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Amas as putas e o mar salgado, a preguiça e a liberdade. Comes formigas e vês beleza onde quer que o vago assomo da arte te atravesse a retina. Pulsas a baixo da vergonha e sopras para dentro da minha boca os teus desvarios fantásticos de homem-peixe, homem-rã. Picas como o sol e como as flores, espinho de urtiga doce cravado ao de leve onde as coxas se abrem sozinhas, sem precisarem de uma ordem mais firme que a surpresa sorridente dos inesperados previstos pela razão lógica do universo. Cais na água. Cais da água. Cais à água como água. E depois regressas assim, com os punhos fincados no areal da rebentação, e uma benção maior a colocar-te dentro das mãos tesouros e talismãs que depositas por cima do meu ventre como uma oferenda sagrada. Sem saber que todas as pedras e conchas do fundo que me trazes estavam já previstas – a mim como a ti – rente ao começo das eras. Quando tu já eras homem e eu ainda não era nada.

Duplicar. Ter dois mundos, duas camas, duas vidas. Ser dois o chão. Ser a dois. Ser de dois o chão. Haver terra e haver mar. Haver paraíso para lá do ermo estéril do Inferno. Haver vida dentro da vida. Pulsar. Cambiar. Combinar. Ter uma terra outra por cima da terra, uma nação nova dentro do mesmo país. Experimentar um tempo outro por cima do tempo deles. Sobrepor a pele sobre a pele. Ser selvagem, primária, primitiva. Ser primeira. Ser por detrás do betão, das muralhas, das couraças e do asfalto da selva de pedra deles, que nunca será cidade farta para os iguais a nós.  Saber dos recantos, dos mistérios e dos segredos. Aprender os caminhos de ninguém, que levam aos pedaços ainda a salvo. Onde a natureza se mantém conforme ao que era para ser e os primórdios nos uivam com a mesma intensidade das nossas bocas cruzadas à espuma. Com o mar em fundo e um pôr-do-sol desenhado só para nós. Ser bicho simples, suculento como as ervas, poroso como as areias. Estender a nudez aos dias. Dentro e fora de casa. Casa. A casa. A minha e a tua casa. Seja onde for. Onde quer que seja que ela nos aconteça ou apeteça. Ser maior que as horas. Dizer que não ao tempo. E ganhar em dobro tudo o que eles teimam em nos recusar pela metade.

I’d rather be an outlaw than be eaten by the system

Fechar os olhos e confiar-te como num Deus. Abrir-te os sentidos e saber que falas como um rei.

Entra Outubro e Rojanski coloca na tabuleta da entrada um novo escrito:

Gosto dos venenos mais lentos! Das bebidas mais fortes! Das drogas mais poderosas! Dos cafés mais amargos! Tenho um apetite voraz. E os delírios mais loucos. Você pode até me empurrar de um penhasco, que eu vou dizer: E daí? Eu adoro voar!
Clarice Lispector

Como se me adivinhasse. Como se soubesse, sem eu precisar falar, de onde vem a cura exacta para o vómito salobro que a desfaçatez de alguns, às vezes, na calada da noite, quando menos se espera, dá de retorcer dentro das entranhas da gente e a estendesse a mim: assim – sob o lombo simples de um verso mais sábio.

Pudesse a mão que, traiçoeira, nos açoita ao rebordo do penhasco, suspeitar o imenso favor que pode estar fazendo!… Pudesse ela saber que o abismo aberto adiante pode, em verdade, ser somente o passo que faltava para o começo de um vôo outro!…

Ave, Rojanski!!

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copyright © Maggie C. 2004



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