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Confesso: foi por ela que voltei, sim. Que remédio, não tinha outro jeito. Mas dessa vez há outra favorita.

A cada vez que a gente se consente não ser mais do que em realidade é, qualquer coisa vem para nos namorar. Vem e traz consigo a esquecida doçura dos gestos belos e pequenos, o encanto longínquo dos ímpetos genuínos e simples. E, então, a gente senta-se numa sombra fresca diante de um prato de figos colhidos no quintal, ou entretém-se a costurar pedras num fio cru, enquanto se vai deitando a adivinhar-lhes a idade pelo toque. E à noite, envolve-se numa labareda de cores, atravessa a praça e fica só a respirar o cheiro a sal que o luar traz do mar, num banquinho manco que destrava a língua às histórias, como acontece com as crianças, para quem as conversas são como as cerejas: uma gula vermelha a deixar a boca tingida de sumo que dá de lambuzar a voz da gente e a torna música ao ouvido alheio. E, quando a gente vê e se dá conta, em poucos dias muitos milagres se operaram sem saber. Rejuvenescem-se décadas por cima do que éramos. Por fora tudo se alisa, por dentro tudo se amacia. E a vida volta, enfim, a ser boa no tempo que guarda para nós.

No dia que reentrei a cidade, o calor era insano. Bom, porque assim não estranhei tanto. Péssimo, porque agravou o pesar de me saber agora longe do mar. Ontem, pelo contrário, tudo era de um cinza invernoso e as folhas rodopiavam nos passeios, arrancadas dos ramos, como se já fosse Outono. Mesmo hoje, o vento soprou tanto que foi notícia de jornal: derrubou duas árvores seculares para os lados do Príncipe Real, destruiu sete carros e parece que causou estragos avultados. Mas rente ao crepúsculo, atentando bem, podia fazer-se um zoom e ver a promessa de orgia rosada que o sol deixou a bailar na linha do horizonte. Tenho a certeza que será como eu disse: vem aí um domingo de calor, perfeito para matar a saudade aguda da praia que já rói na alma. Do Sul chegam notícias que confirmam a previsão que, entretanto, andei a espalhar entre os amigos: por todo o dia o mar esteve estranhamente liso ao largo, formando contudo uma rebentação forte e o vento entrava de sudoeste, agitando a areia, como uma tempestade de deserto, que obrigou os donos dos barcos a dobrar a âncora. Tenho a certeza: é o Levante que se prepara e vem aí, para aquecer os dias e a água do mar. Não falha, pode escrever. E se ainda tem férias para gozar, aproveite: agora é que vai começar a ficar bom!

A casa tinha buganvílias à entrada mas não tinha portão. A janela da varanda também não tinha vidraça. Tirara-a para deixar que a brisa esvoaçasse melhor e mais livre no trajecto certeiro, rumo ao oceano adiante, e que ora tinha a cor das safiras, ora das turquezas e do cobalto. Era conforme. Via-se o mar, para lá da cancela que protegia a falésia, e no caramachão estava presa uma rede encardida a que o sol tratara de comer a cor. Por todo o lado, vasos, latas, fundos de garrafa e potes de terracota com plantas, flores, ervas aromáticas e temperos trazidos das sete partes do mundo. A luz entrava coada e ouvia-se o zunido constante das cigarras nas árvores de fruto do terreno que crescia ao Deus-dará nas traseiras. Nenhuma porta tinha trinco e as portadas às ripas batiam descompassadas quando o vento dançava de feição. Sobre os muros, canteiros e qualquer superfície que lhes pudesse servir de poiso, espalhavam-se pedras, sementes, conchas, búzios e fósseis, tesouros raros que só lhe saltavam ao caminho quando nada fazia para os procurar. Um carrilhão espetado na parede lateral da casa tilintava ao longe, como um murmúrio suave de alma adormecida ao estio. A cafeteira de zinco borbulhou na cozinha e, em pouco tempo, as chávenas chinesas fumegavam prazeirosas, adocicadas com uma colher mal-cheia de açúcar amarelo. Havia uma cadela na casa, mas só lá ia uma vez por semana, quando a fome apertava e, mesmo assim, nunca se demorava muito. Lá dentro, lanternas, candeeiros, espelhos, caixas, baús, mantas, almofadas, cadeirões, bancos e banquetas de muitas formas, feitios e proveniências, alguns pratos, livros, e fotografias, em moduras ou simplesmente presas com um grampo às paredes e às portas. Só não existiam relógios, nem nada que tivesse ponteiros ou pudesse ameaçar direcção aos dias. Como já se disse, nenhuma porta era fechada e quase todas as vidraças tinham sido retiradas, deixando no lugar das janelas aberturas esventradas, como bocas sedentas escancaradas ao céu, por onde a brisa da tarde sufocante entrava sem cerimónia e o vento cruzava lufadas e correntes sem se acanhar. Faz portanto sentido que, do lado da estrada, houvesse uma tabuleta com o nome da casa e que ela se chamasse “Sítio da Ventania”.

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A inacreditável história do Homem-Gruta com a Menina-Girassol.

Vinte e sete anos depois, a história começa assim: depois de se descobrir que estava sânscrito em prata da índia, todos os dias e em todos os lugares apareciam pedras com a forma do coração.

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Nota de rodapé: o sânscrito é uma das 23 línguas oficiais da Índia. À semelhança do latim e do grego, influenciou praticamente todos os idiomas ocidentais. O alfabeto original do sânscrito é o devanagari, um composto bahuvrīhi formado pelas palavras deva (“deus”) e nāgarī (“cidade”), que significa “a escrita da cidade dos deuses“.

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Daqui a pouco, assim que terminar um merecidíssimo café sem grandes pressas e vencer a preguiça de fazer as malas e arrumar as coisas, estarei novamente ganhando a estrada. Incontáveis as viagens, nos últimos dois meses e, pelo menos, nos dois próximos que se seguem. Não é uma queixa, que andar solta por aí é a melhor benção da vida que eu escolhi. Também não é um aviso, que os viajantes têm por hábito sinalizar presenças, mas não o costume de rastrear rumos. Portanto, aos que estarão me aguardando por lá: estou chegando já, já! Me aguardem, por favor. Aos que ficam onde os sei: darei notícias sempre que puder. Àqueles que nunca sei muito ao certo por onde param ou se movem, que se mantenham vivos e aproveitem a estrada para ser pelo menos tão felizes quanto eu. Quem sabe a gente se encontra algum outro dia em algum outro lugar. Ou não. Que o melhor de andar solto na estrada é nunca saber, em verdade, onde ela vai nos levar: se para mais perto, se para mais longe de onde vamos.

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Agora para Você: partidas coincidentes sempre são um bom presságio, mesmo você ganhando o aeroporto e de regresso ao Brasil: “E o pior é saber que a gente ainda vai se encontrar“, não é assim?! :) E para Você também, que segue o rumo oposto ao do ano anterior, por essa época, e se prepara para um palco onde, dessa vez, não poderei estar a dividir gémeas penumbras: há, sim, pessoas que se pressentem e, no final, as histórias pressentidas resultam tão ou mais reais que as histórias sentidas, acredite. E ainda para Você (claro, sempre!), que aproveita cada aberta no mato para correr a erguer a ‘casa grande’: siga, sim, plantando essa horta especialíssima dentro das canoas de madeira que repousam no jardim, que tá chegando a hora da janta e a fome é caprichosa: precisos se farão, portanto, todos os temperos exóticos que lhe conseguirem engendrar suas feiticeiras mãos dadivosas.

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Mandaram entregar-me aqui: bolas de berlim fresquinhas e acabadas de fazer. Céus, como eu adoro estes súbitos sortilégios anónimos!…

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De como duas caixas de papel manteiga amarradas com um cordel podem transformar o dia. De como coisas aparentemente tão simples e banais têm o poder de criar momentos inesquecíveis. Da alegria quase infantil de desatar a correr para casa e mal poder esperar para chegar. Do prazer indescritível de precipitar o final ao dia e dá-lo por encerrado enquanto ainda existem algumas horas de sol pela frente.

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… Fechado! Será como a gente diz a quem é pequenino: “ir num pé e vir no outro”.

Ass: Marina L.
(recebido a 27.Junho.2008)

Trabalhar todo o mundo trabalha. Aliás, a cada ano que passa, quer você se vire para a esquerda, quer se volte para a direita, parece que todo o mundo está cada vez mais sobrecarregado de trabalho. Até os desocupados, já reparou?! Até eles andam mais stressados. Mas quando a vontade é lei e o querer é forte, há sempre um jeito, há sempre uma fuga, há sempre uma providencial chance para a liberdade. Há sempre uma forma de subverter tiranias e intransigências e pular fora dos compromissos que nos espartilham os movimentos. E acontece que felizmente, a vida sempre me acercou de seres capazes de rodar a baiana e fazer milagres acontecerem. Dos que têm caprichos e criatividade suficiente para não se resignarem a ser somente escravos do sistema e da obrigação. Por isso sejam complacentes, por favor. Como é que, depois de tantos anos dessas salutares convivências, alguém pode esperar que eu me convença de que não existe mais para aspirar?! Lamento, mas é impossível. Não sou capaz. Ouço, ouço e escuso-me a comentar tantas lamúrias, para não causar maiores embaraços aos queixosos da sua condição de mouros de trabalho. Mas, muito sinceramente, creio que na maioria das vezes o trabalho é o álibi perfeito para deixar a vida na prateleira, uma desculpa socialmente bem aceite para descartar a inércia, uma forma muito conveniente de tapar o sol com a peneira ou lançar areia para os olhos de quem não quer ver. Você já reparou na necessidade com que algumas pessoas vão logo informando que estão “com muito trabalho“, praticamente antes de dizer “bom dia“… ?! Pois repare. Discretamente, porém comece a reparar. Vai ver que logo à costumeira e trivial pergunta de começo de conversa, “como estás? como vai você?” – (que também admite a variante mais sofisticada, “o que feito?” – a resposta é invariavelmente “com muito trabalho“. Antes de responderem, já dou comigo silabando, à laia de ventríloquo, as três palavrinhas de sempre, como se tivesse sido isso que houvesse sido perguntado!… Quando quero saber pelo trabalho das pessoas pergunto, ora. Imagina o descabido de passar a responder à pergunta “como você vai?“, dizendo “almoçando muito” ou “dormindo todas as noites” ou “respirando“. Absurdo, não?! Pois é: no mínimo. Só não entendo porque é que diante da resposta “com muito trabalho“, ninguém experimenta a mesma sensação de despropósito, mas enfim. Bem sei que, ao limite, há que admitir que nem todos sintam o mesmo horror ao tédio. Por mim, sigo como sempre mais próxima do desabafo bradado por Fernando Pessoa: “… Ai que prazer, não cumprir um dever!” Porque sabe o que é que a experiência me tem demonstrado, a cada vez que se é insubmisso e não se prioriza o dever? Que, ao contrário do que tantos estão convencidos, não é o mundo que desaba. É a vida que acontece e vem ter com você.

* Fotos: Paraty – Julho de 2008

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Escolha se quer tomar o rumo da esquerda ou o da direita

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Escolha onde quer se atascar e afundar e enterrar ou mergulhar

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Escolha se quer olhar e ver mandingas ou talismãs

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Escolha se quer riscar-se à superfície ou no fundo

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Escolha se quer o caminho das pedras ou o caminho do céu

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Escolha se quer cardos ou se quer prosas

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Escolha se quer deixar como está ou construir novos Paraísos.

Ritual Karnataka

Se eu fechar os olhos, quase consigo ver as penas e cocares dos Grandes Guerreiros da Floresta à solta pelas ruas de Évora, cidade alentejana, Património da Humanidade. Os cinco dias de ‘Música e Tradições do Oriente‘ começam amanhã. De todas as evocações da famosa rota cigana desde a Índia à Andaluzia, que por lá vão andar em casúlo entre muralhas, faço reparo para o ritual de máscaras de Karnataka, ao Sul da Índia. Belo, muito, muito belo. Só assistindo com os próprios olhos para perceber o quanto, na verdade.

* Foto de D. Gontard

amanhecerilha

Por diversas vezes fiz reparo em como é semelhante a luz de certas horas, com esta ‘tal’ luz de Lisboa que, desde séculos, tanta tela tem inspirado e tanta tinta tem feito correr à pena. Não acontece sempre, visto que a ilha bóia no Amazonas e, como toda a região, ela é por natureza e condição exuberante e berrante muito para lá dos cânones das circunspectas Europas temperadas. É só em certas horas, sim. O suficiente, todavia, para me saciar amplamente qualquer resquício de saudade alfacinha que sobrar pudesse. Suponho ser também por isso que não me lembro de em alguma ocasião lhe ter sentido a falta. Ou das suas gentes. O que vem a dar no mesmo.

Como me disse uma vez um caboclo, lá para as bandas do mercado à beira rio, “o peito da gente faz morada onde o coração se sente em casa“. E eu, então, lembrei-me de Shakespeare, que gostava de escrever máximas, mas tinha por costume escondê-las na boca de cena, disfarçadas de fala de gente:

aspas Quando o ancoradouro se torna amargo, a felicidade vai aportar em outro lugar.

* foto de Renato Stockler

Aí, vocês vêem, então, os seculares ‘Altares de Santo António’ que os moradores e vizinhos da mesma rua erguem nos vãos, cantos, recantos, becos e vielas, nos bairros antigos da cidade. Os tijolos, tábuas ou caixotes (muitas vezes os mesmos que são usados no próprio transporte da sardinha pescada) são pregados em degrau e cobertos com uma mantilha ou toalha de renda. Iluminado por velas, é colocada sobre ele a figura do Santo António, juntamente com os vasos do tão famoso manjerico, com os seus coloridos cravos de papel, onde a tradição manda prender uma quadra, versando sobre um tema que, supostamente deve ser uma mensagem em rima, dedicada à pessoa a quem este se destina e oferece. O manjerico exala um aroma intenso e fresco, que rapidamente perfuma tudo em redor. Manda igualmente a tradição que seja regado só à noite (“é regar e por ao luar!“, como ensina o pregão das floristas e vendedeiras) e que nunca se aspire o seu odor directamente, para que não murche e morra, antes do festejo do ano seguinte. Ao invés, deve colocar-se suavemente a palma da mão aberta sobre as suas folhas, que crescem em forma de bolbo, e só então cheirá-las.

Poupo-me a mais detalhes, pois que muito vos tenho eu falado a todos das Festas dos Santos Populares típicas do Junho português (trabalho, aliás, com interesse, uma certa similitude com as Festas Juninas, que se celebram um pouco por todo o Brasil), com o Santo António a caber em especial à herança de Lisboa. A ideia era só mesmo mostrar o que é afinal isso do “manjerico”, uma vez que – ao que me tem sido dado perceber – pelo nome vocês não conseguem identificar nem reconhecer a planta a que me refiro. Muito bem: pois essa planta é que é o tão afamado “manjerico”!

* A ‘Noite de Santo António’ festeja-se sempre de 12 para 13 de Junho.

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copyright © Maggie C. 2004



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