A propósito de um telefonema que faço para agradecer de viva voz uma mensagem de felicitação, cumprido o ‘apagão’, de volta à civilização e ao calendário. Pode ter sido só uma cortesia, eu bem sei. Mas, ainda assim, considero que merece um retorno especial. Depois de desligar e tentar mais tarde, conforme solicitado, dou comigo a sorrir e a lembrar-me do reparo de Kierkegaard que, com enorme subtileza, deixa  bem explicado porque razão não é afinal tão absurda a tendência para “fazer sempre a coisa errada”, “estragar tudo” e, como o povo gosta de dizer, “deitar outra vez tudo a perder”, quando finalmente alguma coisa boa, há muito desejada, acontece. É porque é mesmo assim. Apesar de à primeira vista parecer não fazer sentido, é mesmo essa a ideia: impedir que a felicidade se concretize para garantir que não se é subitamente subtraído do tão mais confortável e inofensivo domínio das possibilidades. É que lá tudo é permitido, tudo permanece provável. Sempre. Como o próprio nome indica, tudo é só, mas sempre possível. Mais que não seja em teoria e com os 50% de hipótese, garantidos a priori pelo ratio das probabilidades. E é por isso, e apenas por isso, que não é de espantar que – exactamente no momento que poderia ser decisivo – a possibilidade da felicidade seja frequentemente preferida à felicidade ela própria.

Pleasure disappoints; possibility never.
Kierkegaard