A Mafalda tem uma amiga a quem conta sempre as coisas todas que lhe vão acontecendo. E, de entre todas essas coisas, para as que são mais dramáticas, diz a Mafalda que ela tem sempre uma expressão que é muito reconfortante: «Acontece, deixa lá: faz parte!». E realmente faz. Um destes dias, estávamos as duas à conversa e concluímos sem grande dificuldade que realmente fazem parte, sim. Portanto, «não é preciso complicar de mais porque mesmo as coisas mais complicadas há um dia em que deixam de o ser». Como a Mafalda bem lembrou nessa tarde, «há um momento em que as coisas acalmam e planam». E lá continuámos a experimentar chás e a escolher colares, naquele poiso que escolhemos dar-nos nesse dia para albergar a conversa. Ela ia falando. Eu ia escutando. Pareceu-nos justo. Pareceu-nos ter sentido. E como eu ia ouvindo mais do que falando, reparei em muitas coisas que explicam porque razão, desde o primeiro instante, falar nos é tão voraz e doce como as cerejas. Ia a Mafalda dizendo de como é importante «descobrirmos rapidamente o que sentimos» e da extrema impressão que cada vez mais lhe faz o muito tempo que às vezes demoramos «a desligar-nos e a tirar de cima todas as cascas que nos enfiam e que nos impedem de respirar e sermos nós» só para «podermos fazer parte do sistema».

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Hoje apetecia-me ter tempo e escrever sobre essa coisa de ficar perto, essa coisa de estar perto, sobre a proximidade com alguém que muito simplesmente pressentimos, pois como diz a Mafalda, acho que me acontece muito «pressentir pessoas». E, só porque não tenho tempo e sei que não estarei a cometer nenhuma inconfidência grave, é que me apetece lançar mão, aqui, do que a Mafalda me disse certa vez:

Há muitas histórias na nossa vida que vivemos pressentidas. São igualmente importantes, coisas que sabemos, apesar de não terem sido ditas: estão lá no olhar dos outros e nós sabemos. Se calhar não precisamos de as dizer, talvez passem anos até serem verbalizadas. Mas os pressentimentos são tão fortes como os sentimentos.