A lua girou, girou
Traçou no céu um compasso
A lua girou, girou
Traçou no céu um compasso

Eu bem queria fazer um travesseiro dos seus braços
Eu bem queria fazer…

Travesseiro dos meus braços
Só não faz se quiser
Um travesseiro dos meus braços

Só não faz se não quiser…
Sustenta a palavra de homem
Que eu mantenho a de mulher
Sustenta a palavra de homem…

A lua girou, girou
Traçou no céu um compasso
A lua girou, girou
Traçou no céu um compasso

Eu bem queria fazer um travesseiro dos seus braços
Eu bem queria fazer…

Milton Nascimento – “Lua Girou

Talvez porque esta noite me sinto tomada de uma felicidade inabalável e a salvo, apetece-me partilhar uma pérola rara que guardo, há muitos anos, fervorosamente em segredo e que nunca até hoje predispus à partilha fosse de quem fosse. A primeira vez que a ouvi, foi cantada ao vivo por Ney Matogrosso, no Coliseu de Lisboa, quando ele veio vestido de palitó branco, com o show “Pescador de Pérolas“, um show por sinal recheado de escolhas e canções de inominável beleza, a caberem inteiramente no nome dado ao álbum que serviu de escora à digressão. Foi, portanto ali, na bancada da geral, que primeiro me recordo de ter escutado esta canção, na época eu era pré-adolescente, estudava e não ganhava dinheiro, mas insistia ainda assim em ver espectáculos todos os dias e não podia abusar mais da generosidade dos pais. Todos os instrumentos se calaram e ficou só a voz aberta no breu da sala, com aquela coisa linda a sair pela garganta e a desenhar-se em espiral rumo à cúpula. Como uma oração, uma declaração de amor, uma súplica, uma confissão, não importa. Como qualquer coisa que, na época, de imediato me arrebatou ao âmago de tão singela e sem enfeites, de tão fina e delicada, de tão perfeita que qualquer suspiro parecia o suficiente para a desequilibrar e fazer sumir feito um sonho delirante de impossíveis sublimes. Soube nessa mesma hora, que se canções existem que pautam a banda sonora da existência de cada um, essa era uma das que para sempre acabava de se inscrever no alinhamento da minha partitura. Com o tempo fui apurando a reflexão e chegando depois a entendimentos mais refinados dessa intuitiva suspeita que desde criança me acompanhava. Tenho, aliás, para mim que a música e as suas canções, quando vêm e, sem pedir licença, se gravam sobre a nossa pele e a nossa alma, se infiltram no imaginário particularíssimo de cada um, esse pedaço que nos dá consistência e coerência, mesmo quando olhado de fora tudo parece contraditório, absurdo e sem razão que lhe confira sentido visível e pronunciável. Assim como tenho para mim que é nessa sinfonia, em que o imaginário de cada um se vai compondo, que se encontra a chave daquilo que nos dá unidade e nos torna inconfundíveis, bem como o mistério que dita e profundamente influencia os nossos rumos, preferências, escolhas e opções. Por outras palavras, a composição que laboriosamente vamos tecendo de nós próprios.

Pois muito bem, a ser assim, e se eu não estiver enganada, essa canção contém em si decisivos arquétipos que reconfiguraram o que, desde então, venho buscando e almejando. Por outras palavras, é chave para alguns aparentes enigmas meus, expressão cifrada do que me descodifica, e onde muito provavelmente entroncam as imagens de colo, travesseiro, círculo, fecho e braços, como metáforas explícitas desse repouso só possível dentro e ao alto da perfeição mais perfeita de todas.

Momento histórico, portanto, na reformulação dos meus egoísmos mais silenciosos e inconfessados: deixo a canção ao dispor de todos.
Considerem como a primeira oferenda ao meu primeiro sobrinho-rapaz que acaba de nascer. Dizem que “quando a lua vira, resolve” e nasce quem está para nascer. Gosto de pensar que o meu sobrinho nasceu porque “a lua girou, girou / traçou no céu um compasso” e, quando virou, provocou-lhe esse desejo maior de vir “fazer um travesseiro” nos nossos braços. Por mim, abro-lhe os meus, fecho-lhos num círculo que o embale e ampare e, na ausência de um anjo que possa fazer-lhe de arauto à chegada, canto-lhe uma das canções mais belas que me lembro de trazer guardada.

Para ouvir cantada por Ney Matogrosso, tal qual a ouvi pela primeira vez: só na voz – aqui. Ou na versão cantada por Milton Nascimento, que descobri mais tarde: para ouvir aqui.