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Quando pela primeira vez ficámos de frente, Cria Minha, fiz-te alguns votos, sim. Não muitos. Apenas os que no momento me assaltaram a franqueza. Depois dei-me por satisfeita, confesso, por acreditar que nesses que me subiram ao pensamento estariam seguramente os que te poderiam ser mais essenciais. Depois, roguei por dentro e em segredo para que Deus cuidasse de te fadar a alguma arte. Qualquer que ela fosse. Para que tivesses sempre contigo o único antídoto capaz de destilar os nódulos que, por essa altura, eu já sabia que a vida também tem. E como não me era de crer que te poupasse inteiramente a eles, por não ser seu hábito alisar o caminho de ninguém, supus que era o máximo que me restava fazer, tendo em conta que nem sempre estarei por perto, nem tudo poderei resolver e, seguramente, por maior e mais forte o amor irredutível que te devote, nem de tudo serei capaz de te suprimir ou proteger.

Assim, confesso que quando te vi repetir esse gesto de pegar em telas e pincéis, qualquer coisa em mim se aquietou um pouco. Como se alastrou igualmente nas minhas entranhas um certo alívio, no instante em que o drama e as suas tragicomédias te fizeram tactear sozinha e por instinto no rumo dos bastidores e do mundo vasto que se esconde por detrás das cortinas.

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Espero, Cria Minha Adorada, que saibas agora dar bom uso a essas artes que te atendem e que elas te sirvam, Meu Anjo Amado, para reparar cada joelho raspado, cada gomo ferido à asa, cada laivo em ti talhado pelos males e tristezas do mundo. E sempre que a minha mão, por um motivo ou por outro, se soltar da tua, que por favor te recordes que há algo que trazes sempre contigo e de que és capaz, e que a isso te agarres, Anjo Meu Adorado, Cria Minha Muito Amada, com força igual à daquilo que doer te possa. E que isso seja tudo quanto necessites. Que te reconcilies, pois, com as mordidas amargas da vida, abocanhando a tua arte e destilando através dela qualquer coisa outra que efectivamente valha a pena deixar cuspido em redor, quando o sangue estanca.

Àmen!

Ass: A mãe