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A FLIP de Paraty ainda mal terminou e, sem saber como, estamos já mergulhados no frenesim muito louco dos mil e um festivais de Verão, dentro e fora de Portugal, cada um com sua temática, mas todos alvoraçando os dias e inaugurando aquele velho corre-corre desenfreado que já não é novidade nenhuma para os veteranos nestas andanças. Pontualmente, já aconteceram uns quantos. A diferença é que, a partir de agora, passam a suceder-se sem intervalo, uns a seguir aos outros, quando não uns sobrepostos aos outros.

Não obstante a violência da coisa e do seu ritmo, eu gosto desta época, sim. Porque além de inaugurar uma temporada de trabalho na estrada e ao ar livre (sempre bem vinda para quem como eu sofre de fobia de clausura crónica, depois de tanto tempo a viver no mato e debaixo do céu, que deixaram um bichinho que nunca mais há-de morrer), tem a virtude de nos juntar outra vez a todos. São dias de muita cumplicidade e convívio com pessoas que o quotidiano e as agendas obrigam a espaçar contacto. Nessas temporadas de festivais voltamos a estar reunidos como uma grande família, díspar e bizarra, mas onde cada um tem a sua parte, contribui com o seu carisma, traz as suas peculiaridades e colabora como elemento indissociável da mesma tribo. E depois, durante essa temporada, apesar de desgastante e muito cansativa, a profissão despe-se em absoluto das burocracias e fica só a parte boa. Corremos cidades e lugares, falamos com as gentes, experimentamos as suas comidas, os seus hábitos e tradições, ficamos mais próximos da vida, que é o único lugar onde as histórias a merecer serem contadas existem verdadeiramente e são genuínas. Essa é temporada onde os dias se enchem de artistas e sensibilidades outras, e onde a arte e as suas mais diversas manifestação se torna centro dominante de tudo. Até dos nossos passos e horários. Até dos nossos sonhos, sejam eles sonhados acordados ou a dormir. É o tempo dos imprevistos, dos imponderados, dos sobressaltos, também. E eu gosto disso. Aumenta a acuidade do raciocínio, espicaça intuição, instinto e destrezas e obriga os sentidos a estar permanentemente alerta e despertos. Ao contrário da rotina e dos procedimentos mecanizados, nesta época tudo chega com o sabor da novidade e da diferença, num abuso de sensações, numa cascata de coisas para ver, sentir e entender, que estimulam a escrita e todas aquelas outras bençãos que trazemos adormecidas. É tempo de trocar ideias e pontos de vista. As confabulações e confabulados estão por todo o lado e tudo brota energia crítica e pensante. De certa forma, essa é a temporada em que, de uma forma ou de outra, reconhecemos nos olhares que trocamos entre nós, a mesma suspeita partilhada (sim!) de que podemos fazer a diferença e de que alguma coisa muda no mundo por nossas mãos. E depois eu gosto daquele agito de máquinas fotográficas, objectivas, câmaras, baterias, micros, cassetes, cabos, gravadores, e eu sei lá mais o quê. Gosto daquela parafernália toda, de nos tornarmos menos preocupados e mais confortáveis, mesmo alucinando de calor sob o sol ou tremendo de frio quando a noite chega e a madrugada se alarga. Gosto de nós cobertos de pó e desgrenhados, dos óculos de sol, dos relógios desportivos, dos ténis e das botas, dos blusões e das camisetas que vêm sempre de algum lugar ou evento muito especial por onde passámos e estivemos presentes. Gosto desta fraterna promiscuidade de partilharmos tudo e perdermos a cor e a filial, de não sermos mais de nenhuma marca, empresa ou instituição, a não ser aquela que pede a todos que dêem o seu melhor, superem os imprevistos e coloquem cá fora o seu melhor trabalho. Porque para nós, a velha tribo que há anos se cruza em trabalho, se conhece e é destacada para os mesmos lugares, a única coisa que interessa é conseguir fazer o melhor e não exactamente os imperativos da concorrência ou os pressupostos estabelecidos por cada orgânica interna a que cada um se encontra ligado. É uma época fértil de criatividade e resultados, com todo o mundo a mostrar para todo o mundo, com ideias e sugestões, com opiniões e críticas trocadas abertamente, tendo por exclusiva finalidade entender onde e como é possível ir mais longe, fazer mais e melhorar.

Acredito que essa realidade não extravaze para o exterior e não passe. Sei bem, aliás, que só aqueles de nós que lá estão e fazem parte dessa grande família sabem dela. É por isso muito difícil explicar aos que não têm acesso, nem possibilidade de viver o mesmo que nós. E é também por isso que hoje em dia já não me impaciento ante todos os que, por absoluta ignorância acerca daquilo sobre o qual se pronunciam e emitem opinião, insistem em reduzir essa temporada a uma diversão colectiva, quase obscena de tão desbargada inconsequência e liberdade, quando comparada com os seus dias ‘nine-to-five’, presos a uma cadeira, entre quatro paredes. Pudessem eles saber de como é e de como tudo se passa e ao tanto que obriga!… Em parte é exactamente essa a razão de sermos uma grande família que se conhece de longa data e partilha cumplicidades tão fortes. Porque todos os anos aparecem no terreno algumas caras novas, a maioria delas por destacamento e sem direito a opção, outras movidas pela desconfiança de ser porta aberta para uns quantos momentos bem passados e outras tantas regalias e privilégios apetecíveis de abusar. Acontece que se contam pelos dedos as que sobrevivem e dão as caras na etapa seguinte. Quando se apercebem das milhas palmilhadas por dia, da correria constante, sem tempo para comer e ir no banheiro, o peso dos materiais, o cansaço, o sol, o frio, as longas horas de trabalho a que depois sobram magras outras de sono ou descanso, o ritmo puxado, sem brechas nem folgas, a pressão, a necessidade de refazer planos, inverter agulha, recriar, reinventar, de se preciso for ter que reformular no minuto, de uma hora para a outra, do dia para a noite, sem trapézio, nem rede… nunca mais se oferecem para enfrentar o mesmo ‘calvário’ que para nós é tão doce e estimulante. Ás primeiras queixas, exigências, indignações e lamúrias logo sabemos que não é da tribo e que o mais provável é que não voltemos a vê-lo nas mesmas paragens que nós, no ano seguinte. Porque como ontem de madrugada alguém dizia, «é preciso gostar-se muito disto».

E como eu gosto mesmo muito disto, com toda a vossa licença e já pedindo mil desculpas, vou abreviar o papo de hoje, preparar um cocktail molotov de ben-u-ron’s para domar a constipação e baixar a febre no máximo até às 17h, beber um chá de mel e limão para limpar da voz da rouquidão que o frio da madrugada e a humidade à beira-rio deixaram, cair no duche e sair a voar para o 3º dia desses 5 de festival, que a tribo pode andar a trabalhar em liberdade, mas é extremamente profissional e não está acostumada a perder o horário!…

Ass: eu

A Mariana Pantoja anda pelo Acre desde 1991 e mora agora numa «colocaçãozinha urbana», como ela gosta de dizer. Se não tem ideia do que seja uma ‘colocaçãozinha’, recomendo o mesmo que a Mariana recomendaria: pergunte a um seringueiro. Ele há-de explicar. Quando tem que dar conta dos dias e da vida por lá, a Mariana costuma ser clara: «idéias e sensações têm aflorado nos últimos tempos», ela responde. E acontece que desses ‘afloramentos’, por vezes ela escolhe alguns para sinalizar. E acontece igualmente que eu escuto. Porque gosto de saber da película ínfima das sementes, que vem antes da raíz, do fruto, da flôr e dos fiapos.
Geralmente, reparando bem e com jeitinho, sempre ela é possível de decantar e remultiplicar num vaso. Mesmo quando se mora num burgo arredado das florestânicas colocações.

dalailama

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Uma noite, estava um velho índio contando ao seu neto sobre a guerra que acontece dentro das pessoas.

- A batalha é entre dois ‘lobos’ que vivem dentro de todos nós. Um é Mau. É raiva, inveja, ciúme, tristeza, desgosto, cobiça, arrogância, pena de si mesmo, culpa, ressentimento, inferioridade, mentiras, orgulho, falsidade, superioridade e ego. O outro é Bom. É alegria, paz, esperança, serenidade, humildade, bondade, benevolência, empatia, generosidade, verdade, compaixão e fé.

O neto pensou nessa luta, e perguntou ao avô:

- Avô, qual lobo vence?

O velho respondeu:

- Aquele que você alimenta…

Ontem, sentámos-nos na área de tendas, mesas e cadeiras montadas sobre aquele tapete arrelvado, propositadamente germinado para nos criar, na recepção, uma certa impressão de belo. Ali mesmo, na beira de uma desmilinguída língua do rio Trancão, que apesar de fétido, saturado dos resíduos de décadas e décadas de abusos e maus tratos, padecido de uma poluição crónica e sem remédio, insiste ainda assim em ser água e correr leito. Sentámos-nos, eu dizia, de frente para o pôr-do-sol sobre a boca do estuário, um pouco para lá dos pilares da ponte Vasco da Gama que abre em direcção à metade Sul do País, e ali ficámos, tomando cerveja gelada e jogando conversa fora, num círculo alargado a cada nova cadeira que ia se achegando. Ventava muito mas ninguém se agitou na demasia. Mosquitos indo e vindo, na picada incerta. Mais cerveja gelada. Mais vento, mais brisa. E o odor ocre das águas nauseabundas que serviam de entorno ao cenário. Ficámos sentados, degustando espetos de mozzarela de búfala e tomate cherry e aquela prosa boa de prosear, por ser igual ao aperitivo e não ter nenhuma ânsia de nos saciar enquanto nos íamos alimentando. Não me lembro nunca de ter estado num festival sem verdadeiramente ver ou participar do festival. Nunca, a não ser ontem. Porque, creio, cada um que ia se achegando, percebia de imediato que o verdadeiro acontecimento era aquele: o que estava acontecendo ali. Único e irrepetível, sem nenhuma dúvida, na próxima edição que, no ano que vem, mais ou menos por esta altura, há-de voltar a juntar-nos outra vez a todos no tapete arrelvado da área montada especialmente para o efeito, no Parque Tejo. Com vista para o poente, o baile envenenado dos mosquitos de picada pronta e o braço fétido do Trancão.

(…) Pode ser perspineta, cheia de si e da sua vontade, meio mandona e nariz empinado. Pode ter demasiada coluna vertebral e pior flexibilidade nos músculos e tendões que ligam o génio à boca e ao perdão, ser tomada de um fôlego justiceiro e anti perdulário. Pode até precisar de uns quantos correctivos e lições da vida, para que toda essa segurança lhe estremeça o suficiente para lhe abrir os tímpanos a outra voz de comando que não só a dos seus neurónios, do seu coração, da sua independência e da sua liberdade. Mas muito francamente, olho para ela e sinto-me segura e confiante. Arrisco mesmo a dizer que tranquila com o resultado que se vê daqui, por quanto aquilo que somos ou os outros são seja visível a olho nu. Creio que tem, por conseguinte, todos os ingredientes necessários à fazedura de um muito excelente ser humano. Todos, sem faltar um. Na dose certa, para ser mais exacta. São, pois, fortes as probabilidades de não sair nem tão azeda como o pai, nem tão mel assim, como a mãe, e muito menos insonsa como os governos gostam, aplaudem e tanto se esforçam para que os nossos filhos saiam.

Ass: Eu
(enviado a 04.Julho.2008)

Saiba que entendo sim, seus desmandados desmandos de quem pagou caro pela própria carta de alforria. Valer-lhe-á sempre à consideração o seu profundo amor à causa dos povos originários e essa devoção que lhe detém a retina na única coisa que verdadeiramente importa não perder jamais do foco. Tudo o mais, não deixe que lhe aperreie o sono. De uma ou de outra forma, qualquer um de nós dará um jeito, por aqui ou d’acoli. Não obstante o preto comprometido sobre o branco, sei bem que, para você, o único compromisso que sempre estará inquebrantavemente selado é com o que existe tingido a vermelho, negro, marron e amarelo. Mas você sabe, ainda que o daltonismo não enferme a humanidade na sua totalidade, desacertos cromáticos acontecem até mesmo aos céus amanhecidos às Estações do Ano: releve. Suponho ter, por ora, conseguido o suporte de uma operadora internacional que lhe garantirá, pelo menos, um contacto suave e esporádico com o mundo. Breve estarei enviando dois livros que poderão ser-lhe úteis, mais que não seja no traçado que deixam a giz pelo chão. Busco ainda localizar  o ‘ciclo-casal’. Confirma-se que ele é português, mas desde que o amor o tomou de jeito, e depois do itinerário de sete anos pelas montanhas, praias e arrozais do Oriente, não voltou a ser visto por aqui. Igualmente, ainda nenhuma notícia do Escocês, mas você sabe do temperamento dos arruivados. Nesse caso, haverá que haver paciência porque em algum momento se comunicará. Do centro das minhas costumeiras distracções, manter-me-ei vigilante, sim. Cuide-se, por favor!

Ass: Eu

* Fotos de R. Leboucher

Caríssimos, perdão por uma certa ausência, mas como certamente compreenderão, tenho andado atarefadíssima com esta coisa de me ocupar menos. Assim sendo, as horas que resgatei ao tempo têm-me preenchido com demoradíssimas tardes entre o sol e a sombra proseando e rindo sem necessária finalidade à vista. Têm igualmente sido longas, as noites de ‘dolce fare niente’, somente contemplando o luar, vagueando os lugares mais ‘apessoados’ da cidade, em outros tantos papos e prosas joados fora, só no mero prazer de saborear os instantes abençoados da vida, junto das pessoas que ela faz o favor de ir cruzando no nosso caminho. Reconheço que tudo isso me tem tornado mais displiscente da proximidade às teclas, mas trago cada um no coração e na ponta da língua, acreditem.

No intermezzo, as ideias vêm burilando laboriosa e afadigadamente vincos e formas de combinar os diferentes projectos que trazemos em curso de uma e outra margem do oceano. Pela tarde, estarei aliás estudando a papelada, imensamente crente na reunião confabuladora agendada para segunda-feira. Algum contributo inteligente que me ocorra, enrolo, ato com cordel de ráfia numa asa de gaivota e envio directamente para o lado do mundo que interessa.

Hoje o dia está lindo, claro, azul, quente e cheio de sol. Ao contrário do que imaginei, resolvi abrir mão da praia e ficarei por aqui, entregue a alguma ordem que preguiçosamente venho adiando dar a esse tropeço de livros, discos e demais bens de primeiríssima necessidade que se vêm amontoando caoticamente ao meu redor, de tão essenciais e vitais que sempre me parecem. Também é dia de colocar a escrita em dia, manter o skype ‘on’ em permanência e permitir-me certos caprichos de Cleópatra sem muito o que fazer ou grandes urgências assinaláveis que me façam correr.
Nos entretantos, queiram por favor, se tiverem algum tempo livre, averiguar das compatibilidades da Vivo e da Tim com as antenas lusitanas, pois vem crescendo a sensação de que algo não está funcionando inteiramente como previramos.

Ass: Eu

Portugal tem conhecido, durante o último ano, uma mobilização em direcção à rua, como há décadas não se via. Esse é um sinal de fumo que está a ser enviado faz tempo e que vem alastrando aos mais diferentes quadrantes da sociedade, ainda que a maioria reinante teime em subestimar e não querer ver. Depois dos mais de 200 mil professores em manifestação de Norte a Sul, desta vez foram os camionistas e as transportadoras que saíram à rua, paralisando as frotas e interditando a circulação das transportadoras, num protesto contra o aumento imparável dos combustíveis, nas últimas semanas, que se alia ao que decorre em França e na vizinha Espanha. Congelada a Península Ibérica, em suma. Não entra, nem sai nada. Ontem praticamente nenhum posto de abastecimento tinha gasóleo ou gasolina para fornecer, especialmente nas zona centro e no Algarve. Ao redor das grandes cidades, como Lisboa e Porto, as filas eram gigantescas e em algumas havia cerca de 83 condutores na frente, aguardando vez.

Em consequência os aviões precisaram começar a fazer desvios para encher os depósitos. Não houve cancelamentos, mas os atrasos nos vôos foram tremendos. Nas prateleiras dos supermercados vários alimentos começaram a escassear, com os produtos frescos, como leite, peixe, frutas e legumes a desaparecer em primeiro lugar. Os prejuízos são elevadíssimos e muitos destes bens alimentares já começaram a ser destruídos no produtor ou nos armazéns de retalho, por não se encontrarem mais em condições de poderem ser consumidos. O cenário, como escrevi aqui há, parece de quase guerra e o racionamento faz pensar na precaridade destas grandes e generosas urbes civilizadas que habitamos. Como se percebeu, ao fim de 48 horas as cidades foram totalmente manietadas por uma greve de camionistas e empresários de frotas pequenas, mesmo sendo ela amadora e mal organizada. Dá que pensar, sem dúvida! A mim, pelo menos, tem dado muito, mas mesmo muito que pensar, acreditem.

Nos entrementes da crise, que paralisa a locomoção de tudo o que é movente por aqui, um detalhe pitoresco. O embaixador dos EUA em Lisboa veio a público manifestar que considera que o aumento dos preços dos combustíveis é positivo para o ambiente e o mundo em geral, na medida em que obriga à procura de alternativas e “energias renováveis menos poluentes”. Que me perdoe o embaixador, mas até a hipocrisia tem limites.

Paralelamente a toda essa suada movimentação (ou ausência dela) no asfalto, as temperaturas dispararam acima da fasquia dos 30º. Ainda é cedo para dizer se veio ou não para ficar, mas o Verão que só chegou Junho adentro, no começo da semana passada, está aí decidido a compensar-nos os poros por tamanha demora. Dizem os metereologistas que será o mais tórrido e seco de que há memória, apesar do atraso. Os incêndios já começaram.

No entretanto, celebrou-se mais um Dia de Portugal e das Comunidades de Língua Portuguesa, com uma polémica em torno do conceito “raça” a agitar as hostes à esquerda contra o Presidente da República. Portugal segue a meio-gás, com muita gente a fazer ponte e a meter a semana de férias, porque dois dias depois é Feriado de Santo António, tempo de marchas e casamentos, está visto. As Festas da cidade já arrancaram. Por todo o canto, beco, lago e recanto, montam-se os palcos e arraiais, penduram-se balões e bandeirinhas, armam-se fogareiros, brasas e assadores, e cheira a sardinha assada e manjerico. No castelo as habituais noites de Fado também já se fazem ouvir. No mais, é esta guerra fria que divide Lisboa em dois clãs, para ninguém ficar com saudades das marchas que traziam os bairros ao confronto no desfile. Super Bock e Sagres, as duas maiores marcas de cerveja, degladiam-se no patrocínio dos comes-e-bebes, e é a ver quem acumula mais logomarcas nas bancas e copos de plástico que pululam na berma das ruas quando amanhece. Porque viva a tradição e ser líder de mercado é não negar fogo na hora de apoiar a cultura residente, não é assim?!

Por falar em bailarico, fado e cerveja, está ao rubro um outro grande ícone nacional: o futebol. Ontem, às 17h, depois de reeditar o espírito de Cruzada e desbaratar os turcos, Portugal jogou pela 2.ª vez no Euro 2008, contra a República Checa. Venceu por 3-1 e garantiu a qualificação e o primeiro lugar do Grupo A. Perto da hora do jantar, explodiu a bomba: Scolari vai treinar o Chelsea, com efeitos já a partir de dia 1 de Julho. Ao que garante a imprensa britânica vai ganhar quase 8 milhões de euros. A notícia foi colocada no site da equipa e todo o mundo, inclusive o próprio, desaprovou o timing da revelação. Perdemos o Filipão e torna-se voz corrente que a intenção dos ingleses (também eles a competir no bendito Euro) foi desestabilizar emocionalmente a selecção portuguesa, uma das favoritas internacionais. Deco, o meu preferido entre os eleitos de Scolari’ também vai alinhar pelo Chelsea.

E eis que finalmente a gente vem desaguar no hoje. Duas notas cruciais, num momento em que o dia vem ainda rompendo. Primeiro: na União Europeia, abriram as mesas de voto para o referendo que decidirá destino de Tratado de Lisboa. Segundo: parece que os media resolveram que já estava na hora, bem em cima da hora, eu diria, de começarem a falar da Expo 2008. A observação tem-me levado a questionar um ponto que costumava ser um “xis” importantíssimo na avaliação desse tipo de iniciativas, a saber, o poder de mobilizarem a comunicação social para pegar no tema, ampliar o debate, aumentar a divulgação e fazer “barulho” em torno da coisa. Pois pelo que vejo, também neste aspecto a coisa mudou e não é mais o que era. Se as organizações estão a contar com projecção mediática, desenganem-se. Silêncio total até ao limite, que as redacções estão cada vez mais reduzidas e não há jornalistas para alocar a acontecimentos com a antecedência de antigamente. Uns especiais nas vésperas, uma dupla aqui outra ali, quando o countdown já for bem acelerado e com um pouquinho de sorte uma capa qualquer em suplemento de fim-de-semana, no momento em que a coisa é oficialmente inaugurada e pronto. Está feita a cobertura, que televisões e jornais não foram feitos para ensinar ninguém, educação é coisa para pai e mãe lá em casa e lugar de vocações pedagógicas é no banco da escola. Jornal é produto comercial e existe para dar lucro, não para investir um despropósito de recursos e meios humanos no esclarecimento das populações, ‘vistes‘ ?!

Feita a súmula, creio que podemos agora conversar de viva voz, por meio a essas facilidades mágicas e miraculosas que a tecnologia facilita ao nosso alcance, sem desperdiçar minutos cm sinalizações básicas. Tomarei um banho, prenderei o cabelo, abrirei mais janelas e farei um café fresquinho, enquanto aguardo que o fuso horário de Lisboa se torne consentâneo com os restantes gomos do globo, por onde o destino entendeu por bem nos espalhar a todos.

Até mais ver!

Fui procurar no mapa por onde você anda agora. Calculo que seja mais ou menos por aqui, que vaga o barco que levou de baptismo o mesmo nome que o rio. Depois, achei por bem recortá-lo do papel e colar por cá. Para ser de serventia para quem possa ler esse blog. Para o caso de ser das “europas” e nunca ter estado na Amazónia. Se até eu me perco tentando te achar na vastidão de verdes e ramificações de corros d’ água, imagina quem não tem o olho acostumado a tamanha extensão de mundo nu… Pois bem, calculo que o Rio Bauana corra mais ou menos por aqui, já que a marca verde assinala o município de Carauari. Se assim for, seu barco, que leva o mesmo nome, navega sob os meus dedos, algures nessa direcção. Depois você me dirá se devo recalcular a intuição.
Até lá, vagamos na mesma maré.

Ass: Eu

Carta a vocês, Caríssimos

Através de velhos amigos, chegam-me notícias do Acre. Marina Silva perdeu três quilos em menos de uma semana, desde que apresentou a demissão como ministra do ambiente. Regressou ao Acre por uns dias. Voltou para descansar um pouco junto dos seus. Contam-me os que a conhecem de jornadas mais longas que mesmo magoada nas suas mais francas e acarinhadas convicções, continua valente e determinada, plena de uma força que nem Lula, nem PT abalam. O Página 20 está atravessando uma fase de renovação. Altino foi chamado para dar fôlego vivo ao online e o Toinho está tão animado que encara até a hipótese de regressar com a coluna que assinava na década de 80. Em Barcelona, a loja de comércio justo da minha boa amiga Del vai de vento em popa, como ponta de um iceberg que começa a despontar e que puxa pela proa um trabalho muito mais vasto de divulgação e suporte à cultura da América Latina. Por cá, está prestes a começar o período em que os festivais se multiplicam e remultiplicam, de norte a sul do País, não obstante este ano o Verão ainda não ter passado de longínqua miragem. No entretanto, também eu puxo o carro do online, sendo que nem sempre é fácil apaixonar o entorno pelo alcance e múltiplas possibilidades discursivas que ele abre. Observo muitos Velhos do Restelo, mas denoto também que parte das objecções se resumem a azias que vêm do receio de perder os lugares clássicos do protagonismo. A somar à lista de obstáculos e pelejas a travar, o desconhecimento e o despreparo das estruturas e das mentalidades. O tão falado “choque tecnológico” de Sócrates é como este Verão que não há meio de chegar: um eterno sonho em projecto. A falta de incentivo, a lentidão, o formalismo sinuoso e a burocracia labiríntica e complicada em que o procedimento mais simples se vê enredado, é a metade outra das principais dificuldades que venho identificando. No mais, creio que deste como do outro lado do Atlântico, omeletas sem ovos sempre continuam a ser o prato mais requisitado sobre a mesa. Ultimamente, aliás, salta-me cada vez mais à vista um paradoxo. Não entendo como mais gente não se dá conta dele. Quanto mais a sociedade se afirma céptica e descrente, mais milagres ela pede. Pedem-se ideias sem dar estímulo, esforço sem oferecer recompensa, trabalho sem tempo para almoçar, dormir, rir ou descansar, garante-se pelo mínimo para poder exigir o máximo, enfim!… Acresce a este cenário uma crise sem precedentes que tem feito o preço dos combustíveis subir desenfreadamente. Esta semana abasteci o depósito do carro pela manhã e, quando voltei a encostar no posto, ao final da tarde, o gasóleo tinha aumentado 0,3 cêntimos.

Pelo meio, comovi-me com uma réplica para a modernidade de uma tela de Ticciano que a minha filha pintou e que foi escolhida e exibida em exposição pública. Fiquei a saber que tenho mais sobrinhos para nascer, chorei a ver dois números num mesmo espectáculo, arrepiei-me a ouvir a primeira actuação ao vivo de uma das maiores divas de Cabo Verde, quase 15 anos depois de um contrato fraudulento a afastar dos palcos, as lágrimas vieram-me aos olhos em conversa com a minha fadista de eleição e quase fugi com o circo sem olhar para trás.

Suponho, portanto, que por entre sobressaltos e dissabores, a vida me vai brindando com encantamentos suficientes para prosseguir em diante sem esmorecer mais que os breves instantes que levo a contar até dez, respirar fundo e recolocar o foco no que verdadeiramente importa.

(…) É impressionante como o tempo voa! Foi uma semana tenebrosa, como o trabalho a crescer do chão, em dimensão, chatices e imprevistos, como sombras nas paredes do quarto, quando se é criança e alguém apaga as luzes. Demorou uma eternidade até ser fim-de-semana e agora parece que essa brecha de alívio voou. Sem se dar por nada está quase em tempo de repetir a insanidade. (…)

Ass: Eu

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