Se eu pudesse, erguia uma igrejinha azul em teu nome. Não precisava de ser muito grande, que o amor não se mede aos palmos e as obras dos humanos também não. Mas erguia-te um torreão, sim, onde os ponteiros marcassem sempre meio-dia. E dava às andorinhas o canto do teu primeiro choro e aos corvos uma pressa de asa igual à tua, que precipitaste a voz ao mundo antes dele te dar sinal e chegaste assim, a elevar a vontade acima das ordens e a acertar na hora certa em que planetas, astros, bissectrizes e luz solar se desenham num ângulo perfeito que nos dispensa às leis e às supérfulas matemáticas que inventamos por nos faltar a certeza e duvidarmos dos sentidos, como de todas as verdades primeiras. Só porque nos chegam como presságios e nos assustamos por demais. Como nos habituámos a fazer com tudo o que os olhos não vêem e só a pele da alma sente. Erguia, sim, uma igrejinha azul com um torreão onde os ponteiros marcassem sempre meio-dia, que é quando o dia explode com mais ganas e o pico da noite lhe corresponde num avesso exacto. Só para que quando o sol fosse a pique, em Julho, neste dia, mesmo que nenhuma de nós ainda por cá andasse, houvesse um sinal nosso sobre a face da terra e ninguém tivesse nunca mais que se perguntar, que inesperado milagre foi este que demos à luz a rir, como se o mundo fosse limpo. Juntas, como se nenhuma dor mais traiçoeira o manchasse. Mas pintava-a de azul, sim. Perdoa-me. Pintava-a a um azul suave como a água em dias de céu claro. Como vi nas margens do rio da minha vida, nessa margem distante da terra te dei por berço e aqui me há-de prender como um grilhão, uma âncora, um ferro, um espeto, sim. Como qualquer coisa que me dói e me magoa, sim. Enquanto tu fores viva e existires. Porque nenhum destino é maior que o ventre, nem nenhum outro instinto mais afiado que este que me escora a ti, minha gaiola doirada de portas abertas, que ao chegar me ofereceste a maior liberdade que se pode desejar em vida: a de saber que, por mais voltas que o mundo dê e mais descasos e desvarios que rodem à roda, nunca mais se há-de estar inteiramente só. Abençoada, eu. Por tua causa. Abençoada, tu. Por meu amor.
Parabéns, Minha Pequena Cria Crescida!
Ass: a mãe








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