Faz precisamente uma semana, assisti neste mesmo palco a um espectáculo magistral de Rafael Amargo, génio indomável das ‘ganas’ do flamenco. Hoje, inesperadamente, Djavan vem lembrar-me disso, resgatando uma canção do grande Camarón de La Islã, La Leyenda Del Tiempo, um poema de Garcia Lorca adaptado por Ricardo Panchon.

primeiroamor

A propósito da canção, aproveitou Djavan para deixar o reparo a pairar suspenso sobre a plateia: «o primeiro amor, por mais forte, nunca será eterno». Primeiro lembrei-me de ti. Depois cruzei a penumbra com os olhos e vi um sorriso branco a brilhar ao meu lado. E, então, lembrei-me da Cria, por essa altura rainha na cabeceira da mesa em festa, radiosa e radiante na primeira celebração inaugural longe de mim que a pari, nó a marcar no cordão umbilical que nos une mais um momento da história das minhas entranhas e da adolescência dela. Não sei porquê mas lembrei-me. Talvez fosse por saber dos dezasseis anos. Talvez fosse por o ouvir pronunciar, assim vindo do nada, no cruzamento com os destinos sanguinários do sentir flamenco, a encantatória expressão “primeiro amor”. Talvez fosse por já não te ver ali. Talvez fosse por haver um sorriso branco ao meu lado, mesmo assim. Facto é que foi na cria que pensei e, estranhamente, não lamentei que fosse como ele disse que é e eu sei que será. Porque o “primeiro amor” só é imprescindível pelas carruagens a que abre alas. E só é inesquecível porque outros mais ferinos nos aguardam. Bem vistas as coisas, é só porque nos aguardam e não lhes podemos pedir que nos esperem para sempre que não há forma de consentir ao “primeiro amor”, mesmo sendo o primeiro, que seja eterno. E a vida sabe disso. Melhor do que nós. Ela sabe, sim. E é por saber que não nos pode fazer a vontade e não deixa que nos dure para sempre e seja egoísta, como tudo o que se sabe imortal.

meninaazuloceano

Sobre Camarón, disse Djavan tê-lo impressionado profundamente, na primeira vez que lhe escutou «aquela voz que parecia vinda das profundezas da terra». Apresentou-o com a precisão do osso, pensei eu que amo o flamenco e sempre me verguei diante das djavânicas ‘matizes’ que saem da voz deste meu preto-rei. E enquanto o escutava na canção, o Coliseu ia ficando tão retinto como as mãos dele no dedilhado da guitarra, retinto como o alcantrão da estrada. Tive mesmo a impressão de ver desprender-se dele o mesmo bamboleado translúcido que o calor faz ao evaporar-se contra o alcatrão da estrada rubra, rubra como as luzes que queimavam, na altura, sobre o palco e na boca de cena. E foi aí que, subitamente, diante dos meus olhos, as planícies da Andaluzia se foram mesclando como água entrelaçada à água na vasta aridez dos sertões nordestinos, até tudo ser já só um mesmo oceano. E já nada ‘parecer raso e cinza‘ como outrora pareceu. Até se descobrir que, afinal, tudo ‘era pão, era vinho, era chão‘. Só não parecia. À primeira vista. Não parecia, mas era.

Para ver aqui.

* gravado ao vivo, em Maio deste ano, no Teatro Caupolicán, na cidade de Santiago no Chilie. A qualidade não é a melhor, mas não existe outra disponível. Depois, também recomendo vivamente esta outra versão do tema, recriado numa jamm session onde participaram os músicos que costumavam acompanhar Camarón. Pelo meio há imagens do filme homónimo, estreado em Espanha, em Junho de 2006.