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A Questão Acreana
Setembro 10, 2008 in Minha Metade Tupinambá | Leave a comment
Após 2004 e os afortunados encontros que proporcionou o conceito caro de “cidadania” que há anos vinha trabalhando em múltiplas frentes evoluiu para a noção de “florestania”. No regresso à Europa, a reformulação viajou comigo e de imediato, antes até dos seus nexos e sentidos, a palavra começou a suscitar estranheza e curiosidade, sempre que a mencionava, incorporada que por essa altura ela já se encontrava na minha reflexão e, consequentemente, discursividade inerente. Desde então, muitos são os que me vêm perguntando pelo seu significado e extensão. Em qualquer tentativa de aproximação e partilha, não consigo nunca evitar a menção ao Acre e aos acreanos, meus digníssimos e sábios transmissores desse legado que é chave valorosíssima de compreensão da vida e dos seus viventes. Sem nem me dar muito bem conta, dou comigo a falar-lhes desse Estado brasileiro, berço de revolucionários e independentes, pouco dados a baixar a crista, alérgicos enérgicos a qualquer forma de opressão, terra fermentada de líderes e heróis com sangue na guelra. Acredito sinceramente que todos ganharíamos profundamente em conhecer a História do Estado do Acre e das suas gentes. Nesse sentido, deixo um conjunto de pequenas peças de vídeo, desenvolvidas pela Biblioteca da Floresta Marina Silva. Entenda cada uma como uma pista, como um levantar de uma pontinha do véu que abre ao labirínto da compreensão. Assista que vale a pena.
Amanhecer numa rua tupinambarana
Junho 30, 2008 in Fotografando os Dias, Minha Metade Tupinambá, Rasgos e Repentistas | Leave a comment

Por diversas vezes fiz reparo em como é semelhante a luz de certas horas, com esta ‘tal’ luz de Lisboa que, desde séculos, tanta tela tem inspirado e tanta tinta tem feito correr à pena. Não acontece sempre, visto que a ilha bóia no Amazonas e, como toda a região, ela é por natureza e condição exuberante e berrante muito para lá dos cânones das circunspectas Europas temperadas. É só em certas horas, sim. O suficiente, todavia, para me saciar amplamente qualquer resquício de saudade alfacinha que sobrar pudesse. Suponho ser também por isso que não me lembro de em alguma ocasião lhe ter sentido a falta. Ou das suas gentes. O que vem a dar no mesmo.
Como me disse uma vez um caboclo, lá para as bandas do mercado à beira rio, “o peito da gente faz morada onde o coração se sente em casa“. E eu, então, lembrei-me de Shakespeare, que gostava de escrever máximas, mas tinha por costume escondê-las na boca de cena, disfarçadas de fala de gente:
Quando o ancoradouro se torna amargo, a felicidade vai aportar em outro lugar.
* foto de Renato Stockler
Chegando
Junho 26, 2008 in Minha Metade Tupinambá | Leave a comment
É quase assim. O barcos de linha transformados num arraial em festa, enquanto seguem com a correnteza. Até que uma hora, quase sempre ao amanhecer, o lombo fino da terra se descobre na rebaixa das águas fora da estação das chuvas. Linha vaga de chão firme, encostada ao corpo barrento do caudal, como se o casario boiasse junto com os ramos e galhos, na levada. Perpendicular imaginária, perceptível apenas pelos sentidos, desenhada a cada aportar entre a proa e a margem e que, no desvio, suspende a embarcação ao bico do horizonte infinito. Sim, é quase assim. Se não do mesmo jeito, de um jeito igual, troando a sirene para saudar quem já chegou… os restantes barcos aportados, o ancoradoro saudoso, as amarras do cais em guarda paciente, na resseca do cordame tisnado sob o sol e os salpicos salobros ventados do rio, durante a ausência… a sirene apitando exuberante, quase impúdica, diante da quietude da manhã que mal alvoreceu… chamando ao porto as gentes estremunhadas do povoado, com seus tabuleiros de banana frita, suas cestas de tucumã doirado, suas arcas carregadas de ‘botellas’ de água mineral dormindo entre gelo picado… O povo todo se arrimando à amurada, dentro do barco, mão em pala sobre a vista, buscando parentes e familiares no passadiço da doca lodacenta, enrolando a rede dependurada ao gancho, durante a viagem, juntando tralhas e tarecos no convés, na pressa de desembarcar. Sim, é quase assim. Um gosto simples de felicidade indizível, compreensível apenas por quantos sabem o que seja fazer o caminho das estradas d’água. Uma felicidade só, eu repito. Uma imensa felicidade simples, essa que aqui deixo.
“Diário de uma viagem ao Amazonas”
Junho 11, 2008 in Minha Metade Tupinambá | Tags: Amazónia, desenhos, diários, ilustração | Leave a comment

Sempre que possível, alocarei aqui registos e outros relatos que falem da Amazônia e permitam partilhar, através de um outro testemunho que não apenas o meu, as vivências experienciadas naquela região. Que o legado dessa terra, os conhecimentos e heranças dos seus povos repasse para os que nunca tiveram a felicidade de por lá andarem, através das narrativas, lendas, conversas, prosas e confabulados que a Grande Floresta inspira aos que, por alguma razão ou em algum momento, aconteceram de enterrar os tornozelos nas terras barrentas da civilização das águas e das matas verdes
O primeiro desses relatos segue já aqui em baixo. Clicando no link, abre o Diário de uma viagem ao Amazonas, por José Cláudio, pintor e rabiscador de letras, a morar em Olinda. As passagens reproduzidas constam do caderno de anotações onde escrevia em 1975 e foram publicadas no suplemento de cultura do Diário Oficial do Estado de Pernambuco, durante Abril do ano passado.
Carauari do Juruá
Junho 9, 2008 in Minha Metade Tupinambá | Tags: Barbosa Rodrigues, Canamaris, Carauari, Catuquinas, Muiraquitã, rio Juruá | Leave a comment

O município de Carauari é banhado pelo rio Juruá, considerado o mais sinuoso do mundo. É também um dos mais belos cursos d´água da região Amazônica. As suas margens apresentam aspecto selvático e atraente.
A cidade de Carauari está localizada na margem esquerda do rio Juruá, em terreno bastante elevado e acidentado, mas não deixa de ser uma bela terra firme. O porto é franco, porém a ribanceira íngreme, vem-se desmoronando com os anos, devido ao movimento impetuoso das águas do rio Juruá, que ali batem fortemente.
A denominação do município teve, aliás, origem no lago “Carauari”, que fica próximo à sede do município e se liga por um canal ao rio Juruá, que era habitado primitivamente pelos índios Canamaris e Catuquinas, entre outros.
A palavra é composta por “Cará” variedade de tubérculo comestível; e “Uari”, verbo cair, que entra na formação da palavra como oxítono Uari, Cará-Uári ou Cará-Uari “cará” que cai. Carauari, assim vem a ser uma variedade de trepadeira que produz tubérculos nos ramos, onde se desenvolvem, amadurecem e depois caem. Esses tubérculos são muito conhecidos pelo nome “Cará do Céu”.
Quando da primeira denominação, esta terra dizia-se “Xibauá”, que é o nome de uma ave da família dos xexéus. Também pode ser analisada a partir da decomposição da palavra em “Xiba”, que significa dança ao som dos tambores, ou de uma espécie de batuque usado pelos negros e índios; e “ua”, forma contrátil de “iua”, que significa braço. É daqui que se deduz que xibauá significa o braço ou batuque ou baqueta com que se toca o tambor. A palavra Carauari, é originária da língua geral ou nheengatu.
A polpa do cará do céu é de sabor adocicado, dando à mastigação uma impressão de uma substância arenosa. Estudando a palavra, buscando a raiz ou radical da palavra Cará, como ensina Barbosa Rodrigues no seu precioso “Muiraquitã”, verificamos que este radica em origem asiática, tão frequente nos termos indígenas, significando poderoso, superior, soberano, como o branco invasor do novo continente; e em Uari ou Uári, formando a palavra arauari, que assim sendo quereria dizer: – queda do poderoso.
Macacos-uacaris
Junho 8, 2008 in Minha Metade Tupinambá | Tags: uacaris | Leave a comment

A propósito do post anterior, ocorreu-me aproveitar para acrescentar que, além de nome de município, uacari também é o nome de uma espécie primata. São macacos diurnos e arborícolas do gênero Cacajao, que pertence à família dos cebídeos. Apesar de ameaçados de extinção, ainda podem ser encontrados nas florestas alagadas da Amazônia. Distinguem-se pelo tamanho da cauda, menor que o comprimento do corpo, e pela ausência de pelos na região da cara. Existem em dois tipos: o uacari-preto e uacari-branco.
De que são feitos os nossos móveis, você já se perguntou?
Junho 8, 2008 in Minha Metade Tupinambá | Leave a comment

Voltando ao Meirelles e aos seus relatos do que acontece nas entranhas da Floresta, nesses fundos onde quase ninguém chega e dos quais ninguém parece querer saber, e onde só muito poucos se dispõem a trabalhar.
Para que os europeus ou japoneses tenham seus móveis de madeira nobre e para que os norte-americanos enterrem seus mortos em caixões de mogno, uma das regiões mais belas e de maior biodiversidade da Amazônia se tornou violenta. Índios matam índios e a paz é uma lembrança distante. Naquela região estão as cabeceiras dos grandes tributários do Amazonas, os rios Juruá, Purus e Madeira (no Peru e Bolívia), nas terras firmes, que eram reservas intocadas até bem pouco tempo.
Senhor Europeu, embutido em seu lindo móvel de mogno estão vários índios mortos.
Senhor Japonês, em sua linda casa de madeira-de-lei vagam fantasmas de povos isolados que morreram sem saber o porquê.
Senhor Norte-americano, em seu caixão de mogno, além do cadáver do seu querido familiar, estão sendo enterrados juntos outros tantos, de povos que não sabem da sua existência.
Quem sabe se a gente deixar de considerar “chic” um móvel de mogno, de imburana, de ipê, de cedro rosa… Deixar de fazer varandas com esteios de maçaranduba e não se escandalizar com uma mesa de plástico, um pedaço considerável da Amazônia ainda possa ser preservado e os índios que restaram possam recolher os sobreviventes, refazer suas vidas e ser de novo um povo feliz.
por Meirelles
Nas cabeceiras dos rios Juruá, Purus e Envira, na fronteira amazónica do Brasil com o Peru, quase todas as comunidades indígenas vivem da exploração da madeira para suprir o desamparo a que o Estado peruano as vota. Para quem não sabe – e acontece que basta atravessar o Atlântico para a realidade amazónica se tornar chinês para o comum dos cidadãos – a necessidade de demarcar áreas florestais protegidas, arrastou consigo um flagelo com proporções gigantescas: a proliferação de madeireiras ilegais na região. A entrega da exploração e manejo às comunidades indígenas, leva à criação de acordos duvidosos com as mesmas, em troca da tão desejada madeira. Os madeireiros atropelam os mais elementares direitos humanos para sacar a madeira dos índios e deitam mão a inúmeras perversidades outras, como por exemplo, armar as comunidades indígenas com as quais estabeleceram contacto e negoceiam acordos, instigando-as a devassar as terras de outras comunidades vizinhas pela força, usurpando parcelas de floresta que já não estariam sob a sua alçada, ampliando assim a fonte de matéria prima. Em outras palavras, os índios estão a voltar-se contra índios, seja para defenderem os seus direitos e propriedades, seja na ânsia de vender as árvores abatidas aos brancos das madeireiras ilegais, em troca de sustento e protecção. O clima de intimidação cresce e toda a região se tornou um cenário de violência, chantagem e corrupção, onde, por falta de policiamento ou protecção eficaz, a vida humana tem valor zero. Mata-se e morre-se porque se é mais forte ou mais bem armado. Mata-se e morre-se porque sim, nessa terra de ninguém que, ironicamente, todos tanto almejam e cobiçam.
Aqui na Europa, não há noção da dimensão e da morfologia da região de que estamos a falar. É tudo imenso e vasto demais. O calor e a humidade, fazem do clima um inferno tropical onde muito poucos se dispõem a viver. A ausência de conforto e estruturas civilizacionais onde torrar o salário, faz com que, nem pagos a peso de ouro, funcionários de Estado, polícias e outras instituições se disponham a aceitar colocação por aquelas bandas. Como eu disse, poucos são os que se disponibilizam a trabalhar por lá. Na certeza quotidiana da ausência de controlo e suporte eficaz, reina o desmando e a impunidade. Ninguém para ver, ninguém a quem prestar contas. Paraíso da força bruta, onde o medo impera e a resistência se torna fina haste, incapaz de afrontar a tirania dos poderes ilegais.
Quem caminha por aquelas bandas, vê o chão minado de trilhos e estradas improvisadas ao pó barrento e avermelhado. Vê
o trânsito impressionante dos camiões carregados de troncos ceifados sem dó, nem piedade, nem lei. Na maioria das vezes, esses veículos usados para o transporte de madeira são velhos, caindo aos pedaços e não têm sequer matrícula ou placas de identificação. Se forem interceptados pela polícia, os veículos velhos podem ser apreendidos sem grande prejuízo dos proprietários e, mais importante do que isso, não conduzem as autoridades à identificação do madeireiro ilegal responsável pelo abate da carga que transporta.
Como muito bem recorda Meirelles, o drama é que continuam a existir circuitos de escoamento e gente disposta a aceitar a madeira ilegal. Aqui, por terras lusas, que são portão à cabeça para a Velha Europa, vou como posso unindo as armas de que disponho ao esforço comum a mais alguns e lutando para fomentar uma consciência outra, por forma a que a certificação da madeira importada se torne requisito prioritário a qualquer negócio. Escrevo sobre o assunto, converso, apelo, esclareço e tento não perder uma oportunidade para fundear a semente dessa convicção urgente ao mundo, aquém e além Amazónia. No mais, resta-me a confiança que ainda e sempre deposito na força motriz das palavras e no seu poder para desencadear mudanças visíveis, impulsionadoras de outros e novos ventos.
Denoto, nos últimos quatro anos, que – embora ténue e descontínua – alguma coisa mudou por cá. Mais que não seja na receptividade para um discurso e pensar com vocação verde. Ainda que não pelos mais meritórios motivos e argumentos, o facto é que principia a haver espaço em página nos media para abordar estas questões, coisa que até à bem pouco tempo não havia. Não faz muito tempo, as respostas que obtia eram as de que “caridade ambiental” não vende jornais, que jornais são empresas, que empresas são feitas para dar lucro e que para darem lucro precisam de colocar nas páginas conteúdos que garantam o interesse das pessoas pelo jornal. Subsumia-se daqui a inferência vedada à discussão da premissa, dada por adquirida, de que os temas da terra, do ar e da água desse Planeta que é a nossa casa não eram susceptíveis de interessar às pessoas que a habitam. Como se fosse possível!
Entretanto, obra de artistas, voluntários, carolas e outras personagens, eventualmente de intenções mais escusas (seja!), os temas do ambiente, da Natureza e do Planeta, vieram para a ribalta da grande ordem mundial, gerando ondas avassaladoras de mobilização, através de eventos alargados à escala internacional. Com essa realidade “espantosa” tiveram o mérito de acordar as empresas, as marcas e, por conseguinte, as medias (visto que jornais são empresas, etc, etc, etc…!) para a questão. Como disse, senão pelas razões certas, pelo menos movidas pelo interesse promocional que a sua associação a iniciativas de responsabilidade social e ecológica lhes poderia render.
Foi mais uma lição, no regresso à selva urbana, para a qual me foi muito útil a experiência entre as comunidades indígenas contactadas: trata-se, antes de qualquer outra coisa, de aprender a falar a mesma língua. E aqui, no caso, essa tribo fala com o sotaque do lucro. Pois bem, se houver que ser por aí, que se lhes apresente a urgência da peleja apelando para a única linguagem que conhecessem: mostrar que podem tirar dividendos e que a defesa do ambiente pode lhes render algo em troca. A começar pela imagem e percepção favorável por parte do público, coisa com que, sendo “antes de tudo o mais” uma marca, toda a media se importa. Afinal de contas, há árvores que se abatem e tombam, por cada página impressa aos seus jornais. Há turbilhões de papel inútil a amontoar-se em lixo nas esquinas das ruas, entre a hora em que aquele jornal já foi lido e o próximo ainda não saiu das rotativas. As pessoas não são burras e (pasme-se!) conseguem chegar a essa conclusão sozinhas, pelo que, mais tarde ou mais cedo, o seu dedo crítico pode erguer-se acusador na direcção das medias.
Não deixa, contudo, de ser impressionante a incapacidade de, por si própria, a media ter sido incapaz de antecipar a pertinência do tema e de gerar este raciocínio, de ter necessitado do empurrão das massas, de ver o folclore mundial provocado em torno das reuniões do COP3, do Forum Social Mundial, do Live Earth e outros que tais, para despertar do seu sono letárgico e contribuir com qualquer coisa, mais que não fosse um espaço de rodapé onde alocar alguma notícia sobre algo grave que se revelava urgente informar o mundo. Hoje, pelo menos, sugerir um assunto ambiental já não é motivo de chacota nas redacções, nem pretexto para nota negativa por parte das administrações, sempre que se trata de avaliar a lucidez editorial de cada um, com vista a alguma promoção que, entretanto, tenha calhado vagar na ficha técnica.
A esta nuance da coisa, ainda hei-de voltar um destes dias. É que , se num primeiro momento, fiquei feliz por constatar que se principiara a rasgar espaço na media para o tema, hoje em dia vejo com algum alarme que tal suceda, mas não pelos motivos por que devia ocorrer. Dizem que o ser humano é insatisfeito por natureza. Pois bem, talvez seja essa a razão da minha insatisfação. Não obstante, confesso sim, a minha apreensão por ver a media esverdear-se progressivamente, mas não exactamente pelas razões, motivos e convicções que gostaria de nela reconhecer. Mas como eu disse, a este aspecto, voltarei um destes dias. Breve, seguramente. Que espinha entalada na garganta, sufoca e mata.
Por ora, e à entrada de uma semana recheada de feriados e pontes, deixo apenas as palavras de Meirelles. Não vá dar-se o caso de tencionar passar esses dias de liberdade passeando nos corredores do Ikea e demais shoppings, pois é certo e sabido que, a tendência geral dos portugueses é correr para lá sempre que o calendário abre uma brecha à folga e prolonga os fins-de-semana. Nada contra, embora também nada a favor. Somente creio existirem lugares bem mais saudáveis para acolher o tempo livre que cada vez mais nos rareia a todos. Contudo, se fizer muita questão e estiver a planear zanzar por lá, por favor, além da criançada, da sogra, do gato e do papagaio, pense no que leu nesse post e leve dentro da metade esquerda do peito o apelo de Meirelles. Ademais, espaço é bom e deixá-lo amplo traz largueza ao espírito. As leis da física estão aí e já nos elucidaram do essencial: é impossível encher aquilo que já se encontra cheio e atascado. Não entra mais nada. Nem mesmo felicidade extra. Portanto, pense duas vezes antes de entupir a casa com mais móveis e, sobretudo, evite os que são de madeira, especialmente se não for certificada.
Mais uma mesa ou uma cadeira na sua vida não valem o sangue dos índios mortos que corre na seiva dessa madeira. Não queira que, durante a noite, no seu apartamento, lindo, translumbrante e cheio como um ovo, se escute o rumor longínquo dos lamentos moribundos dos povos da floresta que deram a vida e o chão por essa madeira tão lustrosa e luzidia onde você planeia sentar as suas visitas.
* Foto da Sue: São Félix do Xingu, no Pará, evoluiu rapidamente com a instalação na região de grandes madeireiras. Deixou de ser o simples vilarejo de poucas casas, da década de 50, para se tornar uma cidade vibrante de ‘modernidades’.
Lá pras bandas do Paralelo 10
Junho 7, 2008 in Minha Metade Tupinambá | Leave a comment

No dia 2 de Setembro do ano passado, Altino conversava longamente com o sertanista José Carlos dos Reis Meirelles Júnior, à sombra de uma mangueira, no quintal da sua casa.
O sertanista coordena há 20 anos a Frente de Protecção Etno-Ambiental do Alto Rio Envira, na fronteira do Brasil com o Peru. A conversa girava em torno «da situação dos índios isolados, perseguidos por outros índios a mando dos madeireiros peruanos, que invadem o território brasileiro para retirar mogno numa das regiões mais inóspitas do Planeta».
Na foto, Meirelles fica perto de uma árvore impressionante, como as muitas com que me deparei na Amazónia. No caso trata-se de um mogno. A imponência dessas obras da Natureza é absolutamente abissal. Junto delas, tem-se a exacta noção da nossa dimensão no compto maior do Planeta e a reverência é impossível de evitar. Mesmo sabendo da ganância e da cobiça que pulula onde quer que a humanidade esteja, muitas vezes me perguntei como é possível, diante de tamanha beleza, haver coração capaz de a derrubar por terra. E muitas vezes, também, dei comigo a desejar que a floresta se cerrasse e emaranhasse o suficiente para se defender, por si própria, de tudo quanto nós somos impotentes de a proteger. Muitas e muitas vezes dei comigo a pensar que talvez tivesse preferido nunca a Floresta me ter permitido chegar perto e testemunhar as raridades e belezas que possui, que as tivesse engolido na densidade da mata e ocultado bem embrenhadas nas suas entranhas, como um feto que não é ainda hora de consentir que veja a luz do dia. Seria, pelo menos, uma salvaguarda de garantia que outros jamais chegariam perto para a ameaçar. É por isso que entendo como extremamente familiar que, a propósito da descoberta de um mogno gigante, faz algum tempo, Meirelles tenha confessado ao Altino:
Este é o objecto da cobiça de qualquer madeireiro. Um velho senhor mogno, das cabeceiras do Envira, perto da fronteira com o Peru, onde existe a maior reserva de mogno do Planeta. Uma árvore dessa vale um belo carro. Eu a encontrei durante uma viagem na companhia de meu filho Arthur, quando passamos bem pertinho da maloca dos índios que estão se mudando do Peru para o Brasil, no paralelo 10 graus. Tomara que os peruanos nunca encontrem aquele senhor mogno.
Coração do Brasil no coração de Brasília
Junho 7, 2008 in Minha Metade Tupinambá | 1 comment

Dia 6 de Junho, dentro das comemorações do Dia Mundial do Meio Ambiente, chegou a Brasília a mostra fotográfica de Sue Cunningham já exposta, durante o ano passado, na Europa. A exposição é uma aventura fotográfica vivida pelo casal Sue e Patrick Cunningham, que durante quatro meses percorreu 2,7 mil km do rio Xingu, visitou 48 aldeias e 18 etnias, numa expedição que se chamou ‘Coração do Brasil’. A exposição está no Memorial dos Povos Indígenas, em Brasília. Mais de cem fotos espectaculares que mostram a vitalidade e vibração da cultura indígena do Rio Xingu num tempo de grandes desafios e mudanças.
A exibição mostra uma cultura forte e viva, mas que está sob a pressão da cultura principal que a envolve e que arrasta consigo multidões cada vez mais próximas. Por meio século, as tribos indígenas da parte superior do Xingu, foram protegidas de muitos dos problemas que as tribos em outras partes de Brasil – e em outros países – se viram forçadas a enfrentar. A protecção benevolente concedida pelos Irmãos Villas-Boas e a sua equipa, permitiram a essas tribos um espaço para respirar antes de serem expostos à sociedade caraíba (não índios).
As imagens dos agentes indígenas de saúde e dos professores indígenas, que trabalham em escolas da aldeia, mostram um investimento no futuro, dando às comunidades as ferramentas que necessitam para resistir à erosão das suas culturas e deterioração de seu estilo de vida. No entanto, outras imagens mostram a destruição da Floresta Amazónica, até os limites das reservas, e a poluição da água do rio.
Sue Cunningham sente que é importante mostrar o carácter real das vilas dessas tribos como uma cultura viva. “Estes povos não são algum anacronismo da Idade da Pedra,” diz. “São pessoas do Século 21 cujos valores e prioridades são diferentes das pessoas da corrente principal. Enquanto parecemos inclinados a destruir toda a beleza e vitalidade naturais do Xingu em nome do progresso, eles estão satisfeitos por viver com a natureza, usando somente coisas externas que os ajudaram a manter sua ligação com a terra, a água e o céu. Nós temos muito que aprender com este povo que compreende a verdadeira alma da Amazónia. Apesar de tudo, são os primeiros brasileiros.”
Sue não vê nada estranho nas coisas que os indígenas usam. É um povo altamente adaptável, pronto para fazer uso das tecnologias que melhorarão as suas vidas, tanto de uma maneira prática, como para fortalecer a sua própria cultura. Hoje, há equipas nas aldeias dessas tribos, capazes de produzir vídeos bem feitos e editados. Mesmo assim, a sua vida quotidiana continua completamente conforme à dos seus antepassados, que habitaram a região há quarenta mil anos.
via Folha do Meio Ambiente
Deixa passar
Maio 26, 2008 in Minha Metade Tupinambá | Leave a comment

Foto de Val Fernandes – Seringueiro ( Xapuri 2008 )
Descobriram os “Índios Invisíveis”
Maio 25, 2008 in Minha Metade Tupinambá | Leave a comment
A teima do sertanista José Carlos dos Reis Meireilles Júnior, coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental mantida pela Funai no Rio Envira, resultou nas primeiras imagens que provam ao mundo a existência dos chamados “Índios Invisíveis”, uma das quatro tribos que se supõem existir no Estado do Acre. As mais de mil fotos foram tiradas junto ao igarapé Santa Rosa, no município de Santa Rosa do Purus, no limite da fronteira entre o Brasil e o Peru. Segundo relata Altino Machado, «as águas do Alto Purus atravessam a fronteira internacional, vindas de território peruano, e entram no Brasil pouco acima de Santa Rosa. Índios isolados vivem e andam em ambas margens do Alto Purus peruano. Na margem direita, esses índios, conhecidos como Masko, percorrem as cabeceiras do Rio Iaco, na Terra Indígena Mamoadate. Do outro lado da fronteira está situado Puerto Esperanza, que é uma guarnição do Exército peruano».
Além de Meirelles, participaram da expedição o fotógrafo Gleilson Miranda e o cineasta Pedro Devanir, ambos da Secretaria de Comunicação do Governo do Acre e o piloto Jairo.
Após quase 20 horas num avião monomotor, o sertanista José Carlos dos Reis Meirelles Júnior, coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental da Funai, comandou um sobrevôo que resultou nas primeiras fotografias dos índios de uma das quatro etnias isoladas que vivem na fronteira do Acre com o Peru. As mulheres e suas crianças fugiram para a floresta em busca de protecção, enquanto os guerreiros da tribo se posicionaram e reagiram atirando flechas no avião.relato de Altino Machado publicado no Terra Magazine
Assim: « … como faz o mar!»
Julho 8, 2007 in Minha Metade Tupinambá | Leave a comment

Autor desconhecido – Na Senda da Senhora do Mar
Garimpeira da beleza te achei na beira de você me achar
Me agarra na cintura, me segura e jura que não vai soltar
E vem me bebendo toda, me deixando tonta de tanto prazer
Navegando nos meus seios, mar partindo ao meio, não vou esquecer.
Eu que não sei quase nada do mar descobri que não sei nada de mim
Clara noite rara nos levando além da arrebentação
Já não tenho medo de saber quem somos na escuridão
Clara noite rara nos levando além da arrebentação
Já não tenho medo de saber quem somos na escuridão
Me agarrei em seus cabelos, sua boca quente pra não me afogar
Tua língua correnteza lambe minhas pernas como faz o mar
E vem me bebendo toda me deixando tonta de tanto prazer
Navegando nos meus seios, mar partindo ao meio, não vou esquecer
Eu que não sei quase nada do mar descobri que não sei nada de mim
Maria Bethânia – “Eu Que Não Sei Nada do Mar“
«I want you to know one thing»
Julho 6, 2007 in Minha Metade Tupinambá | Leave a comment
I want you to know one thing.
You know how this is:
if I look
at the crystal moon, at the red branch
of the slow autumn at my window,
if I touch
near the fire
the impalpable ash
or the wrinkled body of the log,
everything carries me to you,
as if everything that exists:
aromas, light, metals,
were little boats that sail
toward those isles of yours that wait for me.
Well, now,
if little by little you stop loving me
I shall stop loving you little by little.
If suddenly
you forget me
do not look for me,
for I shall already have forgotten you.
If you think it long and mad,
the wind of banners
that passes through my life,
and you decide
to leave me at the shore
of the heart where I have roots,
remember
that on that day,
at that hour,
I shall lift my arms
and my roots will set off
to seek another land.
But
if each day,
each hour,
you feel that you are destined for me
with implacable sweetness,
if each day a flower
climbs up to your lips to seek me,
ah my love, ah my own,
in me all that fire is repeated,
in me nothing is extinguished or forgotten,
my love feeds on your love, beloved,
and as long as you live it will be in your arms
without leaving mine.
Pablo Neruda – “If You Forget Me“
Cross My Heart
Julho 2, 2007 in Minha Metade Tupinambá | Leave a comment
Definições
Junho 29, 2007 in Minha Metade Tupinambá | Leave a comment










