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Tirei, enfim, oito dias de férias, a contar de hoje. Serão efectivamente, como eu disse, férias. Em todos os sentidos, pelo que a começar agora ocorrerá um apagão geral que vale para tudo: celular, e-mail, internet, tudinho. O dia nem mal começou e, mesmo sabendo-me de férias, enquanto termino de fechar a casa, o telefone já tocou meia dúzia de vezes do emprego. E isso é só um exemplo. Não tenho nada contra ‘workaholics’, mas pergunto-me cada vez com maior frequência se conseguirão perceber que do mesmo jeito que lhes assiste a liberdade de nunca desligarem, nem procederem a um corte com a rotina, não tendo que ser nem julgados, nem criticados por isso, se pressupõe que respeitem igualmente as opções dos outros de exigir que férias lhes sejam permitidas ao menos durante as férias. Olho a sociedade em redor e arrepia-me o alarde dos sintomas de uma certa demência. Quanta fobia, quanta ansiedade, quanta precipitação! Tudo muito bem encapotado sob o argumento da competência, da responsabilidade e do profissionalismo rigoroso, o tal que não deixa para amanhã e quer à viva força ver feito hoje. Pois eu sinto muito, mas não embarco nessa. Penso em Nietzsche e na pertinente metáfora dos rebanhos e manadas, todos alinhados e perfilados, dispostos a seguir de acordo com a enxurrada e a corrente mais engrossada. Pouco me importa que, hoje em dia, esse frenesim “profissionalíssimo” seja prática comum e cada vez mais em voga. Nunca me resultou óbvio que a maioria fosse condição indefectível para conferir razão e sentido às coisas. E depois que toda a gente viva escrava do celular, que o transporte como uma prótese vital do banheiro para a cama, da mesa para o carro, do carro para o avião e para um mergulho na praia? Não é por causa disso que são profissionais mais zelosos e empenhados, nem é isso que os torna mais irrepreensíveis que os restantes. Nada contra quem prefere viver nesse sobressalto permanente, mesmo quando não se justifica. Somente não esperem que eu partilhe desse vício, ok?!

Portanto, para onde eu vou, seguramente que não haverá qualquer espaço ou concessão a esses disruptores do equilíbrio mental e funcional do indivíduo e que só servem para nos restringirem a liberdade, para nos controlarem os passos, os tempos e a mente. Ainda que há distância. Ainda que de férias.

Celulares, telefones, PDA e internet ficam de fora. Nos próximos dias, como eu avisei, o apagão será geral, intensional, desejado e convictamente assumido. Se a opção causar algumas azias: lamentamos, temos pena, mas é assim: férias são férias.

Até daqui a oito dias, então!

Muitas as andanças, as terras, as gentes e as mil coisas para ver e experienciar. Tempos extenuantes e cansativos, têm-me dito. Tempos ricos, eu diria, onde todos os fiapos de acontecidos ao fundo vão começando a fazer sentido, a ganhar encaixe, nexo, explicação e razão de ser. Até mesmo alguns pesares, algumas perdas, despedidas e fracassos. À certeza, ainda que por vezes dolorosa, de que preciso deveria ser que fosse assim e não de outro modo, soma-se enfim e aos poucos uma percepção mais nítida do porquê de haver que ser assim e não de outra maneira, qualquer que ela fosse. Em parte, é esta vocação nómada desde sempre pressentida que se vai subtraindo, mais madura e convicta, às ocasionais distracções, aos desvios momentâneos que lhe traziam o perfil esboroado. Por muito que por vezes custe compreender, por mais que se resista e não se queira admitir, por mais até que se lute por o combater, caminheiros e viajantes não podem ter o passo preso a nada que os amarre, por maior, melhor e mais importante que pareça e seja. Por muito até que de alma e coração o queiram. Têm que estar livres, incondicionalmente e sem reservas, interditos ou restrições a que seguir possam o seu curso natural. Ou de que outra forma se poderiam eles misturar aos lugares e às gentes?! Não é fácil. Não é simples. Muitas vezes chega-se a crer que se daria a vida para ser de outro modo, que se pagaria qualquer preço de bom grado para não ter que ser assim. Mas não se pode impedir nem evitar por muito tempo que a natureza se revele e fale mais alto. Caminheiros e viajantes não podem privar-se de cumprir o seu rumo. Jamais.

Porque caminheiros não são caixeiros viajantes, que podem ter uma coisa aqui, outra acolá, uma vida em cada porto, um porto em cada terra, uma coisa hoje, outra amanhã, uma à noite, outra ao amanhecer. Basta-lhe escolher. Porque apesar de lhes assistir a escolha e a escolha poder ser conforme à vontade que lhes dá, uma coisa é certa: têm sempre tudo pela metade. E é só por isso que lhes é consentido serem assim. Porque para metade basta. Para metade da vida, basta metade da alma e do coração. Nunca é forçoso que venham e tenham que se dar por inteiro. Seria na verdade um excesso tão incompreensível quanto despropositado. Pelo contrário, aos caminhantes, aos que aspiram cingir todas as coisas na sua mais extrema e completa dimensão, é-lhes exigido que cheguem pelo menos plenos e inteiros, totalmente disponíveis, e – já se sabe – ninguém é ou consegue ser absolutamente íntegro pela metade.

Portanto, muitas as andanças, as terras, as gentes e as mil coisas para ver e experienciar, nas últimas largas e bem medidas semanas. Mas apenas e só porque acontecidos aconteceram que permitiram a natureza revelar-se de acordo com o seu fundo mais próprio e verdadeiro. E acontece que às vezes perdas são necessárias para se descobrir que o caminho não poderia ser senão o que não conhece prisão em nada, nem a coisa nenhuma. O caminho não poderia nunca ser outro senão o que serve aos caminhantes por condição. E esse exige disponiblidade plena, íntegra e inteira. Metade nunca lhe bastaria, é um facto. Para nada. Nem andanças, nem coisas, nem terras e muito menos para gentes. E é por isso e só por isso que, uma vez chegados nesse ponto exacto da trilha, resulta claro (tão claro!) porque razão perdas se agradecem, afinal. Porque razão perdas também são dádivas a merecer graças.

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copyright © Maggie C. 2004



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