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Tirei, enfim, oito dias de férias, a contar de hoje. Serão efectivamente, como eu disse, férias. Em todos os sentidos, pelo que a começar agora ocorrerá um apagão geral que vale para tudo: celular, e-mail, internet, tudinho. O dia nem mal começou e, mesmo sabendo-me de férias, enquanto termino de fechar a casa, o telefone já tocou meia dúzia de vezes do emprego. E isso é só um exemplo. Não tenho nada contra ‘workaholics’, mas pergunto-me cada vez com maior frequência se conseguirão perceber que do mesmo jeito que lhes assiste a liberdade de nunca desligarem, nem procederem a um corte com a rotina, não tendo que ser nem julgados, nem criticados por isso, se pressupõe que respeitem igualmente as opções dos outros de exigir que férias lhes sejam permitidas ao menos durante as férias. Olho a sociedade em redor e arrepia-me o alarde dos sintomas de uma certa demência. Quanta fobia, quanta ansiedade, quanta precipitação! Tudo muito bem encapotado sob o argumento da competência, da responsabilidade e do profissionalismo rigoroso, o tal que não deixa para amanhã e quer à viva força ver feito hoje. Pois eu sinto muito, mas não embarco nessa. Penso em Nietzsche e na pertinente metáfora dos rebanhos e manadas, todos alinhados e perfilados, dispostos a seguir de acordo com a enxurrada e a corrente mais engrossada. Pouco me importa que, hoje em dia, esse frenesim “profissionalíssimo” seja prática comum e cada vez mais em voga. Nunca me resultou óbvio que a maioria fosse condição indefectível para conferir razão e sentido às coisas. E depois que toda a gente viva escrava do celular, que o transporte como uma prótese vital do banheiro para a cama, da mesa para o carro, do carro para o avião e para um mergulho na praia? Não é por causa disso que são profissionais mais zelosos e empenhados, nem é isso que os torna mais irrepreensíveis que os restantes. Nada contra quem prefere viver nesse sobressalto permanente, mesmo quando não se justifica. Somente não esperem que eu partilhe desse vício, ok?!

Portanto, para onde eu vou, seguramente que não haverá qualquer espaço ou concessão a esses disruptores do equilíbrio mental e funcional do indivíduo e que só servem para nos restringirem a liberdade, para nos controlarem os passos, os tempos e a mente. Ainda que há distância. Ainda que de férias.

Celulares, telefones, PDA e internet ficam de fora. Nos próximos dias, como eu avisei, o apagão será geral, intensional, desejado e convictamente assumido. Se a opção causar algumas azias: lamentamos, temos pena, mas é assim: férias são férias.

Até daqui a oito dias, então!

Muitas as andanças, as terras, as gentes e as mil coisas para ver e experienciar. Tempos extenuantes e cansativos, têm-me dito. Tempos ricos, eu diria, onde todos os fiapos de acontecidos ao fundo vão começando a fazer sentido, a ganhar encaixe, nexo, explicação e razão de ser. Até mesmo alguns pesares, algumas perdas, despedidas e fracassos. À certeza, ainda que por vezes dolorosa, de que preciso deveria ser que fosse assim e não de outro modo, soma-se enfim e aos poucos uma percepção mais nítida do porquê de haver que ser assim e não de outra maneira, qualquer que ela fosse. Em parte, é esta vocação nómada desde sempre pressentida que se vai subtraindo, mais madura e convicta, às ocasionais distracções, aos desvios momentâneos que lhe traziam o perfil esboroado. Por muito que por vezes custe compreender, por mais que se resista e não se queira admitir, por mais até que se lute por o combater, caminheiros e viajantes não podem ter o passo preso a nada que os amarre, por maior, melhor e mais importante que pareça e seja. Por muito até que de alma e coração o queiram. Têm que estar livres, incondicionalmente e sem reservas, interditos ou restrições a que seguir possam o seu curso natural. Ou de que outra forma se poderiam eles misturar aos lugares e às gentes?! Não é fácil. Não é simples. Muitas vezes chega-se a crer que se daria a vida para ser de outro modo, que se pagaria qualquer preço de bom grado para não ter que ser assim. Mas não se pode impedir nem evitar por muito tempo que a natureza se revele e fale mais alto. Caminheiros e viajantes não podem privar-se de cumprir o seu rumo. Jamais.

Porque caminheiros não são caixeiros viajantes, que podem ter uma coisa aqui, outra acolá, uma vida em cada porto, um porto em cada terra, uma coisa hoje, outra amanhã, uma à noite, outra ao amanhecer. Basta-lhe escolher. Porque apesar de lhes assistir a escolha e a escolha poder ser conforme à vontade que lhes dá, uma coisa é certa: têm sempre tudo pela metade. E é só por isso que lhes é consentido serem assim. Porque para metade basta. Para metade da vida, basta metade da alma e do coração. Nunca é forçoso que venham e tenham que se dar por inteiro. Seria na verdade um excesso tão incompreensível quanto despropositado. Pelo contrário, aos caminhantes, aos que aspiram cingir todas as coisas na sua mais extrema e completa dimensão, é-lhes exigido que cheguem pelo menos plenos e inteiros, totalmente disponíveis, e – já se sabe – ninguém é ou consegue ser absolutamente íntegro pela metade.

Portanto, muitas as andanças, as terras, as gentes e as mil coisas para ver e experienciar, nas últimas largas e bem medidas semanas. Mas apenas e só porque acontecidos aconteceram que permitiram a natureza revelar-se de acordo com o seu fundo mais próprio e verdadeiro. E acontece que às vezes perdas são necessárias para se descobrir que o caminho não poderia ser senão o que não conhece prisão em nada, nem a coisa nenhuma. O caminho não poderia nunca ser outro senão o que serve aos caminhantes por condição. E esse exige disponiblidade plena, íntegra e inteira. Metade nunca lhe bastaria, é um facto. Para nada. Nem andanças, nem coisas, nem terras e muito menos para gentes. E é por isso e só por isso que, uma vez chegados nesse ponto exacto da trilha, resulta claro (tão claro!) porque razão perdas se agradecem, afinal. Porque razão perdas também são dádivas a merecer graças.

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Daqui a pouco, assim que terminar um merecidíssimo café sem grandes pressas e vencer a preguiça de fazer as malas e arrumar as coisas, estarei novamente ganhando a estrada. Incontáveis as viagens, nos últimos dois meses e, pelo menos, nos dois próximos que se seguem. Não é uma queixa, que andar solta por aí é a melhor benção da vida que eu escolhi. Também não é um aviso, que os viajantes têm por hábito sinalizar presenças, mas não o costume de rastrear rumos. Portanto, aos que estarão me aguardando por lá: estou chegando já, já! Me aguardem, por favor. Aos que ficam onde os sei: darei notícias sempre que puder. Àqueles que nunca sei muito ao certo por onde param ou se movem, que se mantenham vivos e aproveitem a estrada para ser pelo menos tão felizes quanto eu. Quem sabe a gente se encontra algum outro dia em algum outro lugar. Ou não. Que o melhor de andar solto na estrada é nunca saber, em verdade, onde ela vai nos levar: se para mais perto, se para mais longe de onde vamos.

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Agora para Você: partidas coincidentes sempre são um bom presságio, mesmo você ganhando o aeroporto e de regresso ao Brasil: “E o pior é saber que a gente ainda vai se encontrar“, não é assim?! :) E para Você também, que segue o rumo oposto ao do ano anterior, por essa época, e se prepara para um palco onde, dessa vez, não poderei estar a dividir gémeas penumbras: há, sim, pessoas que se pressentem e, no final, as histórias pressentidas resultam tão ou mais reais que as histórias sentidas, acredite. E ainda para Você (claro, sempre!), que aproveita cada aberta no mato para correr a erguer a ‘casa grande’: siga, sim, plantando essa horta especialíssima dentro das canoas de madeira que repousam no jardim, que tá chegando a hora da janta e a fome é caprichosa: precisos se farão, portanto, todos os temperos exóticos que lhe conseguirem engendrar suas feiticeiras mãos dadivosas.

(…) E perguntava Caetano cantando, desesperado sem saber por onde ela ia, onde está você agora? E ficou sentado no mesmo lugar, à espera sabendo, por certo, que um dia, de tanto caminhar, ela teria de voltar àquele mesmo lugar. Valeu-lhe o mundo. Por ser redondo.

Ass: Maria H.M.
(escrito a 14.Julho.2008)

Escreve bem, a Maria. Escreve tão bem. Mesmo às voltas com as mudanças da casa. Enquanto se instala. Mesmo quando tudo é novo e são tantas as aprendizagens que os novos projectos pedem.

Caminhava pela rua com a minha filha de 4 anos, quando ela apanhou qualquer coisa do chão que ia pôr na boca. Ralhei e disse-lhe para nunca fazer isso .
-Mas porquê ? – perguntou ela.
Respondi que se estava no chão, estava sujo e cheio de micróbios. Nesse momento, a minha filha olhou-me com admiração e perguntou:
- Mamã, como sabes tudo isso? És tão inteligente …
Rapidamente refleti, e respondi-lhe:
- Todas as mamãs sabem estas coisas. Quando alguém quer ser mamã, tem que fazer um teste e tem que saber todas estas coisas, senão não pode ser mamã.
Caminhámos em silêncio cerca de 2, 3 minutos. Vi que ela pensava ainda sobre o assunto, e de repente disse:
- Ah, já percebi . Se não passasses o teste, tu eras o papá.
Exactamente, respondi com um grande sorriso na boca.

Ass: Filipa
(recebido 14.Julho.2008)

… E eu leio, também com “um grande sorriso na boca“, enquanto me ocorre que é por essas e por outras que ninguém me convence que a casta das amazonas se tenha verdadeiramente extinto lá nos cafundós do fundo das Eras.

A lua girou, girou
Traçou no céu um compasso
A lua girou, girou
Traçou no céu um compasso

Eu bem queria fazer um travesseiro dos seus braços
Eu bem queria fazer…

Travesseiro dos meus braços
Só não faz se quiser
Um travesseiro dos meus braços

Só não faz se não quiser…
Sustenta a palavra de homem
Que eu mantenho a de mulher
Sustenta a palavra de homem…

A lua girou, girou
Traçou no céu um compasso
A lua girou, girou
Traçou no céu um compasso

Eu bem queria fazer um travesseiro dos seus braços
Eu bem queria fazer…

Milton Nascimento – “Lua Girou

Talvez porque esta noite me sinto tomada de uma felicidade inabalável e a salvo, apetece-me partilhar uma pérola rara que guardo, há muitos anos, fervorosamente em segredo e que nunca até hoje predispus à partilha fosse de quem fosse. A primeira vez que a ouvi, foi cantada ao vivo por Ney Matogrosso, no Coliseu de Lisboa, quando ele veio vestido de palitó branco, com o show “Pescador de Pérolas“, um show por sinal recheado de escolhas e canções de inominável beleza, a caberem inteiramente no nome dado ao álbum que serviu de escora à digressão. Foi, portanto ali, na bancada da geral, que primeiro me recordo de ter escutado esta canção, na época eu era pré-adolescente, estudava e não ganhava dinheiro, mas insistia ainda assim em ver espectáculos todos os dias e não podia abusar mais da generosidade dos pais. Todos os instrumentos se calaram e ficou só a voz aberta no breu da sala, com aquela coisa linda a sair pela garganta e a desenhar-se em espiral rumo à cúpula. Como uma oração, uma declaração de amor, uma súplica, uma confissão, não importa. Como qualquer coisa que, na época, de imediato me arrebatou ao âmago de tão singela e sem enfeites, de tão fina e delicada, de tão perfeita que qualquer suspiro parecia o suficiente para a desequilibrar e fazer sumir feito um sonho delirante de impossíveis sublimes. Soube nessa mesma hora, que se canções existem que pautam a banda sonora da existência de cada um, essa era uma das que para sempre acabava de se inscrever no alinhamento da minha partitura. Com o tempo fui apurando a reflexão e chegando depois a entendimentos mais refinados dessa intuitiva suspeita que desde criança me acompanhava. Tenho, aliás, para mim que a música e as suas canções, quando vêm e, sem pedir licença, se gravam sobre a nossa pele e a nossa alma, se infiltram no imaginário particularíssimo de cada um, esse pedaço que nos dá consistência e coerência, mesmo quando olhado de fora tudo parece contraditório, absurdo e sem razão que lhe confira sentido visível e pronunciável. Assim como tenho para mim que é nessa sinfonia, em que o imaginário de cada um se vai compondo, que se encontra a chave daquilo que nos dá unidade e nos torna inconfundíveis, bem como o mistério que dita e profundamente influencia os nossos rumos, preferências, escolhas e opções. Por outras palavras, a composição que laboriosamente vamos tecendo de nós próprios.

Pois muito bem, a ser assim, e se eu não estiver enganada, essa canção contém em si decisivos arquétipos que reconfiguraram o que, desde então, venho buscando e almejando. Por outras palavras, é chave para alguns aparentes enigmas meus, expressão cifrada do que me descodifica, e onde muito provavelmente entroncam as imagens de colo, travesseiro, círculo, fecho e braços, como metáforas explícitas desse repouso só possível dentro e ao alto da perfeição mais perfeita de todas.

Momento histórico, portanto, na reformulação dos meus egoísmos mais silenciosos e inconfessados: deixo a canção ao dispor de todos.
Considerem como a primeira oferenda ao meu primeiro sobrinho-rapaz que acaba de nascer. Dizem que “quando a lua vira, resolve” e nasce quem está para nascer. Gosto de pensar que o meu sobrinho nasceu porque “a lua girou, girou / traçou no céu um compasso” e, quando virou, provocou-lhe esse desejo maior de vir “fazer um travesseiro” nos nossos braços. Por mim, abro-lhe os meus, fecho-lhos num círculo que o embale e ampare e, na ausência de um anjo que possa fazer-lhe de arauto à chegada, canto-lhe uma das canções mais belas que me lembro de trazer guardada.

Para ouvir cantada por Ney Matogrosso, tal qual a ouvi pela primeira vez: só na voz – aqui. Ou na versão cantada por Milton Nascimento, que descobri mais tarde: para ouvir aqui.

A FLIP de Paraty ainda mal terminou e, sem saber como, estamos já mergulhados no frenesim muito louco dos mil e um festivais de Verão, dentro e fora de Portugal, cada um com sua temática, mas todos alvoraçando os dias e inaugurando aquele velho corre-corre desenfreado que já não é novidade nenhuma para os veteranos nestas andanças. Pontualmente, já aconteceram uns quantos. A diferença é que, a partir de agora, passam a suceder-se sem intervalo, uns a seguir aos outros, quando não uns sobrepostos aos outros.

Não obstante a violência da coisa e do seu ritmo, eu gosto desta época, sim. Porque além de inaugurar uma temporada de trabalho na estrada e ao ar livre (sempre bem vinda para quem como eu sofre de fobia de clausura crónica, depois de tanto tempo a viver no mato e debaixo do céu, que deixaram um bichinho que nunca mais há-de morrer), tem a virtude de nos juntar outra vez a todos. São dias de muita cumplicidade e convívio com pessoas que o quotidiano e as agendas obrigam a espaçar contacto. Nessas temporadas de festivais voltamos a estar reunidos como uma grande família, díspar e bizarra, mas onde cada um tem a sua parte, contribui com o seu carisma, traz as suas peculiaridades e colabora como elemento indissociável da mesma tribo. E depois, durante essa temporada, apesar de desgastante e muito cansativa, a profissão despe-se em absoluto das burocracias e fica só a parte boa. Corremos cidades e lugares, falamos com as gentes, experimentamos as suas comidas, os seus hábitos e tradições, ficamos mais próximos da vida, que é o único lugar onde as histórias a merecer serem contadas existem verdadeiramente e são genuínas. Essa é temporada onde os dias se enchem de artistas e sensibilidades outras, e onde a arte e as suas mais diversas manifestação se torna centro dominante de tudo. Até dos nossos passos e horários. Até dos nossos sonhos, sejam eles sonhados acordados ou a dormir. É o tempo dos imprevistos, dos imponderados, dos sobressaltos, também. E eu gosto disso. Aumenta a acuidade do raciocínio, espicaça intuição, instinto e destrezas e obriga os sentidos a estar permanentemente alerta e despertos. Ao contrário da rotina e dos procedimentos mecanizados, nesta época tudo chega com o sabor da novidade e da diferença, num abuso de sensações, numa cascata de coisas para ver, sentir e entender, que estimulam a escrita e todas aquelas outras bençãos que trazemos adormecidas. É tempo de trocar ideias e pontos de vista. As confabulações e confabulados estão por todo o lado e tudo brota energia crítica e pensante. De certa forma, essa é a temporada em que, de uma forma ou de outra, reconhecemos nos olhares que trocamos entre nós, a mesma suspeita partilhada (sim!) de que podemos fazer a diferença e de que alguma coisa muda no mundo por nossas mãos. E depois eu gosto daquele agito de máquinas fotográficas, objectivas, câmaras, baterias, micros, cassetes, cabos, gravadores, e eu sei lá mais o quê. Gosto daquela parafernália toda, de nos tornarmos menos preocupados e mais confortáveis, mesmo alucinando de calor sob o sol ou tremendo de frio quando a noite chega e a madrugada se alarga. Gosto de nós cobertos de pó e desgrenhados, dos óculos de sol, dos relógios desportivos, dos ténis e das botas, dos blusões e das camisetas que vêm sempre de algum lugar ou evento muito especial por onde passámos e estivemos presentes. Gosto desta fraterna promiscuidade de partilharmos tudo e perdermos a cor e a filial, de não sermos mais de nenhuma marca, empresa ou instituição, a não ser aquela que pede a todos que dêem o seu melhor, superem os imprevistos e coloquem cá fora o seu melhor trabalho. Porque para nós, a velha tribo que há anos se cruza em trabalho, se conhece e é destacada para os mesmos lugares, a única coisa que interessa é conseguir fazer o melhor e não exactamente os imperativos da concorrência ou os pressupostos estabelecidos por cada orgânica interna a que cada um se encontra ligado. É uma época fértil de criatividade e resultados, com todo o mundo a mostrar para todo o mundo, com ideias e sugestões, com opiniões e críticas trocadas abertamente, tendo por exclusiva finalidade entender onde e como é possível ir mais longe, fazer mais e melhorar.

Acredito que essa realidade não extravaze para o exterior e não passe. Sei bem, aliás, que só aqueles de nós que lá estão e fazem parte dessa grande família sabem dela. É por isso muito difícil explicar aos que não têm acesso, nem possibilidade de viver o mesmo que nós. E é também por isso que hoje em dia já não me impaciento ante todos os que, por absoluta ignorância acerca daquilo sobre o qual se pronunciam e emitem opinião, insistem em reduzir essa temporada a uma diversão colectiva, quase obscena de tão desbargada inconsequência e liberdade, quando comparada com os seus dias ‘nine-to-five’, presos a uma cadeira, entre quatro paredes. Pudessem eles saber de como é e de como tudo se passa e ao tanto que obriga!… Em parte é exactamente essa a razão de sermos uma grande família que se conhece de longa data e partilha cumplicidades tão fortes. Porque todos os anos aparecem no terreno algumas caras novas, a maioria delas por destacamento e sem direito a opção, outras movidas pela desconfiança de ser porta aberta para uns quantos momentos bem passados e outras tantas regalias e privilégios apetecíveis de abusar. Acontece que se contam pelos dedos as que sobrevivem e dão as caras na etapa seguinte. Quando se apercebem das milhas palmilhadas por dia, da correria constante, sem tempo para comer e ir no banheiro, o peso dos materiais, o cansaço, o sol, o frio, as longas horas de trabalho a que depois sobram magras outras de sono ou descanso, o ritmo puxado, sem brechas nem folgas, a pressão, a necessidade de refazer planos, inverter agulha, recriar, reinventar, de se preciso for ter que reformular no minuto, de uma hora para a outra, do dia para a noite, sem trapézio, nem rede… nunca mais se oferecem para enfrentar o mesmo ‘calvário’ que para nós é tão doce e estimulante. Ás primeiras queixas, exigências, indignações e lamúrias logo sabemos que não é da tribo e que o mais provável é que não voltemos a vê-lo nas mesmas paragens que nós, no ano seguinte. Porque como ontem de madrugada alguém dizia, «é preciso gostar-se muito disto».

E como eu gosto mesmo muito disto, com toda a vossa licença e já pedindo mil desculpas, vou abreviar o papo de hoje, preparar um cocktail molotov de ben-u-ron’s para domar a constipação e baixar a febre no máximo até às 17h, beber um chá de mel e limão para limpar da voz da rouquidão que o frio da madrugada e a humidade à beira-rio deixaram, cair no duche e sair a voar para o 3º dia desses 5 de festival, que a tribo pode andar a trabalhar em liberdade, mas é extremamente profissional e não está acostumada a perder o horário!…

Ass: eu

Seus filhos não são seus.
Eles são os filhos e filhas do desejo da Vida por si mesma.
Eles vêm através de você mas não de você
e, embora possam lhe haver sido entregues, não lhe pertencem.
Você pode lhes dar seu amor, mas não seus pensamentos,
Pois eles têm os seus próprios.
Você pode abrigar seus corpos, mas não suas almas,
Pois estas vivem na morada do amanhã, a qual você não pode visitar nem em sonhos.
Você pode lutar para tornar-se como eles, mas não tente transformá-los no que você é.
Pois a vida não anda para trás nem se prende ao passado.

Kahlil Gibran

A Mariana Pantoja anda pelo Acre desde 1991 e mora agora numa «colocaçãozinha urbana», como ela gosta de dizer. Se não tem ideia do que seja uma ‘colocaçãozinha’, recomendo o mesmo que a Mariana recomendaria: pergunte a um seringueiro. Ele há-de explicar. Quando tem que dar conta dos dias e da vida por lá, a Mariana costuma ser clara: «idéias e sensações têm aflorado nos últimos tempos», ela responde. E acontece que desses ‘afloramentos’, por vezes ela escolhe alguns para sinalizar. E acontece igualmente que eu escuto. Porque gosto de saber da película ínfima das sementes, que vem antes da raíz, do fruto, da flôr e dos fiapos.
Geralmente, reparando bem e com jeitinho, sempre ela é possível de decantar e remultiplicar num vaso. Mesmo quando se mora num burgo arredado das florestânicas colocações.

dalailama

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Uma noite, estava um velho índio contando ao seu neto sobre a guerra que acontece dentro das pessoas.

- A batalha é entre dois ‘lobos’ que vivem dentro de todos nós. Um é Mau. É raiva, inveja, ciúme, tristeza, desgosto, cobiça, arrogância, pena de si mesmo, culpa, ressentimento, inferioridade, mentiras, orgulho, falsidade, superioridade e ego. O outro é Bom. É alegria, paz, esperança, serenidade, humildade, bondade, benevolência, empatia, generosidade, verdade, compaixão e fé.

O neto pensou nessa luta, e perguntou ao avô:

- Avô, qual lobo vence?

O velho respondeu:

- Aquele que você alimenta…

Ontem, sentámos-nos na área de tendas, mesas e cadeiras montadas sobre aquele tapete arrelvado, propositadamente germinado para nos criar, na recepção, uma certa impressão de belo. Ali mesmo, na beira de uma desmilinguída língua do rio Trancão, que apesar de fétido, saturado dos resíduos de décadas e décadas de abusos e maus tratos, padecido de uma poluição crónica e sem remédio, insiste ainda assim em ser água e correr leito. Sentámos-nos, eu dizia, de frente para o pôr-do-sol sobre a boca do estuário, um pouco para lá dos pilares da ponte Vasco da Gama que abre em direcção à metade Sul do País, e ali ficámos, tomando cerveja gelada e jogando conversa fora, num círculo alargado a cada nova cadeira que ia se achegando. Ventava muito mas ninguém se agitou na demasia. Mosquitos indo e vindo, na picada incerta. Mais cerveja gelada. Mais vento, mais brisa. E o odor ocre das águas nauseabundas que serviam de entorno ao cenário. Ficámos sentados, degustando espetos de mozzarela de búfala e tomate cherry e aquela prosa boa de prosear, por ser igual ao aperitivo e não ter nenhuma ânsia de nos saciar enquanto nos íamos alimentando. Não me lembro nunca de ter estado num festival sem verdadeiramente ver ou participar do festival. Nunca, a não ser ontem. Porque, creio, cada um que ia se achegando, percebia de imediato que o verdadeiro acontecimento era aquele: o que estava acontecendo ali. Único e irrepetível, sem nenhuma dúvida, na próxima edição que, no ano que vem, mais ou menos por esta altura, há-de voltar a juntar-nos outra vez a todos no tapete arrelvado da área montada especialmente para o efeito, no Parque Tejo. Com vista para o poente, o baile envenenado dos mosquitos de picada pronta e o braço fétido do Trancão.

indiocolo

Eu hoje acordei assim, mansa e derretida. Rendida e conquistada. Desarmada, deslumbrada e em paz. Com o mundo a caber exacto e sem fricção no côncavo do meu colo. Com o mundo todo certo e sem arestas, aconchegado contra o peito.

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Desconfio cada vez mais dos que não se comovem. Alguma coisa muito grave deve ter-lhes acontecido algures, que lhes levou embora a metade que interessa do coração. E como, sem o coração inteiro, nada do que há para sentir se pode sentir senão pela metade, não é de espantar que não consigam comover-se como nós, que ainda conservamos o primitivo ‘músculo pulsante’ intacto. Pudera!… falta-lhes a única metade importante do coração.

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Serve igualmente a especialíssima ocasião para fazer saber a cada um de vocês, meus amigos, que o facto de terem feito questão de, de uma forma ou de outra, assinalar o dia e não permitirem que passasse em branco, ficou gravado a terno oiro no lugar onde vos tenho como relíquia rara.
Obrigada, muito e muito obrigada.

* Foto de A. Banavita

Se eu pudesse, erguia uma igrejinha azul em teu nome. Não precisava de ser muito grande, que o amor não se mede aos palmos e as obras dos humanos também não. Mas erguia-te um torreão, sim, onde os ponteiros marcassem sempre meio-dia. E dava às andorinhas o canto do teu primeiro choro e aos corvos uma pressa de asa igual à tua, que precipitaste a voz ao mundo antes dele te dar sinal e chegaste assim, a elevar a vontade acima das ordens e a acertar na hora certa em que planetas, astros, bissectrizes e luz solar se desenham num ângulo perfeito que nos dispensa às leis e às supérfulas matemáticas que inventamos por nos faltar a certeza e duvidarmos dos sentidos, como de todas as verdades primeiras. Só porque nos chegam como presságios e nos assustamos por demais. Como nos habituámos a fazer com tudo o que os olhos não vêem e só a pele da alma sente. Erguia, sim, uma igrejinha azul com um torreão onde os ponteiros marcassem sempre meio-dia, que é quando o dia explode com mais ganas e o pico da noite lhe corresponde num avesso exacto. Só para que quando o sol fosse a pique, em Julho, neste dia, mesmo que nenhuma de nós ainda por cá andasse, houvesse um sinal nosso sobre a face da terra e ninguém tivesse nunca mais que se perguntar, que inesperado milagre foi este que demos à luz a rir, como se o mundo fosse limpo. Juntas, como se nenhuma dor mais traiçoeira o manchasse. Mas pintava-a de azul, sim. Perdoa-me. Pintava-a a um azul suave como a água em dias de céu claro. Como vi nas margens do rio da minha vida, nessa margem distante da terra te dei por berço e aqui me há-de prender como um grilhão, uma âncora, um ferro, um espeto, sim. Como qualquer coisa que me dói e me magoa, sim. Enquanto tu fores viva e existires. Porque nenhum destino é maior que o ventre, nem nenhum outro instinto mais afiado que este que me escora a ti, minha gaiola doirada de portas abertas, que ao chegar me ofereceste a maior liberdade que se pode desejar em vida: a de saber que, por mais voltas que o mundo dê e mais descasos e desvarios que rodem à roda, nunca mais se há-de estar inteiramente só. Abençoada, eu. Por tua causa. Abençoada, tu. Por meu amor.

Parabéns, Minha Pequena Cria Crescida!

Ass: a mãe

(…) Pode ser perspineta, cheia de si e da sua vontade, meio mandona e nariz empinado. Pode ter demasiada coluna vertebral e pior flexibilidade nos músculos e tendões que ligam o génio à boca e ao perdão, ser tomada de um fôlego justiceiro e anti perdulário. Pode até precisar de uns quantos correctivos e lições da vida, para que toda essa segurança lhe estremeça o suficiente para lhe abrir os tímpanos a outra voz de comando que não só a dos seus neurónios, do seu coração, da sua independência e da sua liberdade. Mas muito francamente, olho para ela e sinto-me segura e confiante. Arrisco mesmo a dizer que tranquila com o resultado que se vê daqui, por quanto aquilo que somos ou os outros são seja visível a olho nu. Creio que tem, por conseguinte, todos os ingredientes necessários à fazedura de um muito excelente ser humano. Todos, sem faltar um. Na dose certa, para ser mais exacta. São, pois, fortes as probabilidades de não sair nem tão azeda como o pai, nem tão mel assim, como a mãe, e muito menos insonsa como os governos gostam, aplaudem e tanto se esforçam para que os nossos filhos saiam.

Ass: Eu
(enviado a 04.Julho.2008)

Nalgum lugar perdido
vou procurar sempre por ti…
Há sempre no escuro um brilho, um luar…
Nalgum lugar esquecido
eu vou esperar sempre por ti…

Mafalda Veiga

Porque as lágrimas cansam e tratam de nos fazer à vida, mais tarde ou mais cedo. Mesmo que se não queira. Porque o cansaço acaba sempre por ser maior do que a nossa teimosia mais rasgada. Mesmo quando se não pensa que possa alguma vez vir a ser. E hoje – por ser hoje – voltei a vir ficar um pouco aqui. E enquanto me demorei deixei-me outra vez – só um pouco – “por dentro dos desejos”, “por mil caminhos que são mastros” e por “atalhos pelos montes”. E, então, quando dei por mim e quis abrir os olhos, voltei a ver como eram muitas (tantas!), demasiadas, as pombas assassinadas. Tanta pomba assassinada! Tanta!…

Para ouvir aqui

O Aquecimento Global, segundo a Diesel:

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… E comenta o meu bom amigo ciber-garimpeiro, olho de lince, faro apurado, cérebro afiado:

Se este inverno tiver o padrão de 2 graus acima da temperatura média, como se diz por aí, de algum modo essa é uma das campanhas mais representativas de nosso “espírito” contemporâneo.

Ass: Catatau
(escrito a 19.Junho.2008)

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Quando pela primeira vez ficámos de frente, Cria Minha, fiz-te alguns votos, sim. Não muitos. Apenas os que no momento me assaltaram a franqueza. Depois dei-me por satisfeita, confesso, por acreditar que nesses que me subiram ao pensamento estariam seguramente os que te poderiam ser mais essenciais. Depois, roguei por dentro e em segredo para que Deus cuidasse de te fadar a alguma arte. Qualquer que ela fosse. Para que tivesses sempre contigo o único antídoto capaz de destilar os nódulos que, por essa altura, eu já sabia que a vida também tem. E como não me era de crer que te poupasse inteiramente a eles, por não ser seu hábito alisar o caminho de ninguém, supus que era o máximo que me restava fazer, tendo em conta que nem sempre estarei por perto, nem tudo poderei resolver e, seguramente, por maior e mais forte o amor irredutível que te devote, nem de tudo serei capaz de te suprimir ou proteger.

Assim, confesso que quando te vi repetir esse gesto de pegar em telas e pincéis, qualquer coisa em mim se aquietou um pouco. Como se alastrou igualmente nas minhas entranhas um certo alívio, no instante em que o drama e as suas tragicomédias te fizeram tactear sozinha e por instinto no rumo dos bastidores e do mundo vasto que se esconde por detrás das cortinas.

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Espero, Cria Minha Adorada, que saibas agora dar bom uso a essas artes que te atendem e que elas te sirvam, Meu Anjo Amado, para reparar cada joelho raspado, cada gomo ferido à asa, cada laivo em ti talhado pelos males e tristezas do mundo. E sempre que a minha mão, por um motivo ou por outro, se soltar da tua, que por favor te recordes que há algo que trazes sempre contigo e de que és capaz, e que a isso te agarres, Anjo Meu Adorado, Cria Minha Muito Amada, com força igual à daquilo que doer te possa. E que isso seja tudo quanto necessites. Que te reconcilies, pois, com as mordidas amargas da vida, abocanhando a tua arte e destilando através dela qualquer coisa outra que efectivamente valha a pena deixar cuspido em redor, quando o sangue estanca.

Àmen!

Ass: A mãe

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