Quando a gente é criança, o mais próximo do trabalho é a escola e o mais próximo das angústias laborais que conhecemos é o quotidiano das obrigações escolares. Tive a sorte do meu colégio ser uma imensa quinta, a contornar um monte sobranceiro à cidade, por entre oliveiras e encostas, de onde se avistava a cidade numa panorâmica de 360º, do ir e vir dos cargueiros e gruas do cais, ao aterrar e descolar dos aviões em vôo rasante. Esse cenário era aliás uma constante, nas distracções de janela, mesmo por cima do ombro do professor e do rumor progressivamente distante da classe.

Tive, pois, a sorte de terem querido que, não obstante a necessidade da alfabetização, continuasse eu a poder respirar, a ter ar e espaço por onde me movimentar e terra farta em redor para sujar as mãos, nos intervalos dos deveres. Tive a sorte de, sendo da cidade, não o ser inteiramente, e crescer com os campos, a saber das espigas e das papoilas, do tamanho exacto das lagartixas, da baba do caracol e dos insondáveis mistérios das colmeias e dos casulos dos bichos-da-seda. Esse privilégio, eu creio que desde cedo soube reconhecer. Só não tinha ainda, todavia, como dar valor a outras metades da coisa, como por exemplo, a vantagem que é poder chorar ao ar livre quando me magoava nos joelhos da alma, ou correr fúrias pelos carreiros do arvoredo, nesses insanos instantes da vida em que o mundo se faz cruel e padrasto.

Porque muda tudo na vida da gente, quando se tem esse privilégio. Muda tudo. Especialmente nas horas mais agudas e ferinas. E nunca mais se é o mesmo, quando nos é dada a possibilidade de lamber feridas e dores numa amplitude maior que não a de um exíguo vão de janela num quarto de apartamento, encolhidos a um canto, com o tapete e a alcatifa a picar debaixo das nádegas, enrodilhados como uma fronha numa esquina de colchão, a ter que empoleirar os lamentos no segundo andar de um beliche partilhado. Essa noção só me veio muitos e muitos anos mais tarde. Talvez me tenha vindo só agora, no momento em que escrevo, para ser sincera. Ou, pelo menos, nunca antes havia me deitado a pensar sobre o assunto de forma organizada, ao ponto de concluir fosse o que fosse do detalhe. Reparando bem, faz toda a diferença, sim, os lugares onde cada um cresce e se habitua a ficar de frente com as suas tristezas, com as suas “pequenas tragédias e grotescos desgostos”.

Quando eu era criança e alguma coisa ia mal, escapulia-me de mansinho por alguma porta ou janela e corria a perder-me nos fundos da quinta. Tinha por hábito não correr, simplesmente caminhar ainda mais devarinho do que aprendera ou trazia no costume. Não sei, mas acho que já naquela época não fazia muito o meu género fugir a sete pés dos incómodos que certas dores e tristezas despejam sobre a nossa pele. E lá ia andando, andando, vagando ao acaso pelas minhas veredas preferidas, até me cansar. Então, parava, subia os olhos da caruma misturada ao chão com as folhas caídas dos eucaliptos e mirava em redor, até uma árvore qualquer se destacar das demais por uma qualquer inexplicável razão. E era nessa árvore que eu procurava arrego. Lembro com uma nitidez impressionante a vaga de conforto que me ia tomando aos poucos, depois que me abraçava ao seu tronco e as formigas que lhe percorriam a casca se transplantavam também para os meus dedos. Como se, sábias e mais avisadas do que eu, soubessem dessa verdade maior de que, eu e aquela árvore éramos uma só, em tratando-se do essencial que deve servir-nos de alimento e morada. A um tempo, entre a resina dela e uma ou outra lágrima por mim vertida, não havia mais qualquer diferença. Em bom rigor, eu não só podia ser, como era filha daquela árvore, que me acolhia no amparo do seu inabalável colo de mãe firme e fincada à terra, de onde nada que é genuinamente caro resvala o suficiente para se estatelar sozinho. Nessas horas, eu podia quase jurar que assistia, sem sombra de perplexidade, a um fenómeno único de simbiose mágica: que, um por um, perdia os dez dedos das mãos e ramos e galhos desabrochavam em seu lugar, que cada fio de cabelo meu ia verdejando, verdejando, até explodir folhagem, e, num ápice, tudo em mim ser da mesma transparência pura e vegetal daqueles seres grudados ao chão, incapazes de correr e sair do lugar, é certo, mas libertos por condição das obrigações da sala de aula e da imperiosidade de ter que vergar o dorso na direcção contrária aquela para onde o vento os sopra e as raizes os puxam. E o engraçado era que – perfeitamente o evoco e recordo – nesse processo de, lentamente, me tornar menos humana, nada parecia deixar-me saudades da humanidade de que me desprendia, ao ponto de sentir algum assomo de nostalgia com a metamorfose. É que nessas horas, eu acho, o dom da humanidade sempre me pareceu um presente envenenado por dentro, com jeitinho, para a gente só sentir depois de morder-lhes o licor.

Fosse como fosse, certo era que, no contacto do rosto com a superfície rugosa do tronco, o mundo ia fazendo a sua fotossíntese e os desaires, quaisquer que fossem, iam-se aquietando dentro do meu peito. Breve, breve, regressava a respirar e, por força de oxigénio novo voltando a correr nos pulmões, nada parecia mais ser tão sem jeito assim, tão sem remédio ou solução.

Não sei porque me lembro e falo sobre isto agora. Simplesmente não sei.

* Árvore encontrada e fotografada pelo André, na região do Alto Amazonas.