Hoje cedo pararam-me na rua e, no contexto de um trabalho graduado sobre a cultura popular portuguesa, pediram-me que evocasse alguns ditados tradicionais e referisse um contexto e destinatário a que pudessem adequar-se. O primeiro que me ocorreu foi o célebre “mais vale um pássaro na mão do que dois a voar”. Dediquei-o aos cobardes. É certo que tinha acordado à pouco tempo, que ainda nem sequer tomara café e que o meu cérebro só muito timidamente dava mostras de se dispor a começar a funcionar… Mas pareceu-me apropriado. As moças eram holandesas e estavam a desenvolver um programa no âmbito do projecto do Erasmus, que as trouxe a terras ‘alfacinhas’ por convénio com uma universidade local. Pediram-me novo provérbio. E outro e outro ainda. Daí, seguindo para bingo, lá fui chutando mais alguns: “dá Deus nozes a quem não tem dentes”, “quem tudo quer, tudo perde”, “casa roubada, trancas à porta”, “quem espera, desespera”, “em terra de cegos, quem tem um olho é rei”, “faz o que eu digo, não faças o que eu faço”, “diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”, “a galinha da vizinha é sempre melhor do que a minha”, “ter mais olhos do que barriga”, “pela boca morre o peixe”, “quem dá e torna a tirar, ao Inferno vai parar”, “tudo o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita”, “não há bem que não se acabe, nem mal que para sempre dure”, “olhos que não vêem, coração que não sente”, “quem com ferro mata, com ferro morre”, “quem ri por último, ri melhor”, “quem tem unhas é que toca guitarra”…

Com o exercício longe do final e a garganta seca sob a esturra de sol, em plena calçada, pedi licença e dei por finda a boa vontade e a colaboração. Enquanto esperava para atravessar a rua, entrar no café em frente e comprar uma garrafa de água, dei comigo a pensar que, bem vistas as coisas, a participação talvez me tenha saído viciada, sem querer. É que, vistos agora daqui, da distância consequente ao brainstorming, todos os provérbios que me vieram à cabeça me parecem poder ter um mesmo destinatário e denominador comum. É possível que seja só impressão minha, a somar a este defeito académico de profissão e à minha excessiva obsessão de não viciar dados à investigação. Mas, em bom rigor e bem alinhavados entre si, fiquei com a leve sensação de que todos estes provérbios configuram um desenho que me é familiar… não sei porquê, mas o esboço resultante lembra-me por demais alguém que conheço…