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A Mariana Pantoja anda pelo Acre desde 1991 e mora agora numa «colocaçãozinha urbana», como ela gosta de dizer. Se não tem ideia do que seja uma ‘colocaçãozinha’, recomendo o mesmo que a Mariana recomendaria: pergunte a um seringueiro. Ele há-de explicar. Quando tem que dar conta dos dias e da vida por lá, a Mariana costuma ser clara: «idéias e sensações têm aflorado nos últimos tempos», ela responde. E acontece que desses ‘afloramentos’, por vezes ela escolhe alguns para sinalizar. E acontece igualmente que eu escuto. Porque gosto de saber da película ínfima das sementes, que vem antes da raíz, do fruto, da flôr e dos fiapos.
Geralmente, reparando bem e com jeitinho, sempre ela é possível de decantar e remultiplicar num vaso. Mesmo quando se mora num burgo arredado das florestânicas colocações.

dalailama

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Uma noite, estava um velho índio contando ao seu neto sobre a guerra que acontece dentro das pessoas.

- A batalha é entre dois ‘lobos’ que vivem dentro de todos nós. Um é Mau. É raiva, inveja, ciúme, tristeza, desgosto, cobiça, arrogância, pena de si mesmo, culpa, ressentimento, inferioridade, mentiras, orgulho, falsidade, superioridade e ego. O outro é Bom. É alegria, paz, esperança, serenidade, humildade, bondade, benevolência, empatia, generosidade, verdade, compaixão e fé.

O neto pensou nessa luta, e perguntou ao avô:

- Avô, qual lobo vence?

O velho respondeu:

- Aquele que você alimenta…

Ontem, sentámos-nos na área de tendas, mesas e cadeiras montadas sobre aquele tapete arrelvado, propositadamente germinado para nos criar, na recepção, uma certa impressão de belo. Ali mesmo, na beira de uma desmilinguída língua do rio Trancão, que apesar de fétido, saturado dos resíduos de décadas e décadas de abusos e maus tratos, padecido de uma poluição crónica e sem remédio, insiste ainda assim em ser água e correr leito. Sentámos-nos, eu dizia, de frente para o pôr-do-sol sobre a boca do estuário, um pouco para lá dos pilares da ponte Vasco da Gama que abre em direcção à metade Sul do País, e ali ficámos, tomando cerveja gelada e jogando conversa fora, num círculo alargado a cada nova cadeira que ia se achegando. Ventava muito mas ninguém se agitou na demasia. Mosquitos indo e vindo, na picada incerta. Mais cerveja gelada. Mais vento, mais brisa. E o odor ocre das águas nauseabundas que serviam de entorno ao cenário. Ficámos sentados, degustando espetos de mozzarela de búfala e tomate cherry e aquela prosa boa de prosear, por ser igual ao aperitivo e não ter nenhuma ânsia de nos saciar enquanto nos íamos alimentando. Não me lembro nunca de ter estado num festival sem verdadeiramente ver ou participar do festival. Nunca, a não ser ontem. Porque, creio, cada um que ia se achegando, percebia de imediato que o verdadeiro acontecimento era aquele: o que estava acontecendo ali. Único e irrepetível, sem nenhuma dúvida, na próxima edição que, no ano que vem, mais ou menos por esta altura, há-de voltar a juntar-nos outra vez a todos no tapete arrelvado da área montada especialmente para o efeito, no Parque Tejo. Com vista para o poente, o baile envenenado dos mosquitos de picada pronta e o braço fétido do Trancão.

Feliz por saber e entender que é aqui o caminho da roça…
Possível de se deixar sentidos maiores e causas permutadas!
A viagem acontece hoje. Sentido Piagaçu-Purus. Saída de Manaus às 22:00h. Serão 25 longos dias morando no barco. Te levo comigo nos mínimos detalhes.

Ass: Vickie
(recebido a 06 de Maio de 2008 )

Escrevo do município de Carauari/Juruá. Deixo os próximos passos a serem dados. Logo que o sol tirar sua roupagem abóbora e o céu se tornar mais azul, o barco que levará a equipe para Uacari, de nome Bauana, seguirá rasgando o rio pequeno e barrento, depois entrará pelos furos que a floresta esconde entranhado nos cipoais e igapós humidos e de aroma gratificante saidas das barrigudas… Você segue comigo, SEMPRE!

Ass: Vickie
(recebido a 05 de Junho de 2008 )

Estava, como sempre faço a miúde, lendo Toínho.  Escreve ele:

Ando pensando um bocado a respeito da minha indisposição para escrever. Percebi que os bloqueios emocionais, aos quais costumamos atribuir o nome de preguiça, têm um forte componente social. Explico melhor: não derivam apenas de dramas estritamente pessoais, essas pequenas tragédias íntimas que são encenadas no teatro doméstico (que, aliás, também são muitas vezes repetições em menor escala de enredos escritos e inscritos no grande teatro coletivo e tratam de temas, digamos, universais) mas perfazem tentativas de refazer um sentido de Destino, uma ação pública, um discurso na ágora, ou seja, na falta de outra palavra, uma política.

E vai daí, não sei explicar, várias coisas que venho também pensando “a respeito da minha [igual] indisposição para escrever” fizeram sentido.

Porque faz bem começar do zero, quando a gente acha que está tudo errado.

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copyright © Maggie C. 2004



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