdica, diante da quietude da manhã que mal alvoreceu… chamando ao porto as gentes estremunhadas do povoado, com seus tabuleiros de banana frita, suas cestas de tucumã doirado, suas arcas carregadas de ‘botellas’ de água mineral dormindo entre gelo picado… O povo todo se arrimando à amurada, dentro do barco, mão em pala sobre a vista, buscando parentes e familiares no passadiço da doca lodacenta, enrolando a rede dependurada ao gancho, durante a viagem, juntando tralhas e tarecos no convés, na pressa de desembarcar. Sim, é quase assim. Um gosto simples de felicidade indizível, compreensível apenas por quantos sabem o que seja fazer o caminho das estradas d’água. Uma felicidade só, eu repito. Uma imensa felicidade simples, essa que aqui deixo.

Rita RibeiroÉ D’Oxum

Espécie de ‘tecnomacumba’, dedicada a vocês, que por essa hora vão seguindo sobre as águas, rumo à Grande Clareira sagrada. O meu coração segue junto. Cumpre o seu caminho, no vosso regaço. Segue convosco para dançar a vida. Segue – o meu coração – de novo sobre as águas do Grande Rio alado. Por vossas mãos. Salve, a vocês! A cada um de vocês, povo em marcha da minha tribo.

rainhadafloresta

aspas Senhora Rainha da Floresta
Dai-me a força da ayahuasca
Pra cantar nessas malocas
Pros índios desse lugar

Quero beber caiçuma
E tomar muito cipó
Quero bailar o mariri
Nas aldeias do Aquiry

Dai-me a força do jagube
Na luz do lampião
Iluminando todas veredas
Que dão pro meu coração

Como é grande essa floresta
É maior a solidão
Dessa vida passageira
Desse verde sertão

Vou seguindo pela vida
Varejando de ubá
Todos os rios dessa terra
Unidos chegarão ao mar

Pia Vila* – “Rainha da Floresta

Essa vai para você, por mil e uma razões, como muito bem creio que, por esta altura, sabe de ’sabedoria sabida’. Tome como um remanso, um sinal, um reconhecimento, uma prece, uma oferenda, eu sei lá. Qualquer coisa assim. Qualquer coisa dessas que a Floresta é pródiga em estender à gente, na passagem. Como um galho sumarento, providenciado no caminho. Para que ninguém sinta precisão de sede ou fome que lhe trave o passo. Cantado fica mais bonito ainda!… Ora escute aqui.

* A canção é uma parceria com Txai Terri Aquino e Felipe Jardim. A foto foi tirada pela Angela U. no Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

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Amadou et Mariam com Manu Chao – “Senegal Fast Food

eu+vc

Pegue de novo seu chapéu de buriti cozido de tanto sol tomado cru, que na alvorada hoje amanhecida voltaram a troar tambores e os dedos burilam já sobre novos mapas e azimutes. Prepare seus costados de bandeirante. Cace sua camisa de linho ao cabide pregado atrás da porta e mande soar o berrante, para avisar que estamos de volta, apontando aos fios de água e aos atalhos da mata, onde bóia a grande flor que leva seu nome régio na contra-face dos espinhos. E de quebra, tire do baú aquele pano alvo de algodão a que conhece mil utilidades e funções. Desdobre-o. Estenda-o sobre o chão varrido. Depois pegue todas as jóias raras que andou coleccionando para mim entre as tribos. Procure-lhe o centro. Abra as suas duas mãos em cuía e, com o cuidado de sempre, coloque sobre ele sementes, conchas, contas, guizos e balangantãs, que meus pés andam de novo nus, como pediu que fosse, e breve, breve estarei lhe estendendo os tornozelos. E é preciso que outra vez sente no velho banco de pau queimado e, um a um, os tome no anelado círculo dos seus dedos, os pouse de mansinho sobre a coxa flectida, os feche, torneie, fortaleça, massage, adorne, proteja e prepare às caminhadas por vir. Que o chão é muito e vem já ali adiante.

* Fotos de Carlos L. Strauss

Eu não sabia nada. Aprendi tudo aqui, com a floresta, inclusive a primeira lição de todas: sobreviver. A floresta dá-me segurança, aqui tenho tranquilidade para pensar e planear.
Xanana Gusmão

Durante 24 anos de guerrilha na metade oriental da ilha de Timor, no sudoeste asiático, a floresta – que abunda na montanha de Ermera, na cordilheira de Ramelau (ou Tatamailau) – foi o ‘quartel general’ de Xanana Gusmão e dos seus homens, encabeçando a resistência do povo Maubere à anexação pelas tropas invasoras da Indonésia, nove dias após a declaração da sua independência, decretado que foi o fim do Império Colonial, após a Revolução do 25 de Abril, em Portugal. Porque em Timor Leste «não se foge para fora, foge-se para cima».

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Era noite quente aqui e eu havia resolvido regressar a casa perto da meia-noite e gozar essa tranquilidade rara de ter a casa só para mim. Ver televisão não estava definitivamente nos meus planos, mas passo a explicar. O som aqui de casa quebrou, o concerto não compensa e a despesa de comprar uma nova não é sensata no momento. Na emergência, venho tocando os discos no leitor de DVD. Foi assim que, no vai-e-vem de mais uma troca, me apareceu no ecran do televisor um plano, esmagador de tão lindo, do amanhecer dourado na Ilha do Crocodilo, o outro nome de Timor Lorosae – a terra do ‘Lado Onde Nasce o Sol‘- e eu dei comigo presa pela retina, subitamente transportada, na semelhança, para os céus (por tantas alvoradas testemunhado) do meu Amazonas.

Acabei puxando o cinzeiro e o copo para o amontoado de almofadas e me aconchegando no sofá, o vento a entrar ventando morno, no rodopio das janelas da sala, abertas aos quatro pontos cardeais, aliviando nesse frescor soprado o bafo tórrido ainda remanescente do dia. Para dizer a verdade, a calma já reinava cá por casa e pelo peito, mas qualquer coisa na voz pausada e espessa do Comandante Xanana Gusmão, narrando na primeira pessoa um documentário sobre Timor Lorosae e ele próprio, realizado e produzido por Grace Phan, veio adensá-la mais ainda. É bela a voz do Comandante, pensei. Quase hipnótica, lembrei-me eu, então, sentindo vir à memória com uma nitidez impressionante as duas únicas vezes em que a escutei ao vivo. Uma, na primeira visita oficial a Portugal, depois da libertação de Cipinang, em 2000, ainda antes do referendo e do massacre final ao povo Maubere, perpetrado pelas tropas do General Suharto, no final do Verão seguinte, marca última deixada ferrada sobre a população, antes de abandonar o território invadido, para vingar os mais de 80% de votos a favor da independência, não obstante o medo e a intimidação incutidos às urnas pelas milícias integracionistas. A outra, em 2006, durante uma visita à Universidade de Coimbra e ao núcleo de estudantes timorenses em Portugal.

De ambas as vezes me recordo de me ter sido absolutamente claro porque lhe obedeciam os homens resistentes, porque razão o escutavam e seguiam rumo ao topo da cordilheira envolta pela floresta, deixando para trás as aldeias, as mulheres chorosas, os velhos doentes, as crianças famintas e o vago fio de vida que lhes restava, após a miséria lançada no território pela invasão. É difícil colocar em palavras. Porque a beleza da voz de Xanana não se descreve, ecoa dentro do peito e sabe-se dela só assim: no efeito que surte, no rasto que deixa dissolvido às veias.

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Eu estava no aeroporto militar de Figo Maduro, naquela noite ventosa e fria de 2000, aguardando o embarque de Xanana no avião que o levaria de Lisboa a Díli, após uma imperiosa escala de alguns dias em Camberra. Transpostos os largos portões de rede e aço, e a área de jurisdição, a polícia rendeu nas mãos do exército a autoridade sobre a operação de alta segurança montada para receber o Comandante, nas menos de 24h de permanência em território nacional. As formalidades de procedimento e protocolo distrairam as entidades competentes e a vigilância abrandou por instantes. Subitamente, todos ficámos mais perto de Xanana, ou Xanana mais próximo de nós. Andava devagarinho de um lado para o outro, de quando em vez olhando a pista adiante, aspirando o ar como se quisesse perceber na noite uma direcção mais certa ao vento que vinha entrando, soprado de Norte.

Num desses entretantos do seu vaguear, quase esbarrámos o ombro. Eu sobressaltei-me, ele não. «Tenho ouvido dizer que dizem que sou muitas coisas, mas um fantasma garanto que não», disse-me amável, quase cortês. Acho que não respondi, acho que nem sequer lhe sorri. Pelo menos não me lembro de nada. Mas recordo-me de ter pensado que ele estava em vantagem. Eu, por exemplo, nunca tinha dormido ao relento, não tinha os sentidos alerta, nem experiência de tocaias ou de me guiar no breu, como também nunca tinha vivido no meio da mata ou da floresta. Como eu disse, lembro-me de ter pensado, mas não me lembro de lhe ter dito nada disto. Ainda assim, como se não fosse preciso e lhe bastasse poder-me ler o pensamento, respondeu: «A Floresta ensina a deixar os fantasmas para trás. Quando deixar os fantasmas descansados no seu lugar, não volta a estremecer».

Isso disse-me ele numa época em que eu ainda não tinha nenhum fantasma e, se calhar por isso, não lhe dei mais crédito do que o do inevitável interpelo existentes nas metáforas bem cifradas. Quando passei a ter, esforcei-me por repescar a frase e escarafunhá-la com minúcia cirúrgico-hermenêutica, não fosse dar-se o caso de estar ali algum ensinamento de incalculável valor. Anos mais tarde, também eu fui parar à floresta e aí, sim. Aí creio ter, enfim, começado a aflorar o que quer que fosse que estivesse a tentar dizer.

Ontem, no documentário de Grace Phan, chamou-me a atenção Xanana ter regressado à ideia, lançada à friagem naquela noite rente ao começo do novo milénio, no aeroporto militar de Figo Maduro, e insistido, uma vez mais, na mesma imagem de florestas dissipadoras de fantasmas ‘extraporâneos’.

De uma forma mais sistematizada voltou a defender que a vida nos morre e acaba antes da hora, se persistirmos em nos tornar guardiões dos nossos próprios fantasmas. Nunca mais voltamos a estar a sós com nós mesmos e, como é de lei, se não o conseguimos, nunca mais temos nenhum instante de paz. Ora, como também é sabido, sem paz não há tranquilidade e, sem tranquilidade, não é possível ser ou pensar nada que valha a pena. Pelo menos nada com um alcance mais além de nós próprios e do nosso umbigo. Porque enquanto o referente ou determinante for outro que não simplesmente nós próprios – a saber, o dos fantasmas que nos povoam e em absoluto nos dominam e preenchem – é a nossa própria capacidade de abertura ao mundo e aos seus estímulos que fica posta em causa. Assim sendo, é de valor diminuto qualquer que seja a acção a que nos conduz. Por não ser, essa acção, resultado da nossa auto-determinação. Por ela, a acção, não ser livre. Em último caso, por ser ela uma reacção e nem sequer, exactamente, uma acção propriamente dita.

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Mais adiante, no documentário, Xanana fala sobre o instante da morte do primeiro homem que lhe morreu na guerrilha que liderou. O primeiro dos muitos que viriam a morrer-lhe depois. Fala da desorientação, das dúvidas, da incerteza que o tomou nessa hora, e conta como as suas lágrimas e a sua dor perturbou os seus homens. Conta, Xanana, do medo atroz que os tomou diante da visão de um chefe em pranto. “Não podemos ter um líder que chora os que morreram e se esquece dos que estão vivos“, ter-lhe-ão dito. Xanana confessa para as câmaras de Grace Phan que desde esse dia deixou de chorar os homens que perdeu, para não ficar “ensombrado pelos seus fantasmas” e por saber ser essa a única forma ao seu alcance para cuidar de proteger todos os outros que ainda tinha vivos e do seu lado. Explica o comandante que, de alguma forma, cada um dos que o deixaram cumpriram a sua missão ao seu lado. Deixá-los ir era a única forma de permanecer fiel ao que em tempos os uniu. Só nesse sentido poderiam continuar a viver nele, Xanana. Mais adiante, o documentário mostra uma das frequentes visitas que o Comandante faz às viúvas dos seus homens, como mostra também o seu encontro com a mãe de um dos seus guerreiros mortos. Sobre a mulher que chora, passa Xanana um braço por cima do ombro, enquanto diz: “O teu filho vive em mim. Agora o teu filho sou eu.

Muitas coisas se poderiam dizer, é um facto. Mas das muitas que poderiam ser opinadas, importa não perder o foco das que vêm de quem já esteve num cenário de guerra ou conviveu de perto com os seus imbricados entornos. Porque a passagem é tão forte e perturbadora que só quem sabe do que se está aqui a falar se pode com propriedade pronunciar a respeito, independentemente daquilo que vier a comentar.

E é por isso que, por cru ou hipócrita que se arrisque parecer, após o trecho das imagens em que Xanana ampara um grupo de viúvas que foram junto a ele prantear os seus mortos, na necessidade extrema de confirmar se acaso ainda os recorda, Xanana confessa às câmaras que a única coisa que tem para confortá-las é dizer-lhes que sim, que ainda se lembra de cada um e que a liberdade agora conquistada se deve ao sacrifício feito por eles em nome de uma causa maior. Acrescenta o Comandante: “na maioria das vezes nem é preciso dizer-lhes nada: elas sabem“. Sabem, mas precisam que ele lhes diga, ele o homem que não pode chorar fantasmas porque tem que continuar a cuidar das suas viúvas, agora que ficaram sós e não lhes resta mais ninguém que olhe por elas. Ninguém a não ser Xanana, o homem que ainda ouve fantasmas ao longe, a chamar o seu nome, “especialmente durante a noite“, mas que não olha para trás e, portanto, não os vê. Nem sequer na lua cheia.

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Ontem, estava a ver as imagens e a experimentar esses mistos contraditórios do espírito e da emoção que têm sempre o condão de nos deixar mais despertos e reflexivos. E foi aí que me lembrei de um ou outro fantasma que, a certa altura, também eu acabei por ter e que, no compromisso máximo com a vida, deixar para trás. Não são muitos, que eu não sou o Xanana e não comando povos, exércitos ou nações. É um ou outro, mas o suficiente para acreditar que hoje compreendo melhor sobre o que falava em Figo Maduro, naquela noite distante, alguns anos atrás. Mas como não lhes conheço viúva e não os posso chorar, limito-me a enviar-lhes uma qualquer mensagem telepática, à laia do Comandante. Onde quer que estejam, que perdoem por favor, mas foi preciso passá-los adiante. Consentir que continuassem a assaltar-me, “ensombrava-me” o bastante para me esquecer dos vivos que continuam ao meu lado.

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Nesse lusco-fusco, em que pela primeira vez estive perto de Xanana Gusmão, vieram depois informá-lo que aguardavam tão só autorização para descolar. Pensei na imprudência de atrasar assim, tão sem motivo e por mera burocracia, um Comandante que tinha à sua espera uma nação (“a mais jovem nação do Mundo“, aliás), com tanto à espera de ser feito.

Vi Xanana acender um cigarro, ajeitar a gola e ficar de perfil, a pensar sabe-se lá em quê, observando a luz amarelada derramada pelos holofotes sobre a pista, onde um avião esperava de asas abertas. Um por um, revi mentalmente o rosto dos líderes do meu País e, por momentos, senti uma inveja irreprimível dos Maubere.

Eu não sabia nada daquele homem que por 24 anos se embrenhara na Floresta, teimando em tétum e português, e que até durante os sete anos de captura (e sob torturas múltiplas) se recusara a pronunciar uma só sílaba na língua do invasor. Eu não sabia e, na verdade, muito poucos sabiam. Pelos menos os que nunca tinham vivido na Ilha do Crocodilo, e que éramos quase todos nós, os que se abalançavam a escrever e falar sobre o Lado Onde Nasce o Sol, por pressentirmos a urgência de romper o silêncio indiferente do Mundo. Escrevíamos e falávamos sem saber grande coisa deste homem, metade da vida oculto de nós pela mata, depois pelo arame farpado da Indonésia, e agora pela simples geografia de mares e continentes, que o levavam de regresso à metade antípoda da nossa. No momento em que lhe tínhamos podido, enfim, testemunhar o rosto tisnado, ele ia embora, tão breve como nos chegara, sem que muito mais tivessemos oportunidade de saber dele. Partia envolto na mesma bruma que, durante todo o ano, se diz que cobre o cume da cordilheira onde montou quartel pela liberdade. Por essa altura, falava-se muito dos tempos à frente e a escrita guinara no rumo do futuro e das adivinhações que não resistimos a deitar-lhe em avanço. Alguns haviam já começado, aliás, a confabular sobre a destreza do Comandante para congregar na ágora timorense as diferentes vozes dos líderes das muitas tribos que formavam Timor, longe da mata e da montanha, que por décadas todos tiveram por única guarida, depois da guerra que, como se sabe, tem essa vantagem unificadora de oferecer a todos um e só um objectivo em comum: o de a vencer.

Não sei se os outros, os que igualmente tinham por missão falar, escrever e relatar sobre Timor, se sentiram mais ou menos esclarecidos a respeito do homem que chegou e partiu orlado em mito. Por mim, sei dizer que não foram precisas nem muitas horas, nem muita prosa, para constatar que existe qualquer coisa que emana de Xanana e faz fortíssima a sua presença. Forte o bastante para me ter feito invejar os Maubere. Forte o bastante para – ainda hoje, como na época – seguir (muito sinceramente) crente de poder Timor Lorosae continuar a contar com ele nas ruas, como com ele contou nas entranhas da floresta. Na época, como agora, alguma coisa me devolveu uma firme certeza de ir Xanana ser precioso ao Povo Maubere e aos sopés do Lado Onde Nasce o Sol, como lhes foi a ambos nos cumes da cordilheira de Ramelau. Ainda que (seja!) para sempre envolto e feito da mesma misteriosa bruma.

Ver trailer: aqui | Assistir ao documentário: aqui

* Fotos retiradas do documentário “Where The Sun Rises, de Grace Phan (Setembro de 2007)

Seu Povo, Sua Terra, Seu Chão lhe esperam. Viajamos Quarta-feira. O barco larga no final da tarde. Vem logo!

Ass: colectivo de AM
(recebido a 21 de Junho de 2008)

Na confusão dos números e das trocas de celulares que estão na ordem do dia em Manaus, não sei mais de quem partiu o chamado. Sei que vem de alguém da minha tribo, que é o que importa. E isso é bom, é muito bom: saber que só pode ter partido da minha gente e que foi enviado no plural. Venha de onde vier, vem em nome do colectivo. Falando em colectivo, sou inevitavelmente levada a estabelecer a comparação entre o ‘colectivo’ que me prende por cá e o ‘colectivo’ que me anseia ter por lá.
Se a Nneka estivesse aqui, agora, por certo que o paradoxo lhe destravaria de imediato um rol de interrogações. Posso quase ouvi-la, naquele seu jeito de pensar alto: porque e que a gente tem que estar onde não nos querem e não pode estar onde é bem vindo? Porque é que você acha que será? Porquê isso? Porquê? Porquê???… :D

Eh, a Nneka pode não saber, mas a vocação filosófica visitou-a muito antes da musical.

Hoje cedo pararam-me na rua e, no contexto de um trabalho graduado sobre a cultura popular portuguesa, pediram-me que evocasse alguns ditados tradicionais e referisse um contexto e destinatário a que pudessem adequar-se. O primeiro que me ocorreu foi o célebre “mais vale um pássaro na mão do que dois a voar”. Dediquei-o aos cobardes. É certo que tinha acordado à pouco tempo, que ainda nem sequer tomara café e que o meu cérebro só muito timidamente dava mostras de se dispor a começar a funcionar… Mas pareceu-me apropriado. As moças eram holandesas e estavam a desenvolver um programa no âmbito do projecto do Erasmus, que as trouxe a terras ‘alfacinhas’ por convénio com uma universidade local. Pediram-me novo provérbio. E outro e outro ainda. Daí, seguindo para bingo, lá fui chutando mais alguns: “dá Deus nozes a quem não tem dentes”, “quem tudo quer, tudo perde”, “casa roubada, trancas à porta”, “quem espera, desespera”, “em terra de cegos, quem tem um olho é rei”, “faz o que eu digo, não faças o que eu faço”, “diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”, “a galinha da vizinha é sempre melhor do que a minha”, “ter mais olhos do que barriga”, “pela boca morre o peixe”, “quem dá e torna a tirar, ao Inferno vai parar”, “tudo o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita”, “não há bem que não se acabe, nem mal que para sempre dure”, “olhos que não vêem, coração que não sente”, “quem com ferro mata, com ferro morre”, “quem ri por último, ri melhor”, “quem tem unhas é que toca guitarra”…

Com o exercício longe do final e a garganta seca sob a esturra de sol, em plena calçada, pedi licença e dei por finda a boa vontade e a colaboração. Enquanto esperava para atravessar a rua, entrar no café em frente e comprar uma garrafa de água, dei comigo a pensar que, bem vistas as coisas, a participação talvez me tenha saído viciada, sem querer. É que, vistos agora daqui, da distância consequente ao brainstorming, todos os provérbios que me vieram à cabeça me parecem poder ter um mesmo destinatário e denominador comum. É possível que seja só impressão minha, a somar a este defeito académico de profissão e à minha excessiva obsessão de não viciar dados à investigação. Mas, em bom rigor e bem alinhavados entre si, fiquei com a leve sensação de que todos estes provérbios configuram um desenho que me é familiar… não sei porquê, mas o esboço resultante lembra-me por demais alguém que conheço…

Saiba que entendo sim, seus desmandados desmandos de quem pagou caro pela própria carta de alforria. Valer-lhe-á sempre à consideração o seu profundo amor à causa dos povos originários e essa devoção que lhe detém a retina na única coisa que verdadeiramente importa não perder jamais do foco. Tudo o mais, não deixe que lhe aperreie o sono. De uma ou de outra forma, qualquer um de nós dará um jeito, por aqui ou d’acoli. Não obstante o preto comprometido sobre o branco, sei bem que, para você, o único compromisso que sempre estará inquebrantavemente selado é com o que existe tingido a vermelho, negro, marron e amarelo. Mas você sabe, ainda que o daltonismo não enferme a humanidade na sua totalidade, desacertos cromáticos acontecem até mesmo aos céus amanhecidos às Estações do Ano: releve. Suponho ter, por ora, conseguido o suporte de uma operadora internacional que lhe garantirá, pelo menos, um contacto suave e esporádico com o mundo. Breve estarei enviando dois livros que poderão ser-lhe úteis, mais que não seja no traçado que deixam a giz pelo chão. Busco ainda localizar  o ‘ciclo-casal’. Confirma-se que ele é português, mas desde que o amor o tomou de jeito, e depois do itinerário de sete anos pelas montanhas, praias e arrozais do Oriente, não voltou a ser visto por aqui. Igualmente, ainda nenhuma notícia do Escocês, mas você sabe do temperamento dos arruivados. Nesse caso, haverá que haver paciência porque em algum momento se comunicará. Do centro das minhas costumeiras distracções, manter-me-ei vigilante, sim. Cuide-se, por favor!

Ass: Eu

* Fotos de R. Leboucher

Caríssimos, perdão por uma certa ausência, mas como certamente compreenderão, tenho andado atarefadíssima com esta coisa de me ocupar menos. Assim sendo, as horas que resgatei ao tempo têm-me preenchido com demoradíssimas tardes entre o sol e a sombra proseando e rindo sem necessária finalidade à vista. Têm igualmente sido longas, as noites de ‘dolce fare niente’, somente contemplando o luar, vagueando os lugares mais ‘apessoados’ da cidade, em outros tantos papos e prosas joados fora, só no mero prazer de saborear os instantes abençoados da vida, junto das pessoas que ela faz o favor de ir cruzando no nosso caminho. Reconheço que tudo isso me tem tornado mais displiscente da proximidade às teclas, mas trago cada um no coração e na ponta da língua, acreditem.

No intermezzo, as ideias vêm burilando laboriosa e afadigadamente vincos e formas de combinar os diferentes projectos que trazemos em curso de uma e outra margem do oceano. Pela tarde, estarei aliás estudando a papelada, imensamente crente na reunião confabuladora agendada para segunda-feira. Algum contributo inteligente que me ocorra, enrolo, ato com cordel de ráfia numa asa de gaivota e envio directamente para o lado do mundo que interessa.

Hoje o dia está lindo, claro, azul, quente e cheio de sol. Ao contrário do que imaginei, resolvi abrir mão da praia e ficarei por aqui, entregue a alguma ordem que preguiçosamente venho adiando dar a esse tropeço de livros, discos e demais bens de primeiríssima necessidade que se vêm amontoando caoticamente ao meu redor, de tão essenciais e vitais que sempre me parecem. Também é dia de colocar a escrita em dia, manter o skype ‘on’ em permanência e permitir-me certos caprichos de Cleópatra sem muito o que fazer ou grandes urgências assinaláveis que me façam correr.
Nos entretantos, queiram por favor, se tiverem algum tempo livre, averiguar das compatibilidades da Vivo e da Tim com as antenas lusitanas, pois vem crescendo a sensação de que algo não está funcionando inteiramente como previramos.

Ass: Eu

Agora à pouco, regressando a casa ainda madrugada-baixa, olhei a língua generosa de Tejo que se abre lá ao fundo, entre as duas margens da calçada íngreme, e fiquei paralisada com o espectáculo desse luarzão magestoso que tomou conta de toda a superfície do rio e o transformou num espelho reluzente de prata cintilante. Estava lindo por demais, o quadro: a lua, o luar, a noite, a cidade de Lisboa, o rio Tejo… Estava tão lindo que foi com dificuldade que me arranquei do passeio e do efeito hipnotizante de tal ‘mirada adelante’, busquei a chave de casa na bolsa, rodei a fechadura e enfim entrei.

E vim subindo a escada com cheiro de cera de abelha, a pensar na sorte que tenho de precisar de tão pouco para encher os pulmões e o coração, a pensar em todas aquelas pessoas insatisfeitas com a vida e os dias e noites que têm (ou não conseguem ter), a pensar que gostava de saber o nome ‘Daquele’ a quem tenho que agradecer por ser tão, mas tão diferente delas e entrar em casa com a certeza de que a vida me sobra e basta. Por tão plena. Por tão bela. Por tão irrepetível, simples e feliz.

Obrigado, seja a Quem fôr, tenha o nome que tiver, pelas ideias tão ‘desenroladas’ dentro da minha cabeça!!

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copyright © Maggie C. 2004



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