eu+vc

Pegue de novo seu chapéu de buriti cozido de tanto sol tomado cru, que na alvorada hoje amanhecida voltaram a troar tambores e os dedos burilam já sobre novos mapas e azimutes. Prepare seus costados de bandeirante. Cace sua camisa de linho ao cabide pregado atrás da porta e mande soar o berrante, para avisar que estamos de volta, apontando aos fios de água e aos atalhos da mata, onde bóia a grande flor que leva seu nome régio na contra-face dos espinhos. E de quebra, tire do baú aquele pano alvo de algodão a que conhece mil utilidades e funções. Desdobre-o. Estenda-o sobre o chão varrido. Depois pegue todas as jóias raras que andou coleccionando para mim entre as tribos. Procure-lhe o centro. Abra as suas duas mãos em cuía e, com o cuidado de sempre, coloque sobre ele sementes, conchas, contas, guizos e balangantãs, que meus pés andam de novo nus, como pediu que fosse, e breve, breve estarei lhe estendendo os tornozelos. E é preciso que outra vez sente no velho banco de pau queimado e, um a um, os tome no anelado círculo dos seus dedos, os pouse de mansinho sobre a coxa flectida, os feche, torneie, fortaleça, massage, adorne, proteja e prepare às caminhadas por vir. Que o chão é muito e vem já ali adiante.

* Fotos de Carlos L. Strauss