Eu não sabia nada. Aprendi tudo aqui, com a floresta, inclusive a primeira lição de todas: sobreviver. A floresta dá-me segurança, aqui tenho tranquilidade para pensar e planear.
Xanana Gusmão

Durante 24 anos de guerrilha na metade oriental da ilha de Timor, no sudoeste asiático, a floresta – que abunda na montanha de Ermera, na cordilheira de Ramelau (ou Tatamailau) – foi o ‘quartel general’ de Xanana Gusmão e dos seus homens, encabeçando a resistência do povo Maubere à anexação pelas tropas invasoras da Indonésia, nove dias após a declaração da sua independência, decretado que foi o fim do Império Colonial, após a Revolução do 25 de Abril, em Portugal. Porque em Timor Leste «não se foge para fora, foge-se para cima».

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Era noite quente aqui e eu havia resolvido regressar a casa perto da meia-noite e gozar essa tranquilidade rara de ter a casa só para mim. Ver televisão não estava definitivamente nos meus planos, mas passo a explicar. O som aqui de casa quebrou, o concerto não compensa e a despesa de comprar uma nova não é sensata no momento. Na emergência, venho tocando os discos no leitor de DVD. Foi assim que, no vai-e-vem de mais uma troca, me apareceu no ecran do televisor um plano, esmagador de tão lindo, do amanhecer dourado na Ilha do Crocodilo, o outro nome de Timor Lorosae – a terra do ‘Lado Onde Nasce o Sol‘- e eu dei comigo presa pela retina, subitamente transportada, na semelhança, para os céus (por tantas alvoradas testemunhado) do meu Amazonas.

Acabei puxando o cinzeiro e o copo para o amontoado de almofadas e me aconchegando no sofá, o vento a entrar ventando morno, no rodopio das janelas da sala, abertas aos quatro pontos cardeais, aliviando nesse frescor soprado o bafo tórrido ainda remanescente do dia. Para dizer a verdade, a calma já reinava cá por casa e pelo peito, mas qualquer coisa na voz pausada e espessa do Comandante Xanana Gusmão, narrando na primeira pessoa um documentário sobre Timor Lorosae e ele próprio, realizado e produzido por Grace Phan, veio adensá-la mais ainda. É bela a voz do Comandante, pensei. Quase hipnótica, lembrei-me eu, então, sentindo vir à memória com uma nitidez impressionante as duas únicas vezes em que a escutei ao vivo. Uma, na primeira visita oficial a Portugal, depois da libertação de Cipinang, em 2000, ainda antes do referendo e do massacre final ao povo Maubere, perpetrado pelas tropas do General Suharto, no final do Verão seguinte, marca última deixada ferrada sobre a população, antes de abandonar o território invadido, para vingar os mais de 80% de votos a favor da independência, não obstante o medo e a intimidação incutidos às urnas pelas milícias integracionistas. A outra, em 2006, durante uma visita à Universidade de Coimbra e ao núcleo de estudantes timorenses em Portugal.

De ambas as vezes me recordo de me ter sido absolutamente claro porque lhe obedeciam os homens resistentes, porque razão o escutavam e seguiam rumo ao topo da cordilheira envolta pela floresta, deixando para trás as aldeias, as mulheres chorosas, os velhos doentes, as crianças famintas e o vago fio de vida que lhes restava, após a miséria lançada no território pela invasão. É difícil colocar em palavras. Porque a beleza da voz de Xanana não se descreve, ecoa dentro do peito e sabe-se dela só assim: no efeito que surte, no rasto que deixa dissolvido às veias.

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Eu estava no aeroporto militar de Figo Maduro, naquela noite ventosa e fria de 2000, aguardando o embarque de Xanana no avião que o levaria de Lisboa a Díli, após uma imperiosa escala de alguns dias em Camberra. Transpostos os largos portões de rede e aço, e a área de jurisdição, a polícia rendeu nas mãos do exército a autoridade sobre a operação de alta segurança montada para receber o Comandante, nas menos de 24h de permanência em território nacional. As formalidades de procedimento e protocolo distrairam as entidades competentes e a vigilância abrandou por instantes. Subitamente, todos ficámos mais perto de Xanana, ou Xanana mais próximo de nós. Andava devagarinho de um lado para o outro, de quando em vez olhando a pista adiante, aspirando o ar como se quisesse perceber na noite uma direcção mais certa ao vento que vinha entrando, soprado de Norte.

Num desses entretantos do seu vaguear, quase esbarrámos o ombro. Eu sobressaltei-me, ele não. «Tenho ouvido dizer que dizem que sou muitas coisas, mas um fantasma garanto que não», disse-me amável, quase cortês. Acho que não respondi, acho que nem sequer lhe sorri. Pelo menos não me lembro de nada. Mas recordo-me de ter pensado que ele estava em vantagem. Eu, por exemplo, nunca tinha dormido ao relento, não tinha os sentidos alerta, nem experiência de tocaias ou de me guiar no breu, como também nunca tinha vivido no meio da mata ou da floresta. Como eu disse, lembro-me de ter pensado, mas não me lembro de lhe ter dito nada disto. Ainda assim, como se não fosse preciso e lhe bastasse poder-me ler o pensamento, respondeu: «A Floresta ensina a deixar os fantasmas para trás. Quando deixar os fantasmas descansados no seu lugar, não volta a estremecer».

Isso disse-me ele numa época em que eu ainda não tinha nenhum fantasma e, se calhar por isso, não lhe dei mais crédito do que o do inevitável interpelo existentes nas metáforas bem cifradas. Quando passei a ter, esforcei-me por repescar a frase e escarafunhá-la com minúcia cirúrgico-hermenêutica, não fosse dar-se o caso de estar ali algum ensinamento de incalculável valor. Anos mais tarde, também eu fui parar à floresta e aí, sim. Aí creio ter, enfim, começado a aflorar o que quer que fosse que estivesse a tentar dizer.

Ontem, no documentário de Grace Phan, chamou-me a atenção Xanana ter regressado à ideia, lançada à friagem naquela noite rente ao começo do novo milénio, no aeroporto militar de Figo Maduro, e insistido, uma vez mais, na mesma imagem de florestas dissipadoras de fantasmas ‘extraporâneos’.

De uma forma mais sistematizada voltou a defender que a vida nos morre e acaba antes da hora, se persistirmos em nos tornar guardiões dos nossos próprios fantasmas. Nunca mais voltamos a estar a sós com nós mesmos e, como é de lei, se não o conseguimos, nunca mais temos nenhum instante de paz. Ora, como também é sabido, sem paz não há tranquilidade e, sem tranquilidade, não é possível ser ou pensar nada que valha a pena. Pelo menos nada com um alcance mais além de nós próprios e do nosso umbigo. Porque enquanto o referente ou determinante for outro que não simplesmente nós próprios – a saber, o dos fantasmas que nos povoam e em absoluto nos dominam e preenchem – é a nossa própria capacidade de abertura ao mundo e aos seus estímulos que fica posta em causa. Assim sendo, é de valor diminuto qualquer que seja a acção a que nos conduz. Por não ser, essa acção, resultado da nossa auto-determinação. Por ela, a acção, não ser livre. Em último caso, por ser ela uma reacção e nem sequer, exactamente, uma acção propriamente dita.

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Mais adiante, no documentário, Xanana fala sobre o instante da morte do primeiro homem que lhe morreu na guerrilha que liderou. O primeiro dos muitos que viriam a morrer-lhe depois. Fala da desorientação, das dúvidas, da incerteza que o tomou nessa hora, e conta como as suas lágrimas e a sua dor perturbou os seus homens. Conta, Xanana, do medo atroz que os tomou diante da visão de um chefe em pranto. “Não podemos ter um líder que chora os que morreram e se esquece dos que estão vivos“, ter-lhe-ão dito. Xanana confessa para as câmaras de Grace Phan que desde esse dia deixou de chorar os homens que perdeu, para não ficar “ensombrado pelos seus fantasmas” e por saber ser essa a única forma ao seu alcance para cuidar de proteger todos os outros que ainda tinha vivos e do seu lado. Explica o comandante que, de alguma forma, cada um dos que o deixaram cumpriram a sua missão ao seu lado. Deixá-los ir era a única forma de permanecer fiel ao que em tempos os uniu. Só nesse sentido poderiam continuar a viver nele, Xanana. Mais adiante, o documentário mostra uma das frequentes visitas que o Comandante faz às viúvas dos seus homens, como mostra também o seu encontro com a mãe de um dos seus guerreiros mortos. Sobre a mulher que chora, passa Xanana um braço por cima do ombro, enquanto diz: “O teu filho vive em mim. Agora o teu filho sou eu.

Muitas coisas se poderiam dizer, é um facto. Mas das muitas que poderiam ser opinadas, importa não perder o foco das que vêm de quem já esteve num cenário de guerra ou conviveu de perto com os seus imbricados entornos. Porque a passagem é tão forte e perturbadora que só quem sabe do que se está aqui a falar se pode com propriedade pronunciar a respeito, independentemente daquilo que vier a comentar.

E é por isso que, por cru ou hipócrita que se arrisque parecer, após o trecho das imagens em que Xanana ampara um grupo de viúvas que foram junto a ele prantear os seus mortos, na necessidade extrema de confirmar se acaso ainda os recorda, Xanana confessa às câmaras que a única coisa que tem para confortá-las é dizer-lhes que sim, que ainda se lembra de cada um e que a liberdade agora conquistada se deve ao sacrifício feito por eles em nome de uma causa maior. Acrescenta o Comandante: “na maioria das vezes nem é preciso dizer-lhes nada: elas sabem“. Sabem, mas precisam que ele lhes diga, ele o homem que não pode chorar fantasmas porque tem que continuar a cuidar das suas viúvas, agora que ficaram sós e não lhes resta mais ninguém que olhe por elas. Ninguém a não ser Xanana, o homem que ainda ouve fantasmas ao longe, a chamar o seu nome, “especialmente durante a noite“, mas que não olha para trás e, portanto, não os vê. Nem sequer na lua cheia.

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Ontem, estava a ver as imagens e a experimentar esses mistos contraditórios do espírito e da emoção que têm sempre o condão de nos deixar mais despertos e reflexivos. E foi aí que me lembrei de um ou outro fantasma que, a certa altura, também eu acabei por ter e que, no compromisso máximo com a vida, deixar para trás. Não são muitos, que eu não sou o Xanana e não comando povos, exércitos ou nações. É um ou outro, mas o suficiente para acreditar que hoje compreendo melhor sobre o que falava em Figo Maduro, naquela noite distante, alguns anos atrás. Mas como não lhes conheço viúva e não os posso chorar, limito-me a enviar-lhes uma qualquer mensagem telepática, à laia do Comandante. Onde quer que estejam, que perdoem por favor, mas foi preciso passá-los adiante. Consentir que continuassem a assaltar-me, “ensombrava-me” o bastante para me esquecer dos vivos que continuam ao meu lado.

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Nesse lusco-fusco, em que pela primeira vez estive perto de Xanana Gusmão, vieram depois informá-lo que aguardavam tão só autorização para descolar. Pensei na imprudência de atrasar assim, tão sem motivo e por mera burocracia, um Comandante que tinha à sua espera uma nação (“a mais jovem nação do Mundo“, aliás), com tanto à espera de ser feito.

Vi Xanana acender um cigarro, ajeitar a gola e ficar de perfil, a pensar sabe-se lá em quê, observando a luz amarelada derramada pelos holofotes sobre a pista, onde um avião esperava de asas abertas. Um por um, revi mentalmente o rosto dos líderes do meu País e, por momentos, senti uma inveja irreprimível dos Maubere.

Eu não sabia nada daquele homem que por 24 anos se embrenhara na Floresta, teimando em tétum e português, e que até durante os sete anos de captura (e sob torturas múltiplas) se recusara a pronunciar uma só sílaba na língua do invasor. Eu não sabia e, na verdade, muito poucos sabiam. Pelos menos os que nunca tinham vivido na Ilha do Crocodilo, e que éramos quase todos nós, os que se abalançavam a escrever e falar sobre o Lado Onde Nasce o Sol, por pressentirmos a urgência de romper o silêncio indiferente do Mundo. Escrevíamos e falávamos sem saber grande coisa deste homem, metade da vida oculto de nós pela mata, depois pelo arame farpado da Indonésia, e agora pela simples geografia de mares e continentes, que o levavam de regresso à metade antípoda da nossa. No momento em que lhe tínhamos podido, enfim, testemunhar o rosto tisnado, ele ia embora, tão breve como nos chegara, sem que muito mais tivessemos oportunidade de saber dele. Partia envolto na mesma bruma que, durante todo o ano, se diz que cobre o cume da cordilheira onde montou quartel pela liberdade. Por essa altura, falava-se muito dos tempos à frente e a escrita guinara no rumo do futuro e das adivinhações que não resistimos a deitar-lhe em avanço. Alguns haviam já começado, aliás, a confabular sobre a destreza do Comandante para congregar na ágora timorense as diferentes vozes dos líderes das muitas tribos que formavam Timor, longe da mata e da montanha, que por décadas todos tiveram por única guarida, depois da guerra que, como se sabe, tem essa vantagem unificadora de oferecer a todos um e só um objectivo em comum: o de a vencer.

Não sei se os outros, os que igualmente tinham por missão falar, escrever e relatar sobre Timor, se sentiram mais ou menos esclarecidos a respeito do homem que chegou e partiu orlado em mito. Por mim, sei dizer que não foram precisas nem muitas horas, nem muita prosa, para constatar que existe qualquer coisa que emana de Xanana e faz fortíssima a sua presença. Forte o bastante para me ter feito invejar os Maubere. Forte o bastante para – ainda hoje, como na época – seguir (muito sinceramente) crente de poder Timor Lorosae continuar a contar com ele nas ruas, como com ele contou nas entranhas da floresta. Na época, como agora, alguma coisa me devolveu uma firme certeza de ir Xanana ser precioso ao Povo Maubere e aos sopés do Lado Onde Nasce o Sol, como lhes foi a ambos nos cumes da cordilheira de Ramelau. Ainda que (seja!) para sempre envolto e feito da mesma misteriosa bruma.

Ver trailer: aqui | Assistir ao documentário: aqui

* Fotos retiradas do documentário “Where The Sun Rises, de Grace Phan (Setembro de 2007)