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A Mafalda tem uma amiga a quem conta sempre as coisas todas que lhe vão acontecendo. E, de entre todas essas coisas, para as que são mais dramáticas, diz a Mafalda que ela tem sempre uma expressão que é muito reconfortante: «Acontece, deixa lá: faz parte!». E realmente faz. Um destes dias, estávamos as duas à conversa e concluímos sem grande dificuldade que realmente fazem parte, sim. Portanto, «não é preciso complicar de mais porque mesmo as coisas mais complicadas há um dia em que deixam de o ser». Como a Mafalda bem lembrou nessa tarde, «há um momento em que as coisas acalmam e planam». E lá continuámos a experimentar chás e a escolher colares, naquele poiso que escolhemos dar-nos nesse dia para albergar a conversa. Ela ia falando. Eu ia escutando. Pareceu-nos justo. Pareceu-nos ter sentido. E como eu ia ouvindo mais do que falando, reparei em muitas coisas que explicam porque razão, desde o primeiro instante, falar nos é tão voraz e doce como as cerejas. Ia a Mafalda dizendo de como é importante «descobrirmos rapidamente o que sentimos» e da extrema impressão que cada vez mais lhe faz o muito tempo que às vezes demoramos «a desligar-nos e a tirar de cima todas as cascas que nos enfiam e que nos impedem de respirar e sermos nós» só para «podermos fazer parte do sistema».

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Hoje apetecia-me ter tempo e escrever sobre essa coisa de ficar perto, essa coisa de estar perto, sobre a proximidade com alguém que muito simplesmente pressentimos, pois como diz a Mafalda, acho que me acontece muito «pressentir pessoas». E, só porque não tenho tempo e sei que não estarei a cometer nenhuma inconfidência grave, é que me apetece lançar mão, aqui, do que a Mafalda me disse certa vez:

Há muitas histórias na nossa vida que vivemos pressentidas. São igualmente importantes, coisas que sabemos, apesar de não terem sido ditas: estão lá no olhar dos outros e nós sabemos. Se calhar não precisamos de as dizer, talvez passem anos até serem verbalizadas. Mas os pressentimentos são tão fortes como os sentimentos.

mundo1

Daqui a pouco, assim que terminar um merecidíssimo café sem grandes pressas e vencer a preguiça de fazer as malas e arrumar as coisas, estarei novamente ganhando a estrada. Incontáveis as viagens, nos últimos dois meses e, pelo menos, nos dois próximos que se seguem. Não é uma queixa, que andar solta por aí é a melhor benção da vida que eu escolhi. Também não é um aviso, que os viajantes têm por hábito sinalizar presenças, mas não o costume de rastrear rumos. Portanto, aos que estarão me aguardando por lá: estou chegando já, já! Me aguardem, por favor. Aos que ficam onde os sei: darei notícias sempre que puder. Àqueles que nunca sei muito ao certo por onde param ou se movem, que se mantenham vivos e aproveitem a estrada para ser pelo menos tão felizes quanto eu. Quem sabe a gente se encontra algum outro dia em algum outro lugar. Ou não. Que o melhor de andar solto na estrada é nunca saber, em verdade, onde ela vai nos levar: se para mais perto, se para mais longe de onde vamos.

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Agora para Você: partidas coincidentes sempre são um bom presságio, mesmo você ganhando o aeroporto e de regresso ao Brasil: “E o pior é saber que a gente ainda vai se encontrar“, não é assim?! :) E para Você também, que segue o rumo oposto ao do ano anterior, por essa época, e se prepara para um palco onde, dessa vez, não poderei estar a dividir gémeas penumbras: há, sim, pessoas que se pressentem e, no final, as histórias pressentidas resultam tão ou mais reais que as histórias sentidas, acredite. E ainda para Você (claro, sempre!), que aproveita cada aberta no mato para correr a erguer a ‘casa grande’: siga, sim, plantando essa horta especialíssima dentro das canoas de madeira que repousam no jardim, que tá chegando a hora da janta e a fome é caprichosa: precisos se farão, portanto, todos os temperos exóticos que lhe conseguirem engendrar suas feiticeiras mãos dadivosas.

Como escreve Carpinejar, a propósito da freira Mariana Alcoforado:

aspas Nem Deus a proibiu de escrever!

alegriasbailarinas

Ainda que continuando a crer que a arte, seja ela qual fôr, não deve desperdiçar nenhuma matéria-prima, confesso que acordei invadida de uma vontade funda de agradecer a quem chega, vem e me oferece inspiradoras alegrias bailarinas. É que por mais indiscutivelmente pródiga que a tristeza seja à escrita, passado alguns anos, seus trejeitos de diva cinza perdem o encanto, enrugam-lhe o viço à pupila esmorecida e diluem o efeito sedutor do seu olhar, mesmo quando nos pisca na direcção.

jimDine

Muito tempo volvido, a tristeza é ninfa que satura e cansa. Quando se vai ver, ficou de útero estéril e não há como fazê-la parir nem mais uma linha. Portanto: ‘grácias’ Senhor, por estas alegrias bailarinas que me mordiscam ao acordar!… Que de vez em quando, qualquer mortal precisa de novas musas a dançar-lhe a inspiração.

* Foto de Jovelino Matos Almeida e tela de Jim Dine.

ceudefinitivissimo

Se tivesse que ser, dividia as pessoas em dois únicos grupos sanguíneos. De um lado os que têm um tipo de sangue que fervilha até verter e transbordar, mas que depois, por acção de uma qualquer enzima desequilibradora ou de um qualquer choque térmico, esfria, congela, paralisa e se cristaliza. Do outro os que possuem aquele sangue que crepita e borbulha em constante ebulição, que nunca chega a cair em cascata até se esparramar no chão, mas que vive desafiando o rebordo, lambendo os limites, sem nunca se entornar, sem nunca se perder no desperdício. Os seres do sangue fermentado que, por tanta fervura sujeita a súbitos arrefecimentos, viram estalactite; e os seres do sangue pulsante que, de tão ininterrupto ferver, viram lava de vulcão em perpétua ebulição. Os do sangue coagulado e os do sangue corrente. Os do coágulo e os do fluxo. Os que estancam e os que jorram. Assim o sangue, assim nós. Pois que não somos senão conformes à natureza do sangue que nos anima as veias. Todos. Sem excepção. E isso basta para, entre nós, nos distinguirmos e não haver risco de confusão possível.

* foto da Rita

bolasberlim

Mandaram entregar-me aqui: bolas de berlim fresquinhas e acabadas de fazer. Céus, como eu adoro estes súbitos sortilégios anónimos!…

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De como duas caixas de papel manteiga amarradas com um cordel podem transformar o dia. De como coisas aparentemente tão simples e banais têm o poder de criar momentos inesquecíveis. Da alegria quase infantil de desatar a correr para casa e mal poder esperar para chegar. Do prazer indescritível de precipitar o final ao dia e dá-lo por encerrado enquanto ainda existem algumas horas de sol pela frente.

(…) E perguntava Caetano cantando, desesperado sem saber por onde ela ia, onde está você agora? E ficou sentado no mesmo lugar, à espera sabendo, por certo, que um dia, de tanto caminhar, ela teria de voltar àquele mesmo lugar. Valeu-lhe o mundo. Por ser redondo.

Ass: Maria H.M.
(escrito a 14.Julho.2008)

Escreve bem, a Maria. Escreve tão bem. Mesmo às voltas com as mudanças da casa. Enquanto se instala. Mesmo quando tudo é novo e são tantas as aprendizagens que os novos projectos pedem.

Caminhava pela rua com a minha filha de 4 anos, quando ela apanhou qualquer coisa do chão que ia pôr na boca. Ralhei e disse-lhe para nunca fazer isso .
-Mas porquê ? – perguntou ela.
Respondi que se estava no chão, estava sujo e cheio de micróbios. Nesse momento, a minha filha olhou-me com admiração e perguntou:
- Mamã, como sabes tudo isso? És tão inteligente …
Rapidamente refleti, e respondi-lhe:
- Todas as mamãs sabem estas coisas. Quando alguém quer ser mamã, tem que fazer um teste e tem que saber todas estas coisas, senão não pode ser mamã.
Caminhámos em silêncio cerca de 2, 3 minutos. Vi que ela pensava ainda sobre o assunto, e de repente disse:
- Ah, já percebi . Se não passasses o teste, tu eras o papá.
Exactamente, respondi com um grande sorriso na boca.

Ass: Filipa
(recebido 14.Julho.2008)

… E eu leio, também com “um grande sorriso na boca“, enquanto me ocorre que é por essas e por outras que ninguém me convence que a casta das amazonas se tenha verdadeiramente extinto lá nos cafundós do fundo das Eras.

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… Fechado! Será como a gente diz a quem é pequenino: “ir num pé e vir no outro”.

Ass: Marina L.
(recebido a 27.Junho.2008)

Trabalhar todo o mundo trabalha. Aliás, a cada ano que passa, quer você se vire para a esquerda, quer se volte para a direita, parece que todo o mundo está cada vez mais sobrecarregado de trabalho. Até os desocupados, já reparou?! Até eles andam mais stressados. Mas quando a vontade é lei e o querer é forte, há sempre um jeito, há sempre uma fuga, há sempre uma providencial chance para a liberdade. Há sempre uma forma de subverter tiranias e intransigências e pular fora dos compromissos que nos espartilham os movimentos. E acontece que felizmente, a vida sempre me acercou de seres capazes de rodar a baiana e fazer milagres acontecerem. Dos que têm caprichos e criatividade suficiente para não se resignarem a ser somente escravos do sistema e da obrigação. Por isso sejam complacentes, por favor. Como é que, depois de tantos anos dessas salutares convivências, alguém pode esperar que eu me convença de que não existe mais para aspirar?! Lamento, mas é impossível. Não sou capaz. Ouço, ouço e escuso-me a comentar tantas lamúrias, para não causar maiores embaraços aos queixosos da sua condição de mouros de trabalho. Mas, muito sinceramente, creio que na maioria das vezes o trabalho é o álibi perfeito para deixar a vida na prateleira, uma desculpa socialmente bem aceite para descartar a inércia, uma forma muito conveniente de tapar o sol com a peneira ou lançar areia para os olhos de quem não quer ver. Você já reparou na necessidade com que algumas pessoas vão logo informando que estão “com muito trabalho“, praticamente antes de dizer “bom dia“… ?! Pois repare. Discretamente, porém comece a reparar. Vai ver que logo à costumeira e trivial pergunta de começo de conversa, “como estás? como vai você?” – (que também admite a variante mais sofisticada, “o que feito?” – a resposta é invariavelmente “com muito trabalho“. Antes de responderem, já dou comigo silabando, à laia de ventríloquo, as três palavrinhas de sempre, como se tivesse sido isso que houvesse sido perguntado!… Quando quero saber pelo trabalho das pessoas pergunto, ora. Imagina o descabido de passar a responder à pergunta “como você vai?“, dizendo “almoçando muito” ou “dormindo todas as noites” ou “respirando“. Absurdo, não?! Pois é: no mínimo. Só não entendo porque é que diante da resposta “com muito trabalho“, ninguém experimenta a mesma sensação de despropósito, mas enfim. Bem sei que, ao limite, há que admitir que nem todos sintam o mesmo horror ao tédio. Por mim, sigo como sempre mais próxima do desabafo bradado por Fernando Pessoa: “… Ai que prazer, não cumprir um dever!” Porque sabe o que é que a experiência me tem demonstrado, a cada vez que se é insubmisso e não se prioriza o dever? Que, ao contrário do que tantos estão convencidos, não é o mundo que desaba. É a vida que acontece e vem ter com você.

* Fotos: Paraty – Julho de 2008

horoscopo12julho2008

Lua na 5ª Casa , 5, desde 22:21
Período activo de 12 Julho 2008 ao 15 Julho 2008
Importantes trânsitos de longa duração:
“Uma chance de mudar” (Urano Sextil Saturno)
“Energias favoráveis” (Plutão Trígono Sol)
“Desejo de compartilhar” (Marte na 2ª Casa)
Eventos mundanos:
Vênus entra Leão, exacto às 19:39
Nascer do sol, às 06:22
Pôr do sol, às 21:02
Linha mestra:
“Agora é preciso ser você mesma e saber quem realmente é”.

Ass: anónimo
(recebido a 11.Julho.2008)

Gente, e isso quer dizer exactamente o quê? Alguém saberá explicar-me?… Não entendo ‘nadica de nada’. Mas os bonequinhos são deliciosos. Tenho-me divertido a olhá-los pelos mais diversos prismas e vejo sempre um monte de leituras possíveis, super-interessantes de transcorrer. A ‘linha mestra’ também faz sentido, ou pelo menos creio conseguir compreendê-la: não é sempre assim, em todos os dias da nossa vida?! Da vida de cada um, eu digo. Não é…?!

A lua girou, girou
Traçou no céu um compasso
A lua girou, girou
Traçou no céu um compasso

Eu bem queria fazer um travesseiro dos seus braços
Eu bem queria fazer…

Travesseiro dos meus braços
Só não faz se quiser
Um travesseiro dos meus braços

Só não faz se não quiser…
Sustenta a palavra de homem
Que eu mantenho a de mulher
Sustenta a palavra de homem…

A lua girou, girou
Traçou no céu um compasso
A lua girou, girou
Traçou no céu um compasso

Eu bem queria fazer um travesseiro dos seus braços
Eu bem queria fazer…

Milton Nascimento – “Lua Girou

Talvez porque esta noite me sinto tomada de uma felicidade inabalável e a salvo, apetece-me partilhar uma pérola rara que guardo, há muitos anos, fervorosamente em segredo e que nunca até hoje predispus à partilha fosse de quem fosse. A primeira vez que a ouvi, foi cantada ao vivo por Ney Matogrosso, no Coliseu de Lisboa, quando ele veio vestido de palitó branco, com o show “Pescador de Pérolas“, um show por sinal recheado de escolhas e canções de inominável beleza, a caberem inteiramente no nome dado ao álbum que serviu de escora à digressão. Foi, portanto ali, na bancada da geral, que primeiro me recordo de ter escutado esta canção, na época eu era pré-adolescente, estudava e não ganhava dinheiro, mas insistia ainda assim em ver espectáculos todos os dias e não podia abusar mais da generosidade dos pais. Todos os instrumentos se calaram e ficou só a voz aberta no breu da sala, com aquela coisa linda a sair pela garganta e a desenhar-se em espiral rumo à cúpula. Como uma oração, uma declaração de amor, uma súplica, uma confissão, não importa. Como qualquer coisa que, na época, de imediato me arrebatou ao âmago de tão singela e sem enfeites, de tão fina e delicada, de tão perfeita que qualquer suspiro parecia o suficiente para a desequilibrar e fazer sumir feito um sonho delirante de impossíveis sublimes. Soube nessa mesma hora, que se canções existem que pautam a banda sonora da existência de cada um, essa era uma das que para sempre acabava de se inscrever no alinhamento da minha partitura. Com o tempo fui apurando a reflexão e chegando depois a entendimentos mais refinados dessa intuitiva suspeita que desde criança me acompanhava. Tenho, aliás, para mim que a música e as suas canções, quando vêm e, sem pedir licença, se gravam sobre a nossa pele e a nossa alma, se infiltram no imaginário particularíssimo de cada um, esse pedaço que nos dá consistência e coerência, mesmo quando olhado de fora tudo parece contraditório, absurdo e sem razão que lhe confira sentido visível e pronunciável. Assim como tenho para mim que é nessa sinfonia, em que o imaginário de cada um se vai compondo, que se encontra a chave daquilo que nos dá unidade e nos torna inconfundíveis, bem como o mistério que dita e profundamente influencia os nossos rumos, preferências, escolhas e opções. Por outras palavras, a composição que laboriosamente vamos tecendo de nós próprios.

Pois muito bem, a ser assim, e se eu não estiver enganada, essa canção contém em si decisivos arquétipos que reconfiguraram o que, desde então, venho buscando e almejando. Por outras palavras, é chave para alguns aparentes enigmas meus, expressão cifrada do que me descodifica, e onde muito provavelmente entroncam as imagens de colo, travesseiro, círculo, fecho e braços, como metáforas explícitas desse repouso só possível dentro e ao alto da perfeição mais perfeita de todas.

Momento histórico, portanto, na reformulação dos meus egoísmos mais silenciosos e inconfessados: deixo a canção ao dispor de todos.
Considerem como a primeira oferenda ao meu primeiro sobrinho-rapaz que acaba de nascer. Dizem que “quando a lua vira, resolve” e nasce quem está para nascer. Gosto de pensar que o meu sobrinho nasceu porque “a lua girou, girou / traçou no céu um compasso” e, quando virou, provocou-lhe esse desejo maior de vir “fazer um travesseiro” nos nossos braços. Por mim, abro-lhe os meus, fecho-lhos num círculo que o embale e ampare e, na ausência de um anjo que possa fazer-lhe de arauto à chegada, canto-lhe uma das canções mais belas que me lembro de trazer guardada.

Para ouvir cantada por Ney Matogrosso, tal qual a ouvi pela primeira vez: só na voz – aqui. Ou na versão cantada por Milton Nascimento, que descobri mais tarde: para ouvir aqui.

listacoracao

A triagem na vida faz-se, eu creio, a partir da maior ou menor resistência de laços e nós, da forma como se mantêm bem esticados ou afrouxam com o tempo, da propensão que admitem ou não para ceder, nem que seja um milímetro. Vem isto a propósito das primeiras pessoas a quem me ocorre correr a dar alguma capital notícia que se prenda comigo, com os meus ou com aqueles a quem quero bem. Vem isto a propósito de, no meio das minhas mais incontidas felicidades, observar quem são aqueles que constam da lista que, inconsciente e espontaneamente, trago escrita no coração. É então que faço reparo de que existem os que em algum momento já fizeram parte dela; que existem os outros, que entretanto dela passaram a fazer parte; e depois que existem ainda os outros, aqueles que uma vez lá inscritos nunca, mas nunca por nunca, dela deixaram de constar, não importa que infortúnios, que zangas, birras, revezes ou amúos. E não está em causa se, por qualquer circunstância, passa demasiado tempo, às vezes anos sobre anos, sem que nos falemos ou vejamos. Não está sequer em causa o grau de entusiasmo com que acolhem a novidade, ou sequer se são hoje menos expansivos do que em qualquer outra altura já possam ter sido. Porque, para o caso, o que interessa não é a receptividade que possam demonstrar diante do que lhes levamos para contar. O que importa é o facto de serem eles e não outro alguém qualquer, aqueles para quem corremos com o que levamos para contar. Suponho que isso quer dizer alguma coisa, senão tudo. Suponho que essa seja, em verdade, a única triagem fiável e reveladora que nos orienta nas certezas e sentires do coração. Suponho, aliás, que essa seja a maior de todas as evidências, senão a única que era bom que consentíssemos que nos falasse mais alto, sobretudo nos momentos em que, distraidamente, nos convencemos que os afectos nos atravessam momentos de dilema, dúvida ou confusão. Porque não é verdade. Nunca é verdade. Pode parecer, mas o coração nunca nos anda indeciso. O coração sabe sempre de tudo e todos muito bem.

Como o meu agora, no instante do primeiríssimo impulso, em que me salta do peito e sabe tão bem para quem correr, a dar conta desta tremenda alegria de me ter acabado de nascer mais um sobrinho. Porque daí para a frente, todas as outras vezes que o contar, será já outra coisa. Uma notícia, uma partilha, um dizer, um fazer saber. Enfim, o normal entre quem se conhece e não pode exactamente tratar-se como se estranho fosse. Mas já não esta coisa crucial que nos é tão urgente como a própria novidade. Esta coisa irrepetível que só tive há minutos atrás com alguns: com “aqueles”, os tais que se trazem na lista permanente do coração e em direcção aos quais disparei a correr para contar que me tinha acabado de nascer mais um sobrinho. Hoje. Há instantes. Faltavam cinco minutos para as oito da noite.

Bem hajam, por existirem assim em mim. Sobranceiros ao tempo que passa e a algumas atrapalhadas trapalhices que a vida nos traz às vidas.

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Escolha se quer tomar o rumo da esquerda ou o da direita

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Escolha onde quer se atascar e afundar e enterrar ou mergulhar

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Escolha se quer olhar e ver mandingas ou talismãs

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Escolha se quer riscar-se à superfície ou no fundo

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Escolha se quer o caminho das pedras ou o caminho do céu

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Escolha se quer cardos ou se quer prosas

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Escolha se quer deixar como está ou construir novos Paraísos.

Ao que parece a minha sobrinha mais velha é muito parecida comigo. Aqui há uns dias reparei nela de outro jeito, enquanto corria, entretida na sua vidinha de ano e meio, pela casa dos avós. Foi a primeira vez que lhe encontrei alguns traços que me foram familiares. Assim como um reflexo que não vinha de um espelho, mas de uma superfície viva, animada de corpo e vida. Acho que, por mais anos que viva, a imagem que tive nunca se há-de apagar de mim. Para dizer a verdade foi um instante ímpar de reconhecimento, que não me lembro nunca de ter tido ao contemplar a minha própria Pequena Cria Crescida, em nenhuma das infinitas vezes que a contemplei e contemplo, de todos os ângulos, faces, proximidades e afastamentos. Habituei-me desde o primeiro segundo a vê-la a ela e jamais a mim, sempre que a olhava. Mais: sempre amei essa certeza que olhá-la me devolvia, a de a reconhecer  absolutamente diferenciada de mim, sem espaço para qualquer risco de confusão possível. Ela absolutamente ela, nela. Eu absolutamente eu, em mim. Não sei se por isso, a realidade  é que foi mesmo muito, muito estranho, esse instante em que sem nenhum esforço me vi a mim mesma na minha sobrinha mais velha. Daí para cá, não sei se por sugestão, a impressão tem-se repetido frequentemente. Só alguns dias mais tarde quando, no entusiasmo da conversa, deixei escapar o episódio e depois me detive, meio constrangida com a presunção, e as pessoas me responderam «mas ainda não tinhas reparado?», é que esta surpresa e perplexidade ganhou outros contornos. Fiquei então a saber que a mãe da minha sobrinha e, sobretudo, o meu irmão, dizem dela há muito que “é igualzinha” a mim, especialmente no feitio e no que já desponta da sua maneira de ser.

Eu sei que já sou mãe há bastante tempo e que esta sensação pode parecer disparatada todos estes anos depois, mas palavra de honra que nunca senti tal coisa. É assim um misto de orgulho e gratidão, nem eu sei bem de quê, com uma ponta enorme de responsabilidade e um certo friozinho na espinha à mistura. A final de contas, ninguém como eu pode tomar o peso da vida e das coisas quando se é assim como se é. Por outras palavras, se ela é parecida comigo, ninguém melhor do que eu pode ter uma noção aproximada do que possa vir a representar para ela ser assim e não de outra forma qualquer. Confuso? Estranho? Também me parece. Muito mesmo. Especialmente esta coisa de ter passado a viver sabendo que, de alguma maneira, alguém se lembrou de finalmente me clonar e de já não ser propriamente a única igual a mim mesma à face do universo!…

A FLIP de Paraty ainda mal terminou e, sem saber como, estamos já mergulhados no frenesim muito louco dos mil e um festivais de Verão, dentro e fora de Portugal, cada um com sua temática, mas todos alvoraçando os dias e inaugurando aquele velho corre-corre desenfreado que já não é novidade nenhuma para os veteranos nestas andanças. Pontualmente, já aconteceram uns quantos. A diferença é que, a partir de agora, passam a suceder-se sem intervalo, uns a seguir aos outros, quando não uns sobrepostos aos outros.

Não obstante a violência da coisa e do seu ritmo, eu gosto desta época, sim. Porque além de inaugurar uma temporada de trabalho na estrada e ao ar livre (sempre bem vinda para quem como eu sofre de fobia de clausura crónica, depois de tanto tempo a viver no mato e debaixo do céu, que deixaram um bichinho que nunca mais há-de morrer), tem a virtude de nos juntar outra vez a todos. São dias de muita cumplicidade e convívio com pessoas que o quotidiano e as agendas obrigam a espaçar contacto. Nessas temporadas de festivais voltamos a estar reunidos como uma grande família, díspar e bizarra, mas onde cada um tem a sua parte, contribui com o seu carisma, traz as suas peculiaridades e colabora como elemento indissociável da mesma tribo. E depois, durante essa temporada, apesar de desgastante e muito cansativa, a profissão despe-se em absoluto das burocracias e fica só a parte boa. Corremos cidades e lugares, falamos com as gentes, experimentamos as suas comidas, os seus hábitos e tradições, ficamos mais próximos da vida, que é o único lugar onde as histórias a merecer serem contadas existem verdadeiramente e são genuínas. Essa é temporada onde os dias se enchem de artistas e sensibilidades outras, e onde a arte e as suas mais diversas manifestação se torna centro dominante de tudo. Até dos nossos passos e horários. Até dos nossos sonhos, sejam eles sonhados acordados ou a dormir. É o tempo dos imprevistos, dos imponderados, dos sobressaltos, também. E eu gosto disso. Aumenta a acuidade do raciocínio, espicaça intuição, instinto e destrezas e obriga os sentidos a estar permanentemente alerta e despertos. Ao contrário da rotina e dos procedimentos mecanizados, nesta época tudo chega com o sabor da novidade e da diferença, num abuso de sensações, numa cascata de coisas para ver, sentir e entender, que estimulam a escrita e todas aquelas outras bençãos que trazemos adormecidas. É tempo de trocar ideias e pontos de vista. As confabulações e confabulados estão por todo o lado e tudo brota energia crítica e pensante. De certa forma, essa é a temporada em que, de uma forma ou de outra, reconhecemos nos olhares que trocamos entre nós, a mesma suspeita partilhada (sim!) de que podemos fazer a diferença e de que alguma coisa muda no mundo por nossas mãos. E depois eu gosto daquele agito de máquinas fotográficas, objectivas, câmaras, baterias, micros, cassetes, cabos, gravadores, e eu sei lá mais o quê. Gosto daquela parafernália toda, de nos tornarmos menos preocupados e mais confortáveis, mesmo alucinando de calor sob o sol ou tremendo de frio quando a noite chega e a madrugada se alarga. Gosto de nós cobertos de pó e desgrenhados, dos óculos de sol, dos relógios desportivos, dos ténis e das botas, dos blusões e das camisetas que vêm sempre de algum lugar ou evento muito especial por onde passámos e estivemos presentes. Gosto desta fraterna promiscuidade de partilharmos tudo e perdermos a cor e a filial, de não sermos mais de nenhuma marca, empresa ou instituição, a não ser aquela que pede a todos que dêem o seu melhor, superem os imprevistos e coloquem cá fora o seu melhor trabalho. Porque para nós, a velha tribo que há anos se cruza em trabalho, se conhece e é destacada para os mesmos lugares, a única coisa que interessa é conseguir fazer o melhor e não exactamente os imperativos da concorrência ou os pressupostos estabelecidos por cada orgânica interna a que cada um se encontra ligado. É uma época fértil de criatividade e resultados, com todo o mundo a mostrar para todo o mundo, com ideias e sugestões, com opiniões e críticas trocadas abertamente, tendo por exclusiva finalidade entender onde e como é possível ir mais longe, fazer mais e melhorar.

Acredito que essa realidade não extravaze para o exterior e não passe. Sei bem, aliás, que só aqueles de nós que lá estão e fazem parte dessa grande família sabem dela. É por isso muito difícil explicar aos que não têm acesso, nem possibilidade de viver o mesmo que nós. E é também por isso que hoje em dia já não me impaciento ante todos os que, por absoluta ignorância acerca daquilo sobre o qual se pronunciam e emitem opinião, insistem em reduzir essa temporada a uma diversão colectiva, quase obscena de tão desbargada inconsequência e liberdade, quando comparada com os seus dias ‘nine-to-five’, presos a uma cadeira, entre quatro paredes. Pudessem eles saber de como é e de como tudo se passa e ao tanto que obriga!… Em parte é exactamente essa a razão de sermos uma grande família que se conhece de longa data e partilha cumplicidades tão fortes. Porque todos os anos aparecem no terreno algumas caras novas, a maioria delas por destacamento e sem direito a opção, outras movidas pela desconfiança de ser porta aberta para uns quantos momentos bem passados e outras tantas regalias e privilégios apetecíveis de abusar. Acontece que se contam pelos dedos as que sobrevivem e dão as caras na etapa seguinte. Quando se apercebem das milhas palmilhadas por dia, da correria constante, sem tempo para comer e ir no banheiro, o peso dos materiais, o cansaço, o sol, o frio, as longas horas de trabalho a que depois sobram magras outras de sono ou descanso, o ritmo puxado, sem brechas nem folgas, a pressão, a necessidade de refazer planos, inverter agulha, recriar, reinventar, de se preciso for ter que reformular no minuto, de uma hora para a outra, do dia para a noite, sem trapézio, nem rede… nunca mais se oferecem para enfrentar o mesmo ‘calvário’ que para nós é tão doce e estimulante. Ás primeiras queixas, exigências, indignações e lamúrias logo sabemos que não é da tribo e que o mais provável é que não voltemos a vê-lo nas mesmas paragens que nós, no ano seguinte. Porque como ontem de madrugada alguém dizia, «é preciso gostar-se muito disto».

E como eu gosto mesmo muito disto, com toda a vossa licença e já pedindo mil desculpas, vou abreviar o papo de hoje, preparar um cocktail molotov de ben-u-ron’s para domar a constipação e baixar a febre no máximo até às 17h, beber um chá de mel e limão para limpar da voz da rouquidão que o frio da madrugada e a humidade à beira-rio deixaram, cair no duche e sair a voar para o 3º dia desses 5 de festival, que a tribo pode andar a trabalhar em liberdade, mas é extremamente profissional e não está acostumada a perder o horário!…

Ass: eu

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copyright © Maggie C. 2004



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