
A casa tinha buganvílias à entrada mas não tinha portão. A janela da varanda também não tinha vidraça. Tirara-a para deixar que a brisa esvoaçasse melhor e mais livre no trajecto certeiro, rumo ao oceano adiante, e que ora tinha a cor das safiras, ora das turquezas e do cobalto. Era conforme. Via-se o mar, para lá da cancela que protegia a falésia, e no caramachão estava presa uma rede encardida a que o sol tratara de comer a cor. Por todo o lado, vasos, latas, fundos de garrafa e potes de terracota com plantas, flores, ervas aromáticas e temperos trazidos das sete partes do mundo. A luz entrava coada e ouvia-se o zunido constante das cigarras nas árvores de fruto do terreno que crescia ao Deus-dará nas traseiras. Nenhuma porta tinha trinco e as portadas às ripas batiam descompassadas quando o vento dançava de feição. Sobre os muros, canteiros e qualquer superfície que lhes pudesse servir de poiso, espalhavam-se pedras, sementes, conchas, búzios e fósseis, tesouros raros que só lhe saltavam ao caminho quando nada fazia para os procurar. Um carrilhão espetado na parede lateral da casa tilintava ao longe, como um murmúrio suave de alma adormecida ao estio. A cafeteira de zinco borbulhou na cozinha e, em pouco tempo, as chávenas chinesas fumegavam prazeirosas, adocicadas com uma colher mal-cheia de açúcar amarelo. Havia uma cadela na casa, mas só lá ia uma vez por semana, quando a fome apertava e, mesmo assim, nunca se demorava muito. Lá dentro, lanternas, candeeiros, espelhos, caixas, baús, mantas, almofadas, cadeirões, bancos e banquetas de muitas formas, feitios e proveniências, alguns pratos, livros, e fotografias, em moduras ou simplesmente presas com um grampo às paredes e às portas. Só não existiam relógios, nem nada que tivesse ponteiros ou pudesse ameaçar direcção aos dias. Como já se disse, nenhuma porta era fechada e quase todas as vidraças tinham sido retiradas, deixando no lugar das janelas aberturas esventradas, como bocas sedentas escancaradas ao céu, por onde a brisa da tarde sufocante entrava sem cerimónia e o vento cruzava lufadas e correntes sem se acanhar. Faz portanto sentido que, do lado da estrada, houvesse uma tabuleta com o nome da casa e que ela se chamasse “Sítio da Ventania”.








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