Sempre que possível, alocarei aqui registos e outros relatos que falem da Amazônia e permitam partilhar, através de um outro testemunho que não apenas o meu, as vivências experienciadas naquela região. Que o legado dessa terra, os conhecimentos e heranças dos seus povos repasse para os que nunca tiveram a felicidade de por lá andarem, através das narrativas, lendas, conversas, prosas e confabulados que a Grande Floresta inspira aos que, por alguma razão ou em algum momento, aconteceram de enterrar os tornozelos nas terras barrentas da civilização das águas e das matas verdes

O primeiro desses relatos segue já aqui em baixo. Clicando no link, abre o Diário de uma viagem ao Amazonas, por José Cláudio, pintor e rabiscador de letras, a morar em Olinda. As passagens reproduzidas constam do caderno de anotações onde escrevia em 1975 e foram publicadas no suplemento de cultura do Diário Oficial do Estado de Pernambuco, durante Abril do ano passado.


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Quarta, 2 de abril de 2008, 08h01

Diário de uma viagem ao Amazonas

José Cláudio

Transcrição de uma carta entusiástica que escrevi a Léo, Mané e Maria (minha mulher e filhos):

“Manaus, 24 de outubro de 1975
Léo, Mané, Maria:
Ontem já dormimos no barco. Ele tem 18×4 metros. As redes ficam se cruzando na popa. Somos cinco: Vanzolini, Chica, um zoólogo americano e sua mulher (o nome dele é Ronald, lida com sapos) e eu, além da tripulação composta do mestre Filomeno, cozinheiro Valter, maquinista João e taifeiro Alonso. Achei Manaus uma cidade fantástica e o rio não dá impressão de rio. Vi do avião a divisa das águas do Negro e o Solimões. Hoje fui ao mercado ajudar a carregar as compras. A parte de peixes me maravilhou. Ontem no barco jantamos sopa de tucunaré. Eu comi uma cabeça, Vanzolini a outra. Hoje vi bandas e mais bandas de tambaqui e mantas de pirarucu e todo mundo na rua com fieira de matrinchão, que parece com curimã. Hoje de manhã o mestre subiu do porão com um tracajá, uma tartaruga proibida, mas infelizmente não me mostrou: só vi quando passou o saco por cima do nosso rebocador (pois o barco não tem motor e quem puxa ele é um rebocadorzinho). O porto onde estamos é um lugar fantástico. O cais é um sistema de dobradiças gigantescas que sobem e descem ao sabor do rio, flutua, em vez de cais fixo. O espaço no barco tem de ser dosado cientificamente. O nome deste barco é GARBE e o do rebocador é LINDOLPHO R. GUIMARÃES. Comprei uma bandeira do Amazonas. A capitania ainda não deu licença pra a saída do barco. Talvez saiamos ainda hoje. Abraços.”

Depois ainda na carta acrescentei: “Travei conhecimento com o tacacá. Conheci de vista nestante. Mais tarde vou tomar cuínha, perto do Hotel Amazonas.”

O peixe mais incrível que eu já vi na vida foi o cuiúcuiú. Hoje de manhã comprei, descasquei e comi um grande ananá com farinha de paneiro. Provei vários guaranás de fábricas daqui e achei todos ótimos: “Tuchaua”, “Real”, “Magistral”, “Baré”, “Regente”, “Andrade”. Um rapaz que veio encher os extintores, muito risonho, os dentes grandes, perfeitos e brilhantes, meio índio meio negro, disse que o tracajá só dá no fundo do rio, e que é bom pescar com um barco a motor fazendo voltas em torno de um poço fundo. São ligeiros n’água. Ficam zonzos e sobem. Filomeno disse que pegava de espera fisgando-os quando subiam para comer uma fruta, o caimbé. O outro rapaz disse o nome da fisga, que não é fisga, é uma ponta sem barbela e segura por pressão contra o casco do bicho, sonoro e ritmado como a maioria dos nomes indígenas: tapuá.

O lugar mais bacana para se ver o crepúsculo no rio é o mictório do Mercado Municipal.

Ontem o mestre falou das espécies de embarcação: tem o empurrador, o rebocador, a lancha, a alvarenga ou pontão ou balsa, o motor de recreio ou barco de passageiro ou motor de linha. A alvarenga não tem coberta mas alguns chamam a um barco como este, o GARBE, de alvarenga, simplesmente porque não tem motor.

A comida predileta de Filomeno é marreco.

Hoje o cozinheiro substituto fez três matrinchãs, que ontem escrevi matrinchão como diz o mestre Filomeno. Mas Vanzolini disse que o nome é matrinchã. Três matrinchãs ao forno. A parte do rabo tem espinha que não é brincadeira. Eu fui me meter a comer à japonesa, mastigando tudo, e quase me engasguei. O gênero é Brycon.

O prato predileto do taifeiro Alonso é feijoada. A fruta, melancia.

Como tem muitos barcos atracados no rodo (ró) uns atrcam nos outros. Para chegarmos ao GARBE passamos por dentro da lancha do governador e por sobre a capota do nosso rebocador. Em cima da capota tem um galinheiro, jaula de madeira para dez galinhas ou patos que vamos levar. Vanzolini preveniu Chica para comprar milho. Ontem comprei o tal mosquiteiro de rede. Tem de três tipos. A mulher quis saber se onde moro tem pium, porque o de filó é bom para carapanã mas deixa passar o pium. A dormida no rodo de Manaus é ótima. Não tem muriçoca e sobe do rio um arzinho refrigerado. O barco balança suavemente e nos embala na rede. As redes rangem, uma mais fino, outra mais grosso, e nos vai ninando mesmo depois de a gente pegar no sono.

Pintei meus primeiros quadros amazônicos, aqui do porto. Os títulos são “Rodo” e “Garbe”, que escrevi de trás da tela. Mas como poderão ser reentelados vou escrever na frente. Aqui vai a descrição: um pega umas alvarengas estacionadas, tem no canto, ou melhor do lado esquerdo, de quem vai, um pedaço do casco de um navio, que é o ARARUAMA. Vanzolini disse que o nosso primeiro navio tropedeado na última guerra tinha esse nome. O outro quadro tem no primeiro plano duas rodas salva-vidas laranja-vermelho com os nomes GARBE-BELÉM-PARÁ. Ao fundo, vista parcial do Araruama.

Chupei uns manguitos muito doces.

A rede de Vanolini estava fazendo um rangido como um canto de araponga bem longe. Eu pensei até que ele estivesse compondo.

“Domingo no Negro”, disse Vanzolini quando o barco parou defronte de Manaus bem no centro do rio aonde fomos para abstecer de água. Chica e a americana, depois o americano e eu, caímos n’água. Vanzolini disse que tinha esquecido o calção. O mestre Filomeno tirou escada que desce pro porão e amarrou na varanda do barco para a gente subir. Eu nunca sei direito se sei nadar ou não, de modo que em vez de pular de cima feito os outros, esperei que botasse a escada e fiquei segurando nela até perder o medo e me soltar. A americana disse “nice” e não sei o que “like a bath”. Pintei da ponta do cais um quadro olhando para São Raimundo. Às onze e meia mais ou menos lavei os pincéis e fui fazer turismo, conhecer uma praia, Ponta Negra, onde almocei um peixe gordo e gostoso mais largo que uma carapeba: carauaçu. O melhor jeito de comer peixe amazônico é com farinha seca, essa grossa de paneiro, com pimenta murupi, uma compridinha, duas vezes e meia maior que a malagueta, cor amarelo-limão. Lindas morenas com cara de índia, algumas com o cabelo bem preto batendo na popa da bunda. Sobremesa pupunha. Trouxe uma que dei à americana e ela pediu informações a Vanzolini, porque meu inglês não era suficiente, que descascou a dita pupunha e deu a ela para comer. De volta de Ponta Negra fui ver o Teatro Amazonas. Gostei muito da cúpula como um peixe com as cores de papagaio, ou camaleão, as escamas brilhando ao sol, sem medo de usar todas as cores a cru. E cada vez gosto mais do prédio da Alfândega, que pintei no fim da tarde entre os violetas e laranjas do céu de Manaus. Acho essa arquitetura espontânea e um tanto vale-tudo de Manaus muito original, muito com coragem de ser alguma cisa por conta própria. Ontem Cica fez trinta anos e Vanzolini nos levou a um restaurante. Comi filé de pirarucu na brasa. Delícia. A americana estava “sick” do estômago. Queria ver mesmo praia de rio porque nunca acreditava que pudesse ser praia de verdade embora sendo do rio Amazonas. Mas é de areia fina feito praia e dando ilusão de mar. Parecia até a da frente da minha casa em Pernambuco. Aliás da casa onde moro, que o brasileiro da minha classe não tem direito a ter casa. Domingo na Ponta Negra.

Perguntei à moça da farmácia se ia às praias. Ela disse que ia às vezes a Ponta Negra ou Tarumã, mas preferia os banhos. Os banhos são pequenas represas de madeira feitas nos igarapés de fundo de areia. Geralmente particulares, existem alguns públicos como o “Parque 10″, “Ponte da Bolívia” e “Tarumãzinho”. Porque – disse ela – nas praias essa época tem um bichinho que a gente acaba de tomar banho ele fica e coça, a gente passa a unha e fica a marca, ele cobre a pele com uma camada mais escura: o cauixi. Vanzolini disse que o cauixi mesmo é uma esponja e larga esses ovinhos que grudam na pele. Os índios usavam para temperar a cerâmica, é o antiplástico, que é sempre sílica, mas usavam também a cinza da casca de um pau, o caripé.

Quarta, 16 de abril de 2008, 08h01

Diário de uma viagem ao Amazonas (II)

José Cláudio
Do Recife (PE)

O maquinista João, o prato de que mais gosta é guisado de tartaruga. Que o rio dá é muito é o Juruá. O filho de João, Georgetom, a fruta de que mais gosta é abacate; e comida, carne de boi. O único peixe de que inda gosta gosta um pouquinho é o tambaqui. Dez anos. Chica gosta de sapoti e caqui e adora abóbora, pepino, melancia e melão.

João disse que vai dar “um geral”. Eu perguntei o que era geral, ele disse “um banzeiro”. São tipos de vento.

Fui comprar Neocid para espalhar junto dos rolos de tela, Zélio para se aparecer rato, Repelex. Tomei sorvete de cupuaçu. Quase não percebi o gosto. Dizem que em Belém se sente mais, na Sorveteria Santa Marta.

Finalmente saímos, segunda-feira 28 de outubro de 1975. Hoje afinal entrei no Rio Amazonas, que eu ia morrer com raiva se não entrasse um dia. Alguém me mostrou a diferença da água, barrenta, com brilhos vermelhos. Paramos para pegar duas canoas num flutuante, armazém em cima de toras grossas, de mais de metro de diâmetro, que Paulo disse que não afunda nunca porque não encharca: açacu. Mas o nome mesmmo é assa-cu, porque o leite queima. Travei minha primeira batalha com o Rio Amazonas. Pintei uns cinco quadros. Vi uma árvore formidável, a sumaúma. A casa junto dela parecia um mosquito. Tivemos um vento atravessando e encostamos no barranco. O taifeiro Alonso pulou em terra para amarrar a popa numa árvore. O rio levou a palheta que escorregou e caiu nágua. Minha oferenda à Iara. O quadro que estava pintando é o que tem escrito “Formação de um temporal”. Já quase escurecendo entramos no Rio Madeira. É muita água. São rios tão largos que a idéia que se tem é a de que a proa do barco está se dirigindo contra a margem, como se estivéssemos cercados pelo horizonte de mata, perdida a noção de navegar entre paralelas. Hoje o menu foi galinha. Já comi tambaqui, matrinchã, tucunaré, carauaçu, pirarucu. O cozinheiro preparou com as cascas do ananá que descasquei um aluá com açúcar queimado: excelente! Parece que vamos pernoitar em Nova Olinda. Eu, no Rio Madeira, entre duas Olindas.

Estamos atracados num ponto de Furo do Canumã. Vi um lugar lindo, desses que, parece, ninguém ainda visitou. A água tranqüila duplicava o barranco zarcão que passava para dentro dágua de cabeça para baixo num verde negro somente perturbado às vezes por algum pulo de peixe. Da beira, subindo, as enormes árvores querendo ocupar o céu, troncos esbeltos levantados sobre a selva. Passamos por Nova Olinda que mostra um cemitério na beira do barranco. Algumas covas já estão com as cruzes inclinadas e a cada cheia algumas ossadas devem trocar de sepultura, de terra firma para água, nesse intercâmbio amazônico. Mais adiante pintei umas barreiras cor de ouro, barro de amarelo queimado intenso. Nem parecia terra. Dormimos ontem com o barco atracado num barranco do Rio Madeira e da capota Filomeno nos mostrou, ao americano e a mim, três jacarés, isto é, o olho, brasa bem acesa vermelho fixo. Apanharam varas de oeirana para armar o mosquiteiro de rede. Eu já estou doido de ver tanta coisa, o barco passando e misturando tudo na minha cabeça. Neste momento a tripulação está tentando pegar peixes que são atraídos pela luz da pilha. Vi uma árvore cuja forma era dada pelos ninhos de xexéu, aqui japiím, mais do que pelas folhas. Um ninho junto do outro ao longo e até a ponta dos galhos.

Filomeno é paraense de oriximiná.

Manhã no largo do Canumã. À distância de um tiro de espingarda uns patos pretos à flor dágua. Nome: miuá. Um cabloco que estava conversando na proa do rebocador disse que Foz pertence a Borba (Foz do Canumã). Que Borba é calçada e se pode andar de Honda. Eu achei engraçado ele falar de Honda, que para mim ainda é novidade.

Engraçado esse pessoal do barco. Qualquer um pega tranqüilamente no leme. Ontem estávamos almoçando e quem encostou o barco foi o cozinheiro com chapéu de mestre-cuca e avental. Passamos o dia na aldeia Coatá, dos índios Munducuru. O barco atraca e os índios com pouco vêm propor tocas, principalemte café. Não havendo troca, eles pedem sempre três, nem dizem cruzeiros. Um cacho de banana, um pé de couve, dois talos de cebola branca: é sempre três. Menos bichos. Vanzolini comprou tracajazinho e dois jabutis. Eu pintei dois quadrinhos da aldeia, ficando um pela metade que eu não quis atrasar e disse que já tinha terminado. O mosquito não me deixa escrever. Voltamos para o mesmo local em que dormimos ontem. Gente tomando banho na beira do rio.

Quarta, 30 de abril de 2008, 07h59 Atualizada às 21h48

Diário de uma viagem ao Amazonas (III)

<b>Casa e açaizeiros.</b> Rio Madeira, Amazonas. Desenho a caneta esferográfica feito durante a viagem, dos cadernos de anotações de José Cláudio

Casa e açaizeiros. Rio Madeira, Amazonas. Desenho a caneta esferográfica feito durante a viagem, dos cadernos de anotações de José Cláudio

José Cláudio
Do Recife (PE)

Vanzolini disse que no Acre, em Cruzeiro do Sul, tem abacaxi de 15 kg. Na certa ele quer que eu saia dizendo que vi, porque uma vez ele dsse que nordestino toda história que ouve diz que se passou com ele.

Deitada na beira do rio de uma linha de mais de vinte metros de pau-d’arco. Castanheiro chega a trinta. Na aldeia munducuru conversei com uma indiazinha que era cópia fiel de minha sobrinha Andréa, sendo a cor mais queimada. Podia ter quatro anos. Eu estava na beira, em terra, tinha tomado banho no rio, me sentei numa árvore cujo tronco fazia um arco em cima da água, diz Filomeno que era mari-mari, porque no barco fazia um calor danado. Ela chegou e sentou-se junto de mim, bem gorduchinha. Começou a escavar o chão com um gravetinho e cantar: “Bilu, bilu, bilu, bilu tetéia”. Como é o seu nome? – eu perguntei. “Cátia.” Mas não subimos mesmo até as casas porque o agente da Funai não estava, só a enfermeira, uma moça da região.

Só se fala aqui em tracajá, em irapuca. Tem cavalo treinado em levar o vaqueiro onde tem tracajá e boi marrequeiro que vai comendo capim como quem não quer nada e o caçador atrás. Assim se aproximam das marrecas. Mas isso no Pará, ou em Marajó.

Quem mexeu com o governo para salvar os bichos de casco do Rio Trombetas, que descobriu que era o maior tabuleiro de tartarugas do Brasil, foi Vanzolini.

É costume ao atracarmos num povoado os nativos subirem para visitar o barco. “Quando um barco chega e a gente não sabe o que é, quem sabe, pode haver algma coisa que interesse”, explicou um deles.

O cozinheiro é bom no picadinho de carne de charque com cará-roxo. Hoje está preparando um jabuti. Vamos ver. Quem abriu ele foi Filomeno com o serrote. Eu fiz um risco da cena.

Maués, capital do guaraná. Quando o padre saiu, virou-se e disse: “Maués, mau foste, mau serás.”

Estamos saindo do Furo do Canumã. Mais ou menos dez da manhã. Entrando de volta no Rio Madeira. Dia, não sei.

As cidades mais importantes do Pará depois de Belém são Santarém, Óbidos, Breves, Almerim, Abaetetuba, Monte Alegre, Oriximiná, diz Filomeno. Encantadora mistura de nomes portugueses com tupi-guarani. No Amazonas, depois de Manaus é Itacoatiara. Fica no Rio Amazonas.

Essa aldeia que fomos ontem os índios quando eram selvagens eram eméritos mumificadores de cabeça humana. Caçadores, trabalhavam bem com fumaça. Eram cabeças defumadas, em tamanho natural.

A madeira do barco é itaúba. É escura, dura, tem fibra cacheada às vezes, trançada, feito a oiticica.

O macho de jabuti chama-se carumbé, e no Purus o macho do tracajá, joão-prego. O jabuti macho tem uma cavidade embaixo para encaixar em cima do casco da fêmea, mas o que abriram hoje tinha a baixa mas era fêmea, estava cheia de ovos como galinha.

Vanzolini está limpando o casco do jabuti. Nós estamos indo para Borba.

Quando passávamos pela Ilha do Guaxinim, já chegando a Anexim, Vanzolini gritou: “Olha o cheiro de jabota!” Era a “jabutiá” que estava cozinhando.

Foi o mamão mais saboroso que eu já comi em toda a minha vida. Era amarelo quase vermelho, mas parecia cor de mamão passado, amarelo bem vivo, cor de concriz. E o jabuti Vanzolini disse que tinha de ser na panela de pressão senão leva sete horas no fogo. Eu comi mesmo daquelas partes do couro das patas preto salpicado de botões vermelhos. Tem gosto de caça, de pé de porco, de galinha, e comi dois ovinhos e os miúdos. A carne veio traçada com pedaços de maxixe e jerimum. “O cozinheiro é bom”, Vanzolini disse.

Eu comi o mamão com semente e tudo. Não era grande, era tamanho de um coco e dava para morder meia fatia de uma vez. Chica disse que não gostava de mamão aí eu pedi licença para comer o pedaço dela.

Hoje, Dia de Todos os Santos, já é a segunda noite que vamos dormir em Borba. Vou mandar um cartão para Hermilo Borba. Chegamos ontem de tarde. Encostamos junto de um barco de passageiro com dois andares de redes armadas, moças de short e bustier, tipo índio predominante. Alguns passageiros estavam brincando na água do rio. O casal de americanos saiu e pegaram muitas rãs. Vanzolini pegou um jacaré tinga de uns três palmos que hoje de manhã pintei. Correu a notícia de que se comprava calango e quando Vanzolini chegou já parecia um circo, dezenas de meninos atrás dele. O delegado veio a bordo pedir maiores informações. Hoje foi chegar um menino atrás do outro oferecendo calango, largatixa, que aqui chamam osga, e a novidade foi um “motor” que veio carregado de tracajás de vários tamanhos e um enorme cabeçudo, que pintei, de uns três palmos. Cabeçudo é um bicho-de-casco, como prefere dizer Vanzolini e o povo da região, a tartaruga, porque o cabeçudo, como o tracajá, e outros, não são tartarugas. Vanzolini comprou além do cabeçudo dois tracajás grandes de dois palmos e mantas de carne de paca, que comemos agora no jantar. Peixe aqui é de dar com o pau. Basta o cozinheiro abrir a torneira da pia da cozinha que já ficam pulando no lugar que a água cai. Os meninos passaram o dia levantando bagre, que aqui não é pescar, é só levantar. As canoas de vez em quando encostavam oferecendo tucunaré e jaraqui, que comemos no jantar com feijão e arroz junto com a paca. Subi o barranco e fui por uma ponte de pau em casa de um velho que faz remos, porque os acho bonitos aqui no Amazonas. Comprei dois do tipo rabo-de-peixe-boi e um pião. Queria comprar um do que vi uma moça com ele, com uma pá de dois lances, como se fosse um violão ponteagudo mas não achei. Passando pela ponte a vista é uma beleza, as casas bem diferentes, bem amazônicas, em cima de estacas, de tábuas, molduras e frisos recortados caprichosamente a serrote, ou de palha que mesmo depois de seca é amarela, algumas com parede somente do meio para trás, paredes de tábuas ou palha. “No geral a parede é de buçu mas há grande refinamento na escolha do material de construção”, diz Vanzolini. Os remos que comprei são de itaúba e araru. Ia escrever para casa e mandar algum cartão, mas, sábado, Vanzolini me aconselhou a deixar para segunda-feira. Vi muito pé de açaí, castanheiro e mil outras árvores que não conheço. Num quintal tinha um pé de cuia que usam para tirar água da canoa. Vanzolini sai para apanhar lagartos com um facão na cintura e uma pilha no meio da testa quando de noite.

Um menino pega a gritar “ai ai ai”. Foi um mandi que lhe espertou o esporão no meio da sola do pé. Ele gritava ao mesmo tempo “ai ai ai” e “não quero que ninguém puxe não”. Mas Alonso foi e puxou, e o cozinheiro deu um limão a João para passar.

Hoje, dia de finados, subi o barranco e fui andar pela cidadezinha de Borba. É até grandinha. O cemitério é maior do que fogo de velas e a missa sendo celebrada e respondida pela população, do mesmo colorido das missas campais de Ipojuca. Parecia que numa covinha daquelas, um montinho de terra com uma cruzinha fincada e velhinhas brilhando estava parente, ou eu mesmo. Borba parece Ipojuca qundo não havia carro. Oh beleza andar numa rua! Em vez de rua é uma segunda calçada igualmente alisada com colher de pedreiro. A maioria das casas é de tábuas e por cima dos perfis aparecem as hastes delicadíssimas dos açaizeiros. Tomei na pracinha com gente escassa uma cuinha de tacacá, o primeiro da minha vida. Depois a mulher acedeu em vender-me a cuiazinha histórica, que vou levar para léo ou mamãe. Na volta do cemitério a dona do bar Caiçara me deu um copo de suco de açaí, que chamam vinho. Uma menininha mangando de um menino gritou “Avua, passarinho, avua!” Quando estava tomando o tacacá uma velha aproximou-se umas três vezes ora para pedir mais jambu, ora tucupi, ora pimenta, até que a mulher disse: “Não.” Ela olhou para a mulher, deu um muxoxo e disse: “Presumida.” Tinha um velho na esquina da rua que dá para o barranco onde estamos com o barco que falava sozinho. Eu passei junto para ouvir o que dizia: “Cadê meu amor que não vem?…” O jantar no barco foi um banquete amazônico: jarati ticado (chama-se ticar dar uns talinhos de milímetro em milímetro transversais ao longo do dorso do peixe até a cauda, que quando se frita, as espinhas somem), sarapatel de cabeçudo, carne de tracajá e paca assada de que levamos umas mantas penduradas numa vara amarrada uma ponta no pau da bandeira e a outra assentada em cima do galinheiro do Lindolfo. Somado com o tacacá que tomei na praça e o açaí que a dona do bar me deu, Dna. Mundica, fui dormir com a Amazônia na barriga.

Quarta, 14 de maio de 2008, 07h44 Atualizada às 11h05

Diário de uma viagem ao Amazonas (IV)

José Cláudio
Do Recife

Hoje de manhã, dia 3, já às seis da manhã começou a rotina. Os meninos trazendo papa-ventos para vender a Paulo a cinqüenta centavos por cabeça. Os americanos trabalhando as rãs que pegaram ontem. O empregado do flutuante em que estamos abastecendo de óleo vendeu uma iaçá, em outros lugares chamada pitiú e em outros cambeva, que em tupi significa “cabeça chata”. “Pitiú” é principalmente no Trombetas e significa “mau cheiro”. É parecida com o tracajá, a cabeça um pouco mais larga, o desenho das placas do casco ligeiramente diferente, as do meio menosres. A pele embaixo mais amarelada. O americano ontem pegou uma cobrinha meio rara, alarnjada, cujo nome Vanzolini não sabe: disse que só quando botar embaixo do microscópio. “Pode ser um filhote de Tripanurgos”, diz ele. Sugeri que levasse uma lata de querosene para troca, mas ele disse que não, que o povo fica pensando que é barco de assistência, que estamos trocando as coisas do governo, que trocou com um e por que não trocou com outro. Antigamente ainda arrancava dente, dava um remédio, mas agora que tem mais comunicação o máximo que faz num caso grave é dar antibiótico e mandar para a cidade mais próxima.

O nome “Garbe” é do primeiro paulista a estudar a Amazônia. No Museu Paulista tem cabeças mumificadas ainda encontradas por ele entre os Mundurucu no princípio do século.

Vanzolini canta: “A umbigada que Sabino mandou dar”.

Ronald, a comida que mais gosta é tartaruga na castanha e Míriam de espetinho de porco com molho de amendoim, chama-se “moo satay” e é da Tailândia. Mas a primeira coisa que responderm foi “ice cream”.

Vanzolini canta: “Tu solo tu”.

Vanzolini canta: “Olho da minha janela/ Rua Epitácio Pessoa/ Bairro chamado Lagoa/ Rio de Janeiro, GB”. Eu disse: “Que letra arretada!” Ele: “Mas isso é de um grande poeta, é de Billy Blanco!” “É coisa para Manuel Bandeira”. “Desculpe” – ele disse – “não quero parecer grosso nem original, mas eu acho Billy melhor”.

O Santo Antônio da Amazônia é o boto, o olho do boto. Tira-se o olho dele, põe-se para secar e leva para uma mãe-de-santo benzer. Vanzolini informa que precisa ser de sexo certo, porque senão acontece como o americano que andava com uma fila de marinheiros atrás dele. Quando chega um boto no INPA as vitalinas ficam assanhadas.

O macho de qualquer bicho-de-casco d’água se chama capitari, e de jabuti, carumbé.

Ninguém gosta do boto porque tem pitiú e a carne derrete que vira água.

Vanzolini canta: “Perfídia”. Em espanhol. “Solo tu” também foi em espanhol. E “Jalisco”.

O boto tucuxi, o pretinho, bota a pessoa para a beira. O laranja ou vermelho é agressivo, só quer saber de comer.

Vanzolini e Chica foram ver um mágico e entraram, pensando que era o clube aonde ia se apresentar, em casa do promotor. O promotor ficou uma fera. Disse que esperasse no barco uma intimação. Hoje. O caso foi ontem de noite. Em lugar disso o prefeito, que não tinha entrado na história, mandou uma enorme tracajoa de presente para o “engenheiro”, um homem veio trazer esta manhã. Eu disse: “Que beleza!” Ele me deu o casco, porque não era bicho da expedição. Há dois dias eu só faltei implorar para comprar um tracajá para ficar com o casco: ele não deixou. Eu também queria comprar uma bola de pele de borracha de seringueira, cheia de ar como bola de futebol, dura, perfeitamente esférica e quase do tamanho de basquete, que bastava soltar no chão, subia e batia no teto, toda inteiriça, sem pito. Essa não passa na alfândega. Ontem um menino estava com uma pequenininha, tamanho de uma laranja, que dava para esconder no bolso mas eu nem falei.

Qualquer criança joga uma tarrafa meio fechada, porque não tem força de jogar aberta, junto do trapiche e quando puxa vem peixe. Ontem um menino jogou, ou melhor, soltou a tarrafa, cuja boca não estava mais aberta do que um saco e quando levantou tinha seis peixes! O menor, de mais de palmo, aracu. Aracu e piau são o mesmo.

Vanzolini côa formol com um filtro Melita de coar café. Já o café é coado num saquinho de pano.

Vanzolini canta: “O facão guarani quebrou na ponta, quebrou no meio, eu falei pra baiana que o trem tá feio”.

Vanzolini canta: “O facão guarani quebrou na ponta, quebrou no meio, eu falei pra baiana que o trem tá feio”.

Quem nasce em Manaus é jaraqui, quem nasce em Manicoré é bacurau, quem nasce em Borba é camaleão, em Nova Olinda é ossada e em Itacoatiara, acari.

O tracajá que o prefeito mandou não era para Vanzolini e sim para o engenheiro que veio fiscalizar a estrada, cujo barco estava amarrado junto do nosso. Vanzolini à noite foi agradecer. O prefeito jogava baralho. Vanzolini chegou, deu boa-noite, ele não conheceu, disse “Pode dizer”, Vanzolini disse “Eu vim agradecer o bicho-de-casco que o Sr. nos mandou…” Ele não entendeu, entendeu, se recompôs, Vanzolini conheceu, ele disse “De nada”, Vanzolini perguntou se queria alguma coisa para Porto Velho, ele disse “Não. Boa vaigem”.

Quanto ao promotor, bebe e toda noite faz uma cena. Não mandou intimação nenhuma e hoje de manhã saímos, quer dizer dois dias depois.

Filomeno matou a iaçá. Ovada. Para a mesa vieram quinze ovos já prontos para serem postos, com casca. É quase do comprimento do ovo de galinha mas a casca é mole e a clara não coagula, mesmo no ovo cozido continua líquida e o diâmetro é menor. O gosto é parecido com o da gema do ovo cozido de galinha mas é mais massento. Matou também a tracajá. Os machos são menores. Vanzolini disse que não têm massa cinzenta, logo não sentem dor. Mata-se cortando em baixo dos lados, ao comprido com o serrote. Nem se preocupam em cortar a cabeça, serram o bicho vivo. Eu passei a manhã limpando a cabeça, que Vanzolini, quando já havia tirdo uma parte d carne, mandou cozinhar e terminou de limpar e me botou para limpar o casco. O almoço foi iaçá, a carne, asada, e o sarapatel. Eu não acredito nessa história que o bicho não sente dor. Ele esperneia, tenta tirar o serrote com as patas, morde.

Quarta, 28 de maio de 2008, 08h02 Atualizada às 21h02

Diário de uma viagem ao Amazonas (V)

José Cláudio
Do Recife (PE)


Basco Pesqueiro no rio Madeira

06.11.75. Tivemos uma noite esplêndida, sem carapanãs. A felicidade é isto, uma noite com, outra sem mosquitos. Ontem ao escurecer atracamos numa margem baixa e lamacenta e foi a maior surra de mosquitos que levei em toda a minha vida. Os bichos parecia que tinham bico de aço. Entrei debaixo do chuveiro para tomar banho e bastava botar um braço de fora que levava ferroadas, quatro ou cinco de uma vez. Mordem por cima do corpo molhado, não tem problema. E como o dorso ou a bunda estava sempre fora do chuvisco, ou a barriga, era espetado de todo lado. Cobri-me e eles varavam o cobertor. Botei Autan, Repelex, mas não respeitavam, deviam ser suicidas e a cada ferroada certamente caíam mortos, ou mordiam e só depois é que iam embora por causa do remédio. Também não se importam que a gente se mexa, pegam e ficam colados, é preciso matá-los sempre. Tanger não adianta: ficam tentando até que você se canse e aí furam. Pingando de suor, era abrir uma pontinha do cobertor para respirar, e entravam em bando. Não dormi um minuto. Vanzolini disse que também não, quando cuidou da vida o mosquiteiro estava cheio. Da cintura até o toitiço nele era só calombo. A noite de ontem para hoje preparamo-nos para a batalha, porque o dia todo o barco estava cheio de carapanãs. Meio-dia, o sol tinindo, os bichos revoando em torno de nós e mordendo. Eu dava uma pincelada no quadro e uma rabanada com o pincel. O carapanã é a mesma muriçoca, sendo que mais preta e a picada mais pronta e mais queimativa. Hoje de noite o barco foi amarrado perto da terra firme, um barranco alto e enxuto, num pau no meio do rio. Os carapanãs surpresamente desembarcaram e a noite foi tranqüila. Já deviam estar de barriga cheia. Abrir a janela do camarotinho de proa, que é para onde Vanzolini me passou porque disse que lá junto deles eu fazia barulho demais. Não explicou que barulhos, acho que é porque eu ronco, não sei. Corria brisa agradável. Armei a rede e só acordei com dia claro, depois voltei para a rede até Vanzolini me acordar dizendo “Sete horas, o café está na mesa”. Depois do café, Alonso, que estava no leme, me deu uma pequena aula de navegação, ele e Filomeno. Quando tem praia dum lado, o canal é do outro, perto do barranco. As ilhas formam ponta para baixo, a jusante. Nas curvas o canal quase sempre é por fora, mas pode ser rente. Quando tem redemunho perto do barranco pode ser pedra. O jantar ontem foi pirarucu. Assado em tabletes e desfiado, comprado em Novo Aripuanã. O quilo do pirarucu, doze cruzeiros. Uma galinha, vinte. Um pato grande, trinta.

Vanzolini joga paciência, um tipo que quem ensinou foi Arnaldo.

Quando raspamos o fundo no lugar chamado Ganchos, Vanzolini estava dormindo e eu limpando o casco de tracajá que ele me deu. Ele pulou da rede e disse: “Encalhamos”. Mas tinha sido só uma raspada. Mais adiante raspamos de novo. Os marinheiros desceram e o prático João, quando o barco saiu, ficou para trás, lá no meio do rio gritando desesperadamente “traz a canoa!” Estava com medo da arraia.

Vimos uma moça e uma meninazinha numa canoa. Vanzolini disse: “E vê quem está pilotando!” Era a menina. Cortaram a estria do barco que nem parecia. Ele disse que estava na ilha do Marajó, num lugar que não se via terra de nenhum lado, aí avistou duas crianças numa canoa. Aproximou o barco pensando que tinha acontecido alguma coisa. Era uma menina e um menino. “Que foi que houve? Estão perdidos por aqui?”, perguntou. “Foi mãe que mandou a gente comprar café”, um deles respondeu.


Mulheres na beira do rio Madeira. Novo Aripuanã, Amazonas

Vanzolini anda com um sapatinho de Maria Eugênia no bolso “porque Deus guia os passos dos inocentes”. Falando de superstição, nenhum barco aceita passageiro para embarcar com um jabuti. Acho que é porque o bicho anda em terra de casco para cima. Não fazem restrições aos bichos-de-casco d’água.

Depois de grande chuva que fez sumir as margens, estamos chegando a Manicoré. Vanzolini canta: “Mas não demore que a outra pode lhe encontrar”.

As únicas frutas que temos encontrado são melancia e limão.

Barco em perigo, qualquer Paraná é abrigo.

Noite ótima em Manicoré. Barranco firme, mais alto ainda talvez de que o de Novo Aripuanã. Alonso completou cinqüenta e dois anos. Tomamos algumas cervejas e jogamos uma partida de sinuca. Depois inventaram de procurar a zona. Andaram a noite toda, em cada pé um quilo de barro, e foram terminar a noite debaixo duma mangueira onde informaram que aparecia mulher. Finalmente de madrugada apareceu uma mas tinha vindo apanhar mangas.

Hoje no mercado de Manicoré tinha carne. Mataram um boi porque ia chegar uma deputada. Chica voltou irritada: dois quilos, da pior qualidade e mais dois de peles postos ostensivamente depois. Quem quiser saber o que é o Amazonas vá ao mercado, a começar pelo de Manaus, comprar carne. Nas outras cidades, nem se fala: falta tudo. Mesmo peixe, não é chegar e encontrar não. Parece que cada um pesca por si. Vanzolini disse que se acha a zona do seguinte modo. Pergunta-se onde é a casa do padre. Quando a pessoa ensina a gente se espanta: “Mas bem no meio da zona?” Aí a pessoa diz: “Não! A zona é ali!”, e mostra.

Os meninos de Borba se encheram de pegar papa-vento, calango tamaqüaré, a quinhentos, isto é, cinqüenta centavos.

Ás vezes se encontra abacate. Isto é, encontramos em Borba.

Hoje de tarde tinha na mesa: refresco de maracujá, banana, maçã, abacate e melancia para quem quisesse merendar.

Chica pinta aquarela. Vanzolini joga paciência.

A cuia que eu comprei em Borba é pintada com esmalte. A verdadeira é curtida com mijo, fica pretinha da cor de preto-marfim sem perder a textura natural, como informou Vanzolini, e me lembro de ter visto: minha vó Mãe Joaquina tinha uma assim. Este verso do folheto “As proezas de João Grilo” criou outro relevo: “João Grilo disse: danou-se!/ Misericórdia, São Bento!/Com isto mamãe se dana/ Me mil e quinhentos/Essa coité, seu vigário/ É de mamãe mijar dentro!”

Quarta, 11 de junho de 2008, 07h55 Atualizada às 22h06

Diário de uma viagem ao Amazonas (VI)

José Cláudio
Do Recife (PE)


Barreira do Matupiri, Rio Madeira, entre Novo Aripanã e Manicoré

Cemitério de Nova Olinda, Rio Madeira, AM, 1975. Alonso está no leme. O maquinista João joga a linha com um chumbo na ponta para ver a fundura. O cozinheiro Valter pica a carne. Filomeno está enchendo a caixa d’água. Eu vou fazer a barba. Hoje pintei dois quadros: “Manicoré” e “Democracia”, nomes de dois lugares no Rio Madeira. Lavei roupa, que já secou, e já guardei, remendei um calção, limpei a lama das botinas e engraxei-as. E limpei as vértebras do pescoço da tracajoa, que Vanzolini tinha botado na água sanitária para soltar mais a carne depois de ter cozinhado uma meia hora.

Telefonema para Léo. Central de Manicoré. Data: 07/11/7. Minutos: 03. Total: cr$50,40. Telefonista: Graça.

MZUSP: Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo. EPA – FAPESP: Expedição Permanente da Amazônia – Fundação do Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

Vanzolini aprendeu a lidar com bicho com sua mãe que criava um macaco, dava banho nele e botava perfume. A família do pai dela era de São Luiz do Paraetinga e a mãe de Itu. Nasceu em Jabuticabal, chamava-se Finoca. Mas ele diz que não, que o macaco de Dna. Finoca veio depois.

Jabuticabal é a letra de Glorinha. “Glória Moreira!”, lembrou Vanzolini. Chica disse: “Ela dançava na minha escola”. Não há nada que Chica não tenha estudado: pintura, dança, caratê…

No lugar Sapucaia tem uma enseada de uns duzentos metros, de uma terra caída. Alonso leu no jornal em 53: A Tragédia da Sapucaia. Nesse local, no barranco, tinha uma cidadezinha e, dia do padroeiro, festa. Uma se destacava, era a cobiçada, inclusive por um moço loiro muito bonito que apareceu de repente sem ser conhecido de ninguém. Os outros, enciumados, expulsaram-no. Ele disse: “Eu vou mas vocês vão também”. Mergulhou no rio e quando levantou mais na frente já era o boto, desses vermelhos. A festa continuou e a terra caiu levando todo mundo. Alonso, quando entrou no Madeira, pediu ao maquinista João, prático do Rio Madeira, pra mostrar o lugar e viu a enseada. Na noite do padroeiro quem ali navega ainda escuta música de viola, sanfona e toque de tamborim vindo do fundo do rio.

Valter, o cozinheiro, conhece em Aurinim, no Solimões, uma senhora que passou três dias no fundo do rio. Ela tinha dado à luz mas o marido não ligava. Ela um dia estava no mosquiteiro, com muita febre e a meninada tomando a jacuba, um pirão de farinha n’água fria. Um chibé. Senão quando os homens passaram carregando a mãe, dois morenos e dois loiros. Ela conta que a levaram para o fundo do rio. Era um palácio, uma sala, uma mesa enorme e todas qualidades de comidas. Os louros, botos vermelhos, disseram-lhe que devia comer de todos os pratos. Mas se ela comesse ficava. Aí os morenos que eram botos tucuxis defenderam-na quando ela já tinha provado de dois. Deixaram-na na praia onde o marido encontrou-a desmaiada, envolvida numa golda de lodo do fundo do rio. Isto ocorreu em 72.

Filomeno aos dez anos, quando morava em Nhamundá, ou Jamundá como aprendemos no colégio, ia numa canoa levando a sobrinha “mordida de macaco”, que é assim que dizem quando a moça está menstruada, para enganar os meninos, que levou uma mordida de macaco na perna. E aí um boto vermelho apareceu e pegou a dar voltas perto da canoa procurando virá-la, pois ficam excitados quando sentem sangue de moça. Aí Filomeno se lembrou do único meio de afastá-lo: jogar a faca, de ponta, no fundo da canoa e deixar enfiada. Aí o boto fugiu.

Leia também:
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Diário de uma viagem ao Amazonas (VI)


José Cláudio é pintor, autor dos livros ‘”Meu Pai Não Viu Minha Glória” e Bem Dentro”. Reside em Olinda. Este texto está no caderno de anotações de José Cláudio, escrito em 1975. O suplemento cultural do Diário Oficial do Estado de Pernambuco o publicou em abril de 2007.
via Terra Magazine