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Amas as putas e o mar salgado, a preguiça e a liberdade. Comes formigas e vês beleza onde quer que o vago assomo da arte te atravesse a retina. Pulsas a baixo da vergonha e sopras para dentro da minha boca os teus desvarios fantásticos de homem-peixe, homem-rã. Picas como o sol e como as flores, espinho de urtiga doce cravado ao de leve onde as coxas se abrem sozinhas, sem precisarem de uma ordem mais firme que a surpresa sorridente dos inesperados previstos pela razão lógica do universo. Cais na água. Cais da água. Cais à água como água. E depois regressas assim, com os punhos fincados no areal da rebentação, e uma benção maior a colocar-te dentro das mãos tesouros e talismãs que depositas por cima do meu ventre como uma oferenda sagrada. Sem saber que todas as pedras e conchas do fundo que me trazes estavam já previstas – a mim como a ti – rente ao começo das eras. Quando tu já eras homem e eu ainda não era nada.
Duplicar. Ter dois mundos, duas camas, duas vidas. Ser dois o chão. Ser a dois. Ser de dois o chão. Haver terra e haver mar. Haver paraíso para lá do ermo estéril do Inferno. Haver vida dentro da vida. Pulsar. Cambiar. Combinar. Ter uma terra outra por cima da terra, uma nação nova dentro do mesmo país. Experimentar um tempo outro por cima do tempo deles. Sobrepor a pele sobre a pele. Ser selvagem, primária, primitiva. Ser primeira. Ser por detrás do betão, das muralhas, das couraças e do asfalto da selva de pedra deles, que nunca será cidade farta para os iguais a nós. Saber dos recantos, dos mistérios e dos segredos. Aprender os caminhos de ninguém, que levam aos pedaços ainda a salvo. Onde a natureza se mantém conforme ao que era para ser e os primórdios nos uivam com a mesma intensidade das nossas bocas cruzadas à espuma. Com o mar em fundo e um pôr-do-sol desenhado só para nós. Ser bicho simples, suculento como as ervas, poroso como as areias. Estender a nudez aos dias. Dentro e fora de casa. Casa. A casa. A minha e a tua casa. Seja onde for. Onde quer que seja que ela nos aconteça ou apeteça. Ser maior que as horas. Dizer que não ao tempo. E ganhar em dobro tudo o que eles teimam em nos recusar pela metade.
I’d rather be an outlaw than be eaten by the system
Fechar os olhos e confiar-te como num Deus. Abrir-te os sentidos e saber que falas como um rei.

A cada vez que a gente se consente não ser mais do que em realidade é, qualquer coisa vem para nos namorar. Vem e traz consigo a esquecida doçura dos gestos belos e pequenos, o encanto longínquo dos ímpetos genuínos e simples. E, então, a gente senta-se numa sombra fresca diante de um prato de figos colhidos no quintal, ou entretém-se a costurar pedras num fio cru, enquanto se vai deitando a adivinhar-lhes a idade pelo toque. E à noite, envolve-se numa labareda de cores, atravessa a praça e fica só a respirar o cheiro a sal que o luar traz do mar, num banquinho manco que destrava a língua às histórias, como acontece com as crianças, para quem as conversas são como as cerejas: uma gula vermelha a deixar a boca tingida de sumo que dá de lambuzar a voz da gente e a torna música ao ouvido alheio. E, quando a gente vê e se dá conta, em poucos dias muitos milagres se operaram sem saber. Rejuvenescem-se décadas por cima do que éramos. Por fora tudo se alisa, por dentro tudo se amacia. E a vida volta, enfim, a ser boa no tempo que guarda para nós.

She had been writing, you see. Travel writing. She had been scribbling: oh, this and that, yes, this and that. She had just finished working on the adventures Marrakech chapter. But there was more. You see, she wrote Moroccan feature stories and some not-so-feature-stories-but-nice-anyway stories. And the editors put up with her quirky writing style. And then they sent her the magazines with her articles, all fresh and new, and smelling like clean in big manila envelopes in the mail.
Uma linha de caligrafia. Um insondável vermelho-terra a traçar um rasto efémero, do indicador ao cotovelo. Qualquer coisa bela ao olho, ainda que aldrabada numa henna menos pura, mais diluída, menos chão, mais solvente. Cinco minutos para rebordar, o tempo que fôr até secar. Pouco importa. Está feito. Aconteceu sobre o nervo mais doce da pele. Tingimentos que agarram uma qualquer parte da alma e do peito ali mesmo, onde menos se espera. Numa ruga de falange, numa dobra à superfície. Tatuagens boas de guardar só enquanto duram.
Se eu pudesse, erguia uma igrejinha azul em teu nome. Não precisava de ser muito grande, que o amor não se mede aos palmos e as obras dos humanos também não. Mas erguia-te um torreão, sim, onde os ponteiros marcassem sempre meio-dia. E dava às andorinhas o canto do teu primeiro choro e aos corvos uma pressa de asa igual à tua, que precipitaste a voz ao mundo antes dele te dar sinal e chegaste assim, a elevar a vontade acima das ordens e a acertar na hora certa em que planetas, astros, bissectrizes e luz solar se desenham num ângulo perfeito que nos dispensa às leis e às supérfulas matemáticas que inventamos por nos faltar a certeza e duvidarmos dos sentidos, como de todas as verdades primeiras. Só porque nos chegam como presságios e nos assustamos por demais. Como nos habituámos a fazer com tudo o que os olhos não vêem e só a pele da alma sente. Erguia, sim, uma igrejinha azul com um torreão onde os ponteiros marcassem sempre meio-dia, que é quando o dia explode com mais ganas e o pico da noite lhe corresponde num avesso exacto. Só para que quando o sol fosse a pique, em Julho, neste dia, mesmo que nenhuma de nós ainda por cá andasse, houvesse um sinal nosso sobre a face da terra e ninguém tivesse nunca mais que se perguntar, que inesperado milagre foi este que demos à luz a rir, como se o mundo fosse limpo. Juntas, como se nenhuma dor mais traiçoeira o manchasse. Mas pintava-a de azul, sim. Perdoa-me. Pintava-a a um azul suave como a água em dias de céu claro. Como vi nas margens do rio da minha vida, nessa margem distante da terra te dei por berço e aqui me há-de prender como um grilhão, uma âncora, um ferro, um espeto, sim. Como qualquer coisa que me dói e me magoa, sim. Enquanto tu fores viva e existires. Porque nenhum destino é maior que o ventre, nem nenhum outro instinto mais afiado que este que me escora a ti, minha gaiola doirada de portas abertas, que ao chegar me ofereceste a maior liberdade que se pode desejar em vida: a de saber que, por mais voltas que o mundo dê e mais descasos e desvarios que rodem à roda, nunca mais se há-de estar inteiramente só. Abençoada, eu. Por tua causa. Abençoada, tu. Por meu amor.
Parabéns, Minha Pequena Cria Crescida!
Ass: a mãe

Quando pela primeira vez ficámos de frente, Cria Minha, fiz-te alguns votos, sim. Não muitos. Apenas os que no momento me assaltaram a franqueza. Depois dei-me por satisfeita, confesso, por acreditar que nesses que me subiram ao pensamento estariam seguramente os que te poderiam ser mais essenciais. Depois, roguei por dentro e em segredo para que Deus cuidasse de te fadar a alguma arte. Qualquer que ela fosse. Para que tivesses sempre contigo o único antídoto capaz de destilar os nódulos que, por essa altura, eu já sabia que a vida também tem. E como não me era de crer que te poupasse inteiramente a eles, por não ser seu hábito alisar o caminho de ninguém, supus que era o máximo que me restava fazer, tendo em conta que nem sempre estarei por perto, nem tudo poderei resolver e, seguramente, por maior e mais forte o amor irredutível que te devote, nem de tudo serei capaz de te suprimir ou proteger.
Assim, confesso que quando te vi repetir esse gesto de pegar em telas e pincéis, qualquer coisa em mim se aquietou um pouco. Como se alastrou igualmente nas minhas entranhas um certo alívio, no instante em que o drama e as suas tragicomédias te fizeram tactear sozinha e por instinto no rumo dos bastidores e do mundo vasto que se esconde por detrás das cortinas.

Espero, Cria Minha Adorada, que saibas agora dar bom uso a essas artes que te atendem e que elas te sirvam, Meu Anjo Amado, para reparar cada joelho raspado, cada gomo ferido à asa, cada laivo em ti talhado pelos males e tristezas do mundo. E sempre que a minha mão, por um motivo ou por outro, se soltar da tua, que por favor te recordes que há algo que trazes sempre contigo e de que és capaz, e que a isso te agarres, Anjo Meu Adorado, Cria Minha Muito Amada, com força igual à daquilo que doer te possa. E que isso seja tudo quanto necessites. Que te reconcilies, pois, com as mordidas amargas da vida, abocanhando a tua arte e destilando através dela qualquer coisa outra que efectivamente valha a pena deixar cuspido em redor, quando o sangue estanca.
Àmen!
Ass: A mãe

Pegue de novo seu chapéu de buriti cozido de tanto sol tomado cru, que na alvorada hoje amanhecida voltaram a troar tambores e os dedos burilam já sobre novos mapas e azimutes. Prepare seus costados de bandeirante. Cace sua camisa de linho ao cabide pregado atrás da porta e mande soar o berrante, para avisar que estamos de volta, apontando aos fios de água e aos atalhos da mata, onde bóia a grande flor que leva seu nome régio na contra-face dos espinhos. E de quebra, tire do baú aquele pano alvo de algodão a que conhece mil utilidades e funções. Desdobre-o. Estenda-o sobre o chão varrido. Depois pegue todas as jóias raras que andou coleccionando para mim entre as tribos. Procure-lhe o centro. Abra as suas duas mãos em cuía e, com o cuidado de sempre, coloque sobre ele sementes, conchas, contas, guizos e balangantãs, que meus pés andam de novo nus, como pediu que fosse, e breve, breve estarei lhe estendendo os tornozelos. E é preciso que outra vez sente no velho banco de pau queimado e, um a um, os tome no anelado círculo dos seus dedos, os pouse de mansinho sobre a coxa flectida, os feche, torneie, fortaleça, massage, adorne, proteja e prepare às caminhadas por vir. Que o chão é muito e vem já ali adiante.
* Fotos de Carlos L. Strauss

Quando a gente é criança, o mais próximo do trabalho é a escola e o mais próximo das angústias laborais que conhecemos é o quotidiano das obrigações escolares. Tive a sorte do meu colégio ser uma imensa quinta, a contornar um monte sobranceiro à cidade, por entre oliveiras e encostas, de onde se avistava a cidade numa panorâmica de 360º, do ir e vir dos cargueiros e gruas do cais, ao aterrar e descolar dos aviões em vôo rasante. Esse cenário era aliás uma constante, nas distracções de janela, mesmo por cima do ombro do professor e do rumor progressivamente distante da classe.
Tive, pois, a sorte de terem querido que, não obstante a necessidade da alfabetização, continuasse eu a poder respirar, a ter ar e espaço por onde me movimentar e terra farta em redor para sujar as mãos, nos intervalos dos deveres. Tive a sorte de, sendo da cidade, não o ser inteiramente, e crescer com os campos, a saber das espigas e das papoilas, do tamanho exacto das lagartixas, da baba do caracol e dos insondáveis mistérios das colmeias e dos casulos dos bichos-da-seda. Esse privilégio, eu creio que desde cedo soube reconhecer. Só não tinha ainda, todavia, como dar valor a outras metades da coisa, como por exemplo, a vantagem que é poder chorar ao ar livre quando me magoava nos joelhos da alma, ou correr fúrias pelos carreiros do arvoredo, nesses insanos instantes da vida em que o mundo se faz cruel e padrasto.
Porque muda tudo na vida da gente, quando se tem esse privilégio. Muda tudo. Especialmente nas horas mais agudas e ferinas. E nunca mais se é o mesmo, quando nos é dada a possibilidade de lamber feridas e dores numa amplitude maior que não a de um exíguo vão de janela num quarto de apartamento, encolhidos a um canto, com o tapete e a alcatifa a picar debaixo das nádegas, enrodilhados como uma fronha numa esquina de colchão, a ter que empoleirar os lamentos no segundo andar de um beliche partilhado. Essa noção só me veio muitos e muitos anos mais tarde. Talvez me tenha vindo só agora, no momento em que escrevo, para ser sincera. Ou, pelo menos, nunca antes havia me deitado a pensar sobre o assunto de forma organizada, ao ponto de concluir fosse o que fosse do detalhe. Reparando bem, faz toda a diferença, sim, os lugares onde cada um cresce e se habitua a ficar de frente com as suas tristezas, com as suas “pequenas tragédias e grotescos desgostos”.
Quando eu era criança e alguma coisa ia mal, escapulia-me de mansinho por alguma porta ou janela e corria a perder-me nos fundos da quinta. Tinha por hábito não correr, simplesmente caminhar ainda mais devarinho do que aprendera ou trazia no costume. Não sei, mas acho que já naquela época não fazia muito o meu género fugir a sete pés dos incómodos que certas dores e tristezas despejam sobre a nossa pele. E lá ia andando, andando, vagando ao acaso pelas minhas veredas preferidas, até me cansar. Então, parava, subia os olhos da caruma misturada ao chão com as folhas caídas dos eucaliptos e mirava em redor, até uma árvore qualquer se destacar das demais por uma qualquer inexplicável razão. E era nessa árvore que eu procurava arrego. Lembro com uma nitidez impressionante a vaga de conforto que me ia tomando aos poucos, depois que me abraçava ao seu tronco e as formigas que lhe percorriam a casca se transplantavam também para os meus dedos. Como se, sábias e mais avisadas do que eu, soubessem dessa verdade maior de que, eu e aquela árvore éramos uma só, em tratando-se do essencial que deve servir-nos de alimento e morada. A um tempo, entre a resina dela e uma ou outra lágrima por mim vertida, não havia mais qualquer diferença. Em bom rigor, eu não só podia ser, como era filha daquela árvore, que me acolhia no amparo do seu inabalável colo de mãe firme e fincada à terra, de onde nada que é genuinamente caro resvala o suficiente para se estatelar sozinho. Nessas horas, eu podia quase jurar que assistia, sem sombra de perplexidade, a um fenómeno único de simbiose mágica: que, um por um, perdia os dez dedos das mãos e ramos e galhos desabrochavam em seu lugar, que cada fio de cabelo meu ia verdejando, verdejando, até explodir folhagem, e, num ápice, tudo em mim ser da mesma transparência pura e vegetal daqueles seres grudados ao chão, incapazes de correr e sair do lugar, é certo, mas libertos por condição das obrigações da sala de aula e da imperiosidade de ter que vergar o dorso na direcção contrária aquela para onde o vento os sopra e as raizes os puxam. E o engraçado era que – perfeitamente o evoco e recordo – nesse processo de, lentamente, me tornar menos humana, nada parecia deixar-me saudades da humanidade de que me desprendia, ao ponto de sentir algum assomo de nostalgia com a metamorfose. É que nessas horas, eu acho, o dom da humanidade sempre me pareceu um presente envenenado por dentro, com jeitinho, para a gente só sentir depois de morder-lhes o licor.
Fosse como fosse, certo era que, no contacto do rosto com a superfície rugosa do tronco, o mundo ia fazendo a sua fotossíntese e os desaires, quaisquer que fossem, iam-se aquietando dentro do meu peito. Breve, breve, regressava a respirar e, por força de oxigénio novo voltando a correr nos pulmões, nada parecia mais ser tão sem jeito assim, tão sem remédio ou solução.
Não sei porque me lembro e falo sobre isto agora. Simplesmente não sei.
* Árvore encontrada e fotografada pelo André, na região do Alto Amazonas.







