Experimento não raras vezes, por aqui, um gosto bastante amargo por esta coisa de ter o Brasil também como pátria-mãe. Portugal não gosta e condena-me frequentemente por isso, como se de uma espécie de imperdoável traição se tratasse. Por várias vezes atribuí o facto à inversão do sentimento de Portugal perante este país e as suas gentes, ocorrida a partir da última década. Da percepção do Brasil como “país-irmão” passou-se à sua percepção como “país invasor”, tendo-se esta crispação dos portugueses acentuado em consequência do aumento disparado do fluxo de emigração e do crescimento sem precedentes da comunidade brasileira residente em Portugal.
Hoje, porém, em plena Alfama, bairro típico e secular da cidade, indo já na 2ª noite de Santos Populares festejados pelas ruas, escutando uma marcha tradicional que me lembro de ouvir cantar desde que me lembro de mim, faz-se-me outra luz. Percebo que a razão pela qual Portugal se irrita tanto comigo talvez seja anterior a esta mutação histórico-social, talvez venha de longe e chegue mesmo a ser congénita à nação: Portugal é ciumento inveterado. Na realidade, suporta mal que os seus se apaixonem por terras e gentes outras. E se não dá imediatamente nas vistas é porque disfarça bem e tem por hábito avisar os incautos a cantar (click para ouvir):
Não namores os franceses
Menina, Lisboa,
Portugal é meigo às vezes
Mas certas coisas não perdoa
Vê-te bem no espelho
Desse honrado velho
Que o seu belo exemplo atrai
Vai, segue o seu leal conselho
Não dês desgostos ao teu pai
Lisboa não sejas francesa
Com toda a certeza
Não vais ser feliz
Lisboa, que idéia daninha
Vaidosa, alfacinha,
Casar com Paris
Lisboa, tens cá namorados
Que dizem, coitados,
Com as almas na voz
Lisboa, não sejas francesa
Tu és portuguesa
Tu és só pra nós
Tens amor às lindas fardas
Menina, Lisboa,
Vê lá bem pra quem te guardas
Donzela sem recato, enjoa
Tens aí tenentes,
Bravos e valentes,
Nados e criados cá,
Vá, tenha modos mais decentes
Menina caprichosa e má
Lisboa não sejas francesa
Com toda a certeza
Não vais ser feliz
Lisboa, que idéia daninha
Vaidosa, alfacinha,
Casar com Paris
Lisboa, tens cá namorados
Que dizem, coitados,
Com as almas na voz
Lisboa, não sejas francesa
Tu és portuguesa
Tu és só pra nós
Lisboa Não Sejas Francesa
(José Galhardo e Raul Ferrão)








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