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Uma coisa engraçada em que reparo. Ao contrário do que seria de esperar, é nas cidades ditas mais cosmopolitas e orgulhosas de se auto-proclamarem abertas à diversidade das formas e estilos, que a diferença mais se estranha (às vezes nem mesmo se entranha!). Qualquer coisa que se desvie do habitual padrão dificilmente passa sem alarde. Digo isso porque não me lembro nunca de ver os índios esbugalhar o olho para os meus vestígios europeus, como acontece por aqui, a cada vez que visto uma peça de roupa ou uso um acessório trazido de outras paragens. Dá mais nas vistas, e é considerado mais “exótico” e “extravagante“, um simples lenço com a textura e as cores de Goa, de Oaxaca ou do Nepal num jantar em Lisboa do que alguma vez deu, dará ou daria, um tailler Hugo Boss numa refeição à roda da maloca. Dito de outra forma, passa mais facilmente despercebido um celular numa aldeia indígena do que um brinco de penas numa rua da Europa. Curioso, não?!


* Fotos de Roberto Castro, Jefferson Rudy e Kazuo Okubo, cortesia da minha querida amiga de longa data, Adriana Paiva, e que constam da sua interessante matéria que pode ser lida na íntegra aqui.

Ainda que continuando a crer que a arte, seja ela qual fôr, não deve desperdiçar nenhuma matéria-prima, confesso que acordei invadida de uma vontade funda de agradecer a quem chega, vem e me oferece inspiradoras alegrias bailarinas. É que por mais indiscutivelmente pródiga que a tristeza seja à escrita, passado alguns anos, seus trejeitos de diva cinza perdem o encanto, enrugam-lhe o viço à pupila esmorecida e diluem o efeito sedutor do seu olhar, mesmo quando nos pisca na direcção.

Muito tempo volvido, a tristeza é ninfa que satura e cansa. Quando se vai ver, ficou de útero estéril e não há como fazê-la parir nem mais uma linha. Portanto: ‘grácias’ Senhor, por estas alegrias bailarinas que me mordiscam ao acordar!… Que de vez em quando, qualquer mortal precisa de novas musas a dançar-lhe a inspiração.
* Foto de Jovelino Matos Almeida e tela de Jim Dine.

Se tivesse que ser, dividia as pessoas em dois únicos grupos sanguíneos. De um lado os que têm um tipo de sangue que fervilha até verter e transbordar, mas que depois, por acção de uma qualquer enzima desequilibradora ou de um qualquer choque térmico, esfria, congela, paralisa e se cristaliza. Do outro os que possuem aquele sangue que crepita e borbulha em constante ebulição, que nunca chega a cair em cascata até se esparramar no chão, mas que vive desafiando o rebordo, lambendo os limites, sem nunca se entornar, sem nunca se perder no desperdício. Os seres do sangue fermentado que, por tanta fervura sujeita a súbitos arrefecimentos, viram estalactite; e os seres do sangue pulsante que, de tão ininterrupto ferver, viram lava de vulcão em perpétua ebulição. Os do sangue coagulado e os do sangue corrente. Os do coágulo e os do fluxo. Os que estancam e os que jorram. Assim o sangue, assim nós. Pois que não somos senão conformes à natureza do sangue que nos anima as veias. Todos. Sem excepção. E isso basta para, entre nós, nos distinguirmos e não haver risco de confusão possível.
* foto da Rita

A triagem na vida faz-se, eu creio, a partir da maior ou menor resistência de laços e nós, da forma como se mantêm bem esticados ou afrouxam com o tempo, da propensão que admitem ou não para ceder, nem que seja um milímetro. Vem isto a propósito das primeiras pessoas a quem me ocorre correr a dar alguma capital notícia que se prenda comigo, com os meus ou com aqueles a quem quero bem. Vem isto a propósito de, no meio das minhas mais incontidas felicidades, observar quem são aqueles que constam da lista que, inconsciente e espontaneamente, trago escrita no coração. É então que faço reparo de que existem os que em algum momento já fizeram parte dela; que existem os outros, que entretanto dela passaram a fazer parte; e depois que existem ainda os outros, aqueles que uma vez lá inscritos nunca, mas nunca por nunca, dela deixaram de constar, não importa que infortúnios, que zangas, birras, revezes ou amúos. E não está em causa se, por qualquer circunstância, passa demasiado tempo, às vezes anos sobre anos, sem que nos falemos ou vejamos. Não está sequer em causa o grau de entusiasmo com que acolhem a novidade, ou sequer se são hoje menos expansivos do que em qualquer outra altura já possam ter sido. Porque, para o caso, o que interessa não é a receptividade que possam demonstrar diante do que lhes levamos para contar. O que importa é o facto de serem eles e não outro alguém qualquer, aqueles para quem corremos com o que levamos para contar. Suponho que isso quer dizer alguma coisa, senão tudo. Suponho que essa seja, em verdade, a única triagem fiável e reveladora que nos orienta nas certezas e sentires do coração. Suponho, aliás, que essa seja a maior de todas as evidências, senão a única que era bom que consentíssemos que nos falasse mais alto, sobretudo nos momentos em que, distraidamente, nos convencemos que os afectos nos atravessam momentos de dilema, dúvida ou confusão. Porque não é verdade. Nunca é verdade. Pode parecer, mas o coração nunca nos anda indeciso. O coração sabe sempre de tudo e todos muito bem.
Como o meu agora, no instante do primeiríssimo impulso, em que me salta do peito e sabe tão bem para quem correr, a dar conta desta tremenda alegria de me ter acabado de nascer mais um sobrinho. Porque daí para a frente, todas as outras vezes que o contar, será já outra coisa. Uma notícia, uma partilha, um dizer, um fazer saber. Enfim, o normal entre quem se conhece e não pode exactamente tratar-se como se estranho fosse. Mas já não esta coisa crucial que nos é tão urgente como a própria novidade. Esta coisa irrepetível que só tive há minutos atrás com alguns: com “aqueles”, os tais que se trazem na lista permanente do coração e em direcção aos quais disparei a correr para contar que me tinha acabado de nascer mais um sobrinho. Hoje. Há instantes. Faltavam cinco minutos para as oito da noite.
Bem hajam, por existirem assim em mim. Sobranceiros ao tempo que passa e a algumas atrapalhadas trapalhices que a vida nos traz às vidas.
Ao que parece a minha sobrinha mais velha é muito parecida comigo. Aqui há uns dias reparei nela de outro jeito, enquanto corria, entretida na sua vidinha de ano e meio, pela casa dos avós. Foi a primeira vez que lhe encontrei alguns traços que me foram familiares. Assim como um reflexo que não vinha de um espelho, mas de uma superfície viva, animada de corpo e vida. Acho que, por mais anos que viva, a imagem que tive nunca se há-de apagar de mim. Para dizer a verdade foi um instante ímpar de reconhecimento, que não me lembro nunca de ter tido ao contemplar a minha própria Pequena Cria Crescida, em nenhuma das infinitas vezes que a contemplei e contemplo, de todos os ângulos, faces, proximidades e afastamentos. Habituei-me desde o primeiro segundo a vê-la a ela e jamais a mim, sempre que a olhava. Mais: sempre amei essa certeza que olhá-la me devolvia, a de a reconhecer absolutamente diferenciada de mim, sem espaço para qualquer risco de confusão possível. Ela absolutamente ela, nela. Eu absolutamente eu, em mim. Não sei se por isso, a realidade é que foi mesmo muito, muito estranho, esse instante em que sem nenhum esforço me vi a mim mesma na minha sobrinha mais velha. Daí para cá, não sei se por sugestão, a impressão tem-se repetido frequentemente. Só alguns dias mais tarde quando, no entusiasmo da conversa, deixei escapar o episódio e depois me detive, meio constrangida com a presunção, e as pessoas me responderam «mas ainda não tinhas reparado?», é que esta surpresa e perplexidade ganhou outros contornos. Fiquei então a saber que a mãe da minha sobrinha e, sobretudo, o meu irmão, dizem dela há muito que “é igualzinha” a mim, especialmente no feitio e no que já desponta da sua maneira de ser.
Eu sei que já sou mãe há bastante tempo e que esta sensação pode parecer disparatada todos estes anos depois, mas palavra de honra que nunca senti tal coisa. É assim um misto de orgulho e gratidão, nem eu sei bem de quê, com uma ponta enorme de responsabilidade e um certo friozinho na espinha à mistura. A final de contas, ninguém como eu pode tomar o peso da vida e das coisas quando se é assim como se é. Por outras palavras, se ela é parecida comigo, ninguém melhor do que eu pode ter uma noção aproximada do que possa vir a representar para ela ser assim e não de outra forma qualquer. Confuso? Estranho? Também me parece. Muito mesmo. Especialmente esta coisa de ter passado a viver sabendo que, de alguma maneira, alguém se lembrou de finalmente me clonar e de já não ser propriamente a única igual a mim mesma à face do universo!…

Eu hoje acordei assim, mansa e derretida. Rendida e conquistada. Desarmada, deslumbrada e em paz. Com o mundo a caber exacto e sem fricção no côncavo do meu colo. Com o mundo todo certo e sem arestas, aconchegado contra o peito.
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Desconfio cada vez mais dos que não se comovem. Alguma coisa muito grave deve ter-lhes acontecido algures, que lhes levou embora a metade que interessa do coração. E como, sem o coração inteiro, nada do que há para sentir se pode sentir senão pela metade, não é de espantar que não consigam comover-se como nós, que ainda conservamos o primitivo ‘músculo pulsante’ intacto. Pudera!… falta-lhes a única metade importante do coração.
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Serve igualmente a especialíssima ocasião para fazer saber a cada um de vocês, meus amigos, que o facto de terem feito questão de, de uma forma ou de outra, assinalar o dia e não permitirem que passasse em branco, ficou gravado a terno oiro no lugar onde vos tenho como relíquia rara.
Obrigada, muito e muito obrigada.
* Foto de A. Banavita
Faz precisamente uma semana, assisti neste mesmo palco a um espectáculo magistral de Rafael Amargo, génio indomável das ‘ganas’ do flamenco. Hoje, inesperadamente, Djavan vem lembrar-me disso, resgatando uma canção do grande Camarón de La Islã, La Leyenda Del Tiempo, um poema de Garcia Lorca adaptado por Ricardo Panchon.

A propósito da canção, aproveitou Djavan para deixar o reparo a pairar suspenso sobre a plateia: «o primeiro amor, por mais forte, nunca será eterno». Primeiro lembrei-me de ti. Depois cruzei a penumbra com os olhos e vi um sorriso branco a brilhar ao meu lado. E, então, lembrei-me da Cria, por essa altura rainha na cabeceira da mesa em festa, radiosa e radiante na primeira celebração inaugural longe de mim que a pari, nó a marcar no cordão umbilical que nos une mais um momento da história das minhas entranhas e da adolescência dela. Não sei porquê mas lembrei-me. Talvez fosse por saber dos dezasseis anos. Talvez fosse por o ouvir pronunciar, assim vindo do nada, no cruzamento com os destinos sanguinários do sentir flamenco, a encantatória expressão “primeiro amor”. Talvez fosse por já não te ver ali. Talvez fosse por haver um sorriso branco ao meu lado, mesmo assim. Facto é que foi na cria que pensei e, estranhamente, não lamentei que fosse como ele disse que é e eu sei que será. Porque o “primeiro amor” só é imprescindível pelas carruagens a que abre alas. E só é inesquecível porque outros mais ferinos nos aguardam. Bem vistas as coisas, é só porque nos aguardam e não lhes podemos pedir que nos esperem para sempre que não há forma de consentir ao “primeiro amor”, mesmo sendo o primeiro, que seja eterno. E a vida sabe disso. Melhor do que nós. Ela sabe, sim. E é por saber que não nos pode fazer a vontade e não deixa que nos dure para sempre e seja egoísta, como tudo o que se sabe imortal.

Sobre Camarón, disse Djavan tê-lo impressionado profundamente, na primeira vez que lhe escutou «aquela voz que parecia vinda das profundezas da terra». Apresentou-o com a precisão do osso, pensei eu que amo o flamenco e sempre me verguei diante das djavânicas ‘matizes’ que saem da voz deste meu preto-rei. E enquanto o escutava na canção, o Coliseu ia ficando tão retinto como as mãos dele no dedilhado da guitarra, retinto como o alcantrão da estrada. Tive mesmo a impressão de ver desprender-se dele o mesmo bamboleado translúcido que o calor faz ao evaporar-se contra o alcatrão da estrada rubra, rubra como as luzes que queimavam, na altura, sobre o palco e na boca de cena. E foi aí que, subitamente, diante dos meus olhos, as planícies da Andaluzia se foram mesclando como água entrelaçada à água na vasta aridez dos sertões nordestinos, até tudo ser já só um mesmo oceano. E já nada ‘parecer raso e cinza‘ como outrora pareceu. Até se descobrir que, afinal, tudo ‘era pão, era vinho, era chão‘. Só não parecia. À primeira vista. Não parecia, mas era.
Para ver aqui.
* gravado ao vivo, em Maio deste ano, no Teatro Caupolicán, na cidade de Santiago no Chilie. A qualidade não é a melhor, mas não existe outra disponível. Depois, também recomendo vivamente esta outra versão do tema, recriado numa jamm session onde participaram os músicos que costumavam acompanhar Camarón. Pelo meio há imagens do filme homónimo, estreado em Espanha, em Junho de 2006.
Às vezes, uma frase deixada escapar quase sem se sentir, pode ser mais reveladora do que uma conversa de horas que se quer e jura franca. Por diversas vezes, e sem ser de hoje, me tenho dado conta que assim é. Como aqui há um par de bem medidos meses, numa frase curta a fechar a madrugada. Numa simples frase ficou absolutamente claro porque razão o que poderia ter servido para ‘recomeço de conversa’ antes decretou, de modo irrevogável, o ‘fim de papo’. Porque não há entendimento possível entre quem habita metades opostas do universo. Por nenhuma razão em especial, a não ser essa que inviabiliza toda e qualquer tentativa de comunicação. Não se fala a mesma língua, dialecto, gestos e movimento inclusos, que a língua é e há-de ser sempre corpo anímico e animado, muito para lá do pé da letra que existe fincado na palavra (escrita ou dita, tanto faz!).
Existem pois os que levam a vida certos de terem sido amaldiçoados por ela, num qualquer troço do caminho; e existem os outros, os que todos os dias se deitam e acordam crentes de terem sido abençoados com ela. E depois é como nas mónadas do Leibniz, ou nas moléculas dos cientistas: chegados à mais ínfima porção, ao núcleo do cerne, ao miolo do indivizível – que se supõe ser onde reside o caroço vital da identidade – chega-se à conclusão que são incomunicáveis entre si.
Vem isto a propósito de ontem, esta mesma intuição com espessura de descoberta, que se revelou naquela madrugada há um par de meses atrás, me ter voltado a assaltar por diversas vezes, enquanto assistia ao espectáculo de Djavan no Coliseu de Lisboa. Subitamente: muito claro, muito límpido, muito sereno e conciliado, o entendimento que tardava da razão pela qual as coisas são assim e não são de outra forma. As coisas são como são porque, simplesmente, não podem – porque não têm como – ser de outra maneira. E tudo é sempre e só como é. Até as coisas, que são sempre e só como são, sendo que são o que podem ser, já que nada tem a possibilidade de ser aquilo que não é.
Hoje, ao ler casualmente um texto que a Sofia Vieira terá escrito mais ou menos nas cercanias de um dia emblemático (nem de propósito, é verdade!), não pude deixar de sorrir-lhe diante do tiro certeiro e da fineza da ironia velada que trespassa a figura do brando consentimento. No caso, o foco da Sofia é entre amores, mas a mesma acuidade lhe subsiste, se colocarmos entre parentesis os predicados próprios dos amantes e ficarmos só com a parte em que pessoas se relacionam com outras pessoas.
Foi ela, que eu sei (foi ela). Que te lançou feitiços e macumbas, milongas e mandingas, com os amuletos e talismãs que enrodilha no pescoço, as rezas ao pai de santo e os serviços encomendados. Foi ela, que se banhou em águas turvas, segregou fluidos biliosos e depois tos deu a beber, entrada à força dentro de ti, coitado, que não tens culpa (que não sabes o que fazes). (…) Ela a zoar-te aos ouvidos rezas e encantamentos, a ensaiar nas tuas costas sacrifícios e sortilégios, a coser-te a boca com o veneno de promessas e os seus beijos peçonhentos. Ela, que te deixou indiferente a esta dor de silício que se me crava na carne e que, com um vudu de muitas loas, fez de ti um morto-vivo e parou esse coração que dantes batia por mim. E eu, que nem acredito nessas coisas, que sou de estudos e não de crenças, racionalista positivista epistemológica matemática; eu que passo por baixo de escadas, que durmo com gatos pretos e me vejo partida nos espelhos partidos, sei que foi ela e não tu (coitado), que não tens culpa (coitado), que não sabes o que fazes.
Ass: Sofia Vieira
(publicado a 22 de Abril de 2008)
Releio o que a Sofia escreveu. Não sei se terá tido alguma madrugada semelhante àquela minha, de há um par de bem medidos meses atrás. Não sei, portanto, se terá calhado descobrir o mesmo que eu. Só sei que, quanto mais penso nisso, mais me parece que apesar de ser mais fácil e maior o alívio dos que se crêem amaldiçoados – seja pelo quê ou por quem for – ao limite, acredito que também seja desesperante de tão entorpecedor. Acredito, sim, que seja uma verdadeira tortura contínua e sem tréguas, esta coisa de terem que acordar todos os dias, independentemente da única verdade adquirida que possuem ser a da sua suposta impotência diante de uma inescapável maldição. Dito de outro modo, apesar da utilidade providencial da desculpa, que ninguém lhes inveje esse seu padecer!…
Esta manhã, depois do cumprimento obrigatório no Gtalk, lembrei-me de como é de valor o ensinamento desta outra ‘loba’. Sorri para a manhã e o dia adiante e depois desliguei. Feliz. Imensamente feliz, afinal. Por tudo ser, apenas e na verdade, exactamente e só o que de facto é.
To look life in the face; always to look life in the face, and to know it for what it is. At last, to know it, to love it, for what it is, and then; to put it away.
Virginia Woolf
Às vezes o cérebro humano prega partidas, como essa de se acostumar a proceder por comparação. Porque comparar acaba por se transformar num vício que se automatiza por si mesmo e sem grande intervenção da nossa vontade, a partir de certa altura. É fácil nem nos darmos conta e, ainda assim, já estarmos a estabelecer a inevitável comparação aos termos. Mesmo que ela seja dispensável. Mesmo que ela se revele até desajustada e inadequada à circunstância. Porque na maioria das vezes, quando assim sucede, acontece que caímos frequentemente no erro de comparar o que entre si nem tão pouco admite comparação, pois toda a gente sabe que entre grandezas distintas e de natureza diversa, a comparação não é sequer um método aplicável e qualquer conclusão a que se chegue com base nela é sempre errónea e propiciadora de tremendos equívocos, enganos e injustiças.
O que não entendo é como é que, se eu tão lucidamente sei tudo isto, continuo a cair na esparrela de fazer comparações entre o que nem sequer admite comparação. Por não ser de todo comparável com o que lhe coloco no outro prato da balança. Custa-me, aliás, demasiado a entender.


Eu não sabia nada. Aprendi tudo aqui, com a floresta, inclusive a primeira lição de todas: sobreviver. A floresta dá-me segurança, aqui tenho tranquilidade para pensar e planear.
Xanana Gusmão
Durante 24 anos de guerrilha na metade oriental da ilha de Timor, no sudoeste asiático, a floresta – que abunda na montanha de Ermera, na cordilheira de Ramelau (ou Tatamailau) – foi o ‘quartel general’ de Xanana Gusmão e dos seus homens, encabeçando a resistência do povo Maubere à anexação pelas tropas invasoras da Indonésia, nove dias após a declaração da sua independência, decretado que foi o fim do Império Colonial, após a Revolução do 25 de Abril, em Portugal. Porque em Timor Leste «não se foge para fora, foge-se para cima».
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Era noite quente aqui e eu havia resolvido regressar a casa perto da meia-noite e gozar essa tranquilidade rara de ter a casa só para mim. Ver televisão não estava definitivamente nos meus planos, mas passo a explicar. O som aqui de casa quebrou, o concerto não compensa e a despesa de comprar uma nova não é sensata no momento. Na emergência, venho tocando os discos no leitor de DVD. Foi assim que, no vai-e-vem de mais uma troca, me apareceu no ecran do televisor um plano, esmagador de tão lindo, do amanhecer dourado na Ilha do Crocodilo, o outro nome de Timor Lorosae – a terra do ‘Lado Onde Nasce o Sol‘- e eu dei comigo presa pela retina, subitamente transportada, na semelhança, para os céus (por tantas alvoradas testemunhado) do meu Amazonas.

Acabei puxando o cinzeiro e o copo para o amontoado de almofadas e me aconchegando no sofá, o vento a entrar ventando morno, no rodopio das janelas da sala, abertas aos quatro pontos cardeais, aliviando nesse frescor soprado o bafo tórrido ainda remanescente do dia. Para dizer a verdade, a calma já reinava cá por casa e pelo peito, mas qualquer coisa na voz pausada e espessa do Comandante Xanana Gusmão, narrando na primeira pessoa um documentário sobre Timor Lorosae e ele próprio, realizado e produzido por Grace Phan, veio adensá-la mais ainda. É bela a voz do Comandante, pensei. Quase hipnótica, lembrei-me eu, então, sentindo vir à memória com uma nitidez impressionante as duas únicas vezes em que a escutei ao vivo. Uma, na primeira visita oficial a Portugal, depois da libertação de Cipinang, em 2000, ainda antes do referendo e do massacre final ao povo Maubere, perpetrado pelas tropas do General Suharto, no final do Verão seguinte, marca última deixada ferrada sobre a população, antes de abandonar o território invadido, para vingar os mais de 80% de votos a favor da independência, não obstante o medo e a intimidação incutidos às urnas pelas milícias integracionistas. A outra, em 2006, durante uma visita à Universidade de Coimbra e ao núcleo de estudantes timorenses em Portugal.
De ambas as vezes me recordo de me ter sido absolutamente claro porque lhe obedeciam os homens resistentes, porque razão o escutavam e seguiam rumo ao topo da cordilheira envolta pela floresta, deixando para trás as aldeias, as mulheres chorosas, os velhos doentes, as crianças famintas e o vago fio de vida que lhes restava, após a miséria lançada no território pela invasão. É difícil colocar em palavras. Porque a beleza da voz de Xanana não se descreve, ecoa dentro do peito e sabe-se dela só assim: no efeito que surte, no rasto que deixa dissolvido às veias.
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Eu estava no aeroporto militar de Figo Maduro, naquela noite ventosa e fria de 2000, aguardando o embarque de Xanana no avião que o levaria de Lisboa a Díli, após uma imperiosa escala de alguns dias em Camberra. Transpostos os largos portões de rede e aço, e a área de jurisdição, a polícia rendeu nas mãos do exército a autoridade sobre a operação de alta segurança montada para receber o Comandante, nas menos de 24h de permanência em território nacional. As formalidades de procedimento e protocolo distrairam as entidades competentes e a vigilância abrandou por instantes. Subitamente, todos ficámos mais perto de Xanana, ou Xanana mais próximo de nós. Andava devagarinho de um lado para o outro, de quando em vez olhando a pista adiante, aspirando o ar como se quisesse perceber na noite uma direcção mais certa ao vento que vinha entrando, soprado de Norte.
Num desses entretantos do seu vaguear, quase esbarrámos o ombro. Eu sobressaltei-me, ele não. «Tenho ouvido dizer que dizem que sou muitas coisas, mas um fantasma garanto que não», disse-me amável, quase cortês. Acho que não respondi, acho que nem sequer lhe sorri. Pelo menos não me lembro de nada. Mas recordo-me de ter pensado que ele estava em vantagem. Eu, por exemplo, nunca tinha dormido ao relento, não tinha os sentidos alerta, nem experiência de tocaias ou de me guiar no breu, como também nunca tinha vivido no meio da mata ou da floresta. Como eu disse, lembro-me de ter pensado, mas não me lembro de lhe ter dito nada disto. Ainda assim, como se não fosse preciso e lhe bastasse poder-me ler o pensamento, respondeu: «A Floresta ensina a deixar os fantasmas para trás. Quando deixar os fantasmas descansados no seu lugar, não volta a estremecer».
Isso disse-me ele numa época em que eu ainda não tinha nenhum fantasma e, se calhar por isso, não lhe dei mais crédito do que o do inevitável interpelo existentes nas metáforas bem cifradas. Quando passei a ter, esforcei-me por repescar a frase e escarafunhá-la com minúcia cirúrgico-hermenêutica, não fosse dar-se o caso de estar ali algum ensinamento de incalculável valor. Anos mais tarde, também eu fui parar à floresta e aí, sim. Aí creio ter, enfim, começado a aflorar o que quer que fosse que estivesse a tentar dizer.
Ontem, no documentário de Grace Phan, chamou-me a atenção Xanana ter regressado à ideia, lançada à friagem naquela noite rente ao começo do novo milénio, no aeroporto militar de Figo Maduro, e insistido, uma vez mais, na mesma imagem de florestas dissipadoras de fantasmas ‘extraporâneos’.
De uma forma mais sistematizada voltou a defender que a vida nos morre e acaba antes da hora, se persistirmos em nos tornar guardiões dos nossos próprios fantasmas. Nunca mais voltamos a estar a sós com nós mesmos e, como é de lei, se não o conseguimos, nunca mais temos nenhum instante de paz. Ora, como também é sabido, sem paz não há tranquilidade e, sem tranquilidade, não é possível ser ou pensar nada que valha a pena. Pelo menos nada com um alcance mais além de nós próprios e do nosso umbigo. Porque enquanto o referente ou determinante for outro que não simplesmente nós próprios – a saber, o dos fantasmas que nos povoam e em absoluto nos dominam e preenchem – é a nossa própria capacidade de abertura ao mundo e aos seus estímulos que fica posta em causa. Assim sendo, é de valor diminuto qualquer que seja a acção a que nos conduz. Por não ser, essa acção, resultado da nossa auto-determinação. Por ela, a acção, não ser livre. Em último caso, por ser ela uma reacção e nem sequer, exactamente, uma acção propriamente dita.
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Mais adiante, no documentário, Xanana fala sobre o instante da morte do primeiro homem que lhe morreu na guerrilha que liderou. O primeiro dos muitos que viriam a morrer-lhe depois. Fala da desorientação, das dúvidas, da incerteza que o tomou nessa hora, e conta como as suas lágrimas e a sua dor perturbou os seus homens. Conta, Xanana, do medo atroz que os tomou diante da visão de um chefe em pranto. “Não podemos ter um líder que chora os que morreram e se esquece dos que estão vivos“, ter-lhe-ão dito. Xanana confessa para as câmaras de Grace Phan que desde esse dia deixou de chorar os homens que perdeu, para não ficar “ensombrado pelos seus fantasmas” e por saber ser essa a única forma ao seu alcance para cuidar de proteger todos os outros que ainda tinha vivos e do seu lado. Explica o comandante que, de alguma forma, cada um dos que o deixaram cumpriram a sua missão ao seu lado. Deixá-los ir era a única forma de permanecer fiel ao que em tempos os uniu. Só nesse sentido poderiam continuar a viver nele, Xanana. Mais adiante, o documentário mostra uma das frequentes visitas que o Comandante faz às viúvas dos seus homens, como mostra também o seu encontro com a mãe de um dos seus guerreiros mortos. Sobre a mulher que chora, passa Xanana um braço por cima do ombro, enquanto diz: “O teu filho vive em mim. Agora o teu filho sou eu.“
Muitas coisas se poderiam dizer, é um facto. Mas das muitas que poderiam ser opinadas, importa não perder o foco das que vêm de quem já esteve num cenário de guerra ou conviveu de perto com os seus imbricados entornos. Porque a passagem é tão forte e perturbadora que só quem sabe do que se está aqui a falar se pode com propriedade pronunciar a respeito, independentemente daquilo que vier a comentar.
E é por isso que, por cru ou hipócrita que se arrisque parecer, após o trecho das imagens em que Xanana ampara um grupo de viúvas que foram junto a ele prantear os seus mortos, na necessidade extrema de confirmar se acaso ainda os recorda, Xanana confessa às câmaras que a única coisa que tem para confortá-las é dizer-lhes que sim, que ainda se lembra de cada um e que a liberdade agora conquistada se deve ao sacrifício feito por eles em nome de uma causa maior. Acrescenta o Comandante: “na maioria das vezes nem é preciso dizer-lhes nada: elas sabem“. Sabem, mas precisam que ele lhes diga, ele o homem que não pode chorar fantasmas porque tem que continuar a cuidar das suas viúvas, agora que ficaram sós e não lhes resta mais ninguém que olhe por elas. Ninguém a não ser Xanana, o homem que ainda ouve fantasmas ao longe, a chamar o seu nome, “especialmente durante a noite“, mas que não olha para trás e, portanto, não os vê. Nem sequer na lua cheia.
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Ontem, estava a ver as imagens e a experimentar esses mistos contraditórios do espírito e da emoção que têm sempre o condão de nos deixar mais despertos e reflexivos. E foi aí que me lembrei de um ou outro fantasma que, a certa altura, também eu acabei por ter e que, no compromisso máximo com a vida, deixar para trás. Não são muitos, que eu não sou o Xanana e não comando povos, exércitos ou nações. É um ou outro, mas o suficiente para acreditar que hoje compreendo melhor sobre o que falava em Figo Maduro, naquela noite distante, alguns anos atrás. Mas como não lhes conheço viúva e não os posso chorar, limito-me a enviar-lhes uma qualquer mensagem telepática, à laia do Comandante. Onde quer que estejam, que perdoem por favor, mas foi preciso passá-los adiante. Consentir que continuassem a assaltar-me, “ensombrava-me” o bastante para me esquecer dos vivos que continuam ao meu lado.
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Nesse lusco-fusco, em que pela primeira vez estive perto de Xanana Gusmão, vieram depois informá-lo que aguardavam tão só autorização para descolar. Pensei na imprudência de atrasar assim, tão sem motivo e por mera burocracia, um Comandante que tinha à sua espera uma nação (“a mais jovem nação do Mundo“, aliás), com tanto à espera de ser feito.
Vi Xanana acender um cigarro, ajeitar a gola e ficar de perfil, a pensar sabe-se lá em quê, observando a luz amarelada derramada pelos holofotes sobre a pista, onde um avião esperava de asas abertas. Um por um, revi mentalmente o rosto dos líderes do meu País e, por momentos, senti uma inveja irreprimível dos Maubere.
Eu não sabia nada daquele homem que por 24 anos se embrenhara na Floresta, teimando em tétum e português, e que até durante os sete anos de captura (e sob torturas múltiplas) se recusara a pronunciar uma só sílaba na língua do invasor. Eu não sabia e, na verdade, muito poucos sabiam. Pelos menos os que nunca tinham vivido na Ilha do Crocodilo, e que éramos quase todos nós, os que se abalançavam a escrever e falar sobre o Lado Onde Nasce o Sol, por pressentirmos a urgência de romper o silêncio indiferente do Mundo. Escrevíamos e falávamos sem saber grande coisa deste homem, metade da vida oculto de nós pela mata, depois pelo arame farpado da Indonésia, e agora pela simples geografia de mares e continentes, que o levavam de regresso à metade antípoda da nossa. No momento em que lhe tínhamos podido, enfim, testemunhar o rosto tisnado, ele ia embora, tão breve como nos chegara, sem que muito mais tivessemos oportunidade de saber dele. Partia envolto na mesma bruma que, durante todo o ano, se diz que cobre o cume da cordilheira onde montou quartel pela liberdade. Por essa altura, falava-se muito dos tempos à frente e a escrita guinara no rumo do futuro e das adivinhações que não resistimos a deitar-lhe em avanço. Alguns haviam já começado, aliás, a confabular sobre a destreza do Comandante para congregar na ágora timorense as diferentes vozes dos líderes das muitas tribos que formavam Timor, longe da mata e da montanha, que por décadas todos tiveram por única guarida, depois da guerra que, como se sabe, tem essa vantagem unificadora de oferecer a todos um e só um objectivo em comum: o de a vencer.

Não sei se os outros, os que igualmente tinham por missão falar, escrever e relatar sobre Timor, se sentiram mais ou menos esclarecidos a respeito do homem que chegou e partiu orlado em mito. Por mim, sei dizer que não foram precisas nem muitas horas, nem muita prosa, para constatar que existe qualquer coisa que emana de Xanana e faz fortíssima a sua presença. Forte o bastante para me ter feito invejar os Maubere. Forte o bastante para – ainda hoje, como na época – seguir (muito sinceramente) crente de poder Timor Lorosae continuar a contar com ele nas ruas, como com ele contou nas entranhas da floresta. Na época, como agora, alguma coisa me devolveu uma firme certeza de ir Xanana ser precioso ao Povo Maubere e aos sopés do Lado Onde Nasce o Sol, como lhes foi a ambos nos cumes da cordilheira de Ramelau. Ainda que (seja!) para sempre envolto e feito da mesma misteriosa bruma.
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* Fotos retiradas do documentário “Where The Sun Rises“, de Grace Phan (Setembro de 2007)
Hoje cedo pararam-me na rua e, no contexto de um trabalho graduado sobre a cultura popular portuguesa, pediram-me que evocasse alguns ditados tradicionais e referisse um contexto e destinatário a que pudessem adequar-se. O primeiro que me ocorreu foi o célebre “mais vale um pássaro na mão do que dois a voar”. Dediquei-o aos cobardes. É certo que tinha acordado à pouco tempo, que ainda nem sequer tomara café e que o meu cérebro só muito timidamente dava mostras de se dispor a começar a funcionar… Mas pareceu-me apropriado. As moças eram holandesas e estavam a desenvolver um programa no âmbito do projecto do Erasmus, que as trouxe a terras ‘alfacinhas’ por convénio com uma universidade local. Pediram-me novo provérbio. E outro e outro ainda. Daí, seguindo para bingo, lá fui chutando mais alguns: “dá Deus nozes a quem não tem dentes”, “quem tudo quer, tudo perde”, “casa roubada, trancas à porta”, “quem espera, desespera”, “em terra de cegos, quem tem um olho é rei”, “faz o que eu digo, não faças o que eu faço”, “diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”, “a galinha da vizinha é sempre melhor do que a minha”, “ter mais olhos do que barriga”, “pela boca morre o peixe”, “quem dá e torna a tirar, ao Inferno vai parar”, “tudo o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita”, “não há bem que não se acabe, nem mal que para sempre dure”, “olhos que não vêem, coração que não sente”, “quem com ferro mata, com ferro morre”, “quem ri por último, ri melhor”, “quem tem unhas é que toca guitarra”…
Com o exercício longe do final e a garganta seca sob a esturra de sol, em plena calçada, pedi licença e dei por finda a boa vontade e a colaboração. Enquanto esperava para atravessar a rua, entrar no café em frente e comprar uma garrafa de água, dei comigo a pensar que, bem vistas as coisas, a participação talvez me tenha saído viciada, sem querer. É que, vistos agora daqui, da distância consequente ao brainstorming, todos os provérbios que me vieram à cabeça me parecem poder ter um mesmo destinatário e denominador comum. É possível que seja só impressão minha, a somar a este defeito académico de profissão e à minha excessiva obsessão de não viciar dados à investigação. Mas, em bom rigor e bem alinhavados entre si, fiquei com a leve sensação de que todos estes provérbios configuram um desenho que me é familiar… não sei porquê, mas o esboço resultante lembra-me por demais alguém que conheço…

Agora à pouco, regressando a casa ainda madrugada-baixa, olhei a língua generosa de Tejo que se abre lá ao fundo, entre as duas margens da calçada íngreme, e fiquei paralisada com o espectáculo desse luarzão magestoso que tomou conta de toda a superfície do rio e o transformou num espelho reluzente de prata cintilante. Estava lindo por demais, o quadro: a lua, o luar, a noite, a cidade de Lisboa, o rio Tejo… Estava tão lindo que foi com dificuldade que me arranquei do passeio e do efeito hipnotizante de tal ‘mirada adelante’, busquei a chave de casa na bolsa, rodei a fechadura e enfim entrei.
E vim subindo a escada com cheiro de cera de abelha, a pensar na sorte que tenho de precisar de tão pouco para encher os pulmões e o coração, a pensar em todas aquelas pessoas insatisfeitas com a vida e os dias e noites que têm (ou não conseguem ter), a pensar que gostava de saber o nome ‘Daquele’ a quem tenho que agradecer por ser tão, mas tão diferente delas e entrar em casa com a certeza de que a vida me sobra e basta. Por tão plena. Por tão bela. Por tão irrepetível, simples e feliz.
Obrigado, seja a Quem fôr, tenha o nome que tiver, pelas ideias tão ‘desenroladas’ dentro da minha cabeça!!

A intenção não é a cifra. A intenção é só a de me lembrar a mim mesma sobre algo a propósito do qual pretendo lhes escrever logo, logo. Assim que as partidas de futebol marcadas para hoje terminarem e eu puder dar a minha tarefa por cumprida e fechar o dia para os assuntos da civilizada urbe branca.
Nos entretantos, trato de encarar essa imperiosidade dolorosa: calçar qualquer coisa e tomar lentamente o caminho de outras roças, que é para ver se com calma e devagarinho a vontade se ajeita e me aparece.
Eh!… Não está fácil encontrar entusiasmo que me leve para aquele ambiente crispado e tenso, onde um certo polén de loucos parece ter baixado no ar e tomado um por um de feição. Anda tudo muito agitado e todos parecem ter ensandecido por um motivo diferente. Por mais respeitosas as razões que cada qual seguramente teria para apresentar, o certo é que me vai faltando progressivamente a paciência para tanta agressividade esgrimida em redor, para tanta sede de quesílias buscando escape. Todo mundo se morde, belisca, assanha, arranha, engasga e engole à toa. E eu reconheço-me cada vez menos nesse inferno ateado em lume brando, que cospe brasas explosivas em todas as direcções 24 horas por dia, sem dar arrêgo, nem mostrar nenhum cansaço. Eta, turminha de gengiva alçada e dente aguçado!… Devo confessar que, no momento, qualquer semelhança entre mim e o estado de espírito reinante no colectivo é pura ficção. Vai ver que, muito provavelmente, é por isso que, por mais que me esforce não me consigo identificar nem reconhecer em nada do que aqui existe.
Bom, vamos lá, então!… Tratando, portanto, de calçar qualquer coisa. Não é grande coisa, mas já é um começo para eu me arrastar e animar ao caminho. Está a fazer-se tarde e eu ainda preciso de encontrar disposição algures, até lá chegar. Não tarda perco a hora e não só não é bonito, como não será nada bem visto. E acontece que não é sensato atiçar beiçolas que já aguardam devidamente afiadas e prontas para filar a gente, certo?!
* Foto do Jorge Diehl
Experimento não raras vezes, por aqui, um gosto bastante amargo por esta coisa de ter o Brasil também como pátria-mãe. Portugal não gosta e condena-me frequentemente por isso, como se de uma espécie de imperdoável traição se tratasse. Por várias vezes atribuí o facto à inversão do sentimento de Portugal perante este país e as suas gentes, ocorrida a partir da última década. Da percepção do Brasil como “país-irmão” passou-se à sua percepção como “país invasor”, tendo-se esta crispação dos portugueses acentuado em consequência do aumento disparado do fluxo de emigração e do crescimento sem precedentes da comunidade brasileira residente em Portugal.
Hoje, porém, em plena Alfama, bairro típico e secular da cidade, indo já na 2ª noite de Santos Populares festejados pelas ruas, escutando uma marcha tradicional que me lembro de ouvir cantar desde que me lembro de mim, faz-se-me outra luz. Percebo que a razão pela qual Portugal se irrita tanto comigo talvez seja anterior a esta mutação histórico-social, talvez venha de longe e chegue mesmo a ser congénita à nação: Portugal é ciumento inveterado. Na realidade, suporta mal que os seus se apaixonem por terras e gentes outras. E se não dá imediatamente nas vistas é porque disfarça bem e tem por hábito avisar os incautos a cantar (click para ouvir):
Não namores os franceses
Menina, Lisboa,
Portugal é meigo às vezes
Mas certas coisas não perdoa







