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Entra Outubro e Rojanski coloca na tabuleta da entrada um novo escrito:

Gosto dos venenos mais lentos! Das bebidas mais fortes! Das drogas mais poderosas! Dos cafés mais amargos! Tenho um apetite voraz. E os delírios mais loucos. Você pode até me empurrar de um penhasco, que eu vou dizer: E daí? Eu adoro voar!
Clarice Lispector

Como se me adivinhasse. Como se soubesse, sem eu precisar falar, de onde vem a cura exacta para o vómito salobro que a desfaçatez de alguns, às vezes, na calada da noite, quando menos se espera, dá de retorcer dentro das entranhas da gente e a estendesse a mim: assim – sob o lombo simples de um verso mais sábio.

Pudesse a mão que, traiçoeira, nos açoita ao rebordo do penhasco, suspeitar o imenso favor que pode estar fazendo!… Pudesse ela saber que o abismo aberto adiante pode, em verdade, ser somente o passo que faltava para o começo de um vôo outro!…

Ave, Rojanski!!

(…) Então deixa-me dizer duas palavras antes de recolher-me à companhia noturna do barro e das folhas secas em que anseio encontrar, no ermo do mundo, a vontade de viver que desperdiças no asfalto da cidade louca.

Faz-me falta essa lucidez que atiras, displicente, pela janela do carro. Como poderia eu te amar e te compreender, sendo ainda um menino bobo chegando do interior e trazendo a província nos gestos hesitantes, legítimo possuidor de uma burrice atávica e um medo animal que me obrigava a fugir do fogo e da luz e de qualquer brilho que não fosse da lua? (…)

Em todos esses anos estive ao teu lado (mil léguas ou nada), boquiaberto e calado, assentado sobre minha sombra enquanto davas voltas ao mundo: casavas e descasavas, engravidavas e parias, fazias e desfazias as malas, gargalhavas e choravas, rasgavas a carne do mundo e a tua própria com as garras da ironia. Eu, trêmulo, comia folhas e murmurava: como pode alguém ser assim, como pode alguém ser?

Faz-me falta essa coragem que gastas, irresponsável, no mundo dos lobos. Passeias com elegância de moça bonita em meio às unhas e dentes, uivos e ganidos. Arrancam um pedaço do teu braço, olhas para o lado com um sorriso e comentas, prática e objetiva: estou mais leve, agora. Dá pra morrer de raiva vendo o desprezo com que chutas as mais caras ilusões do poder, esses ouvidos moucos que fazes às mais tentadoras propostas de comprar tua alma, como se a alma fosse só tua e pudesses gastá-la à vontade em deliciosas contradições, em pequenos luxos, como se houvesse mais prazer nas opiniões incômodas que na companhia do rei, como se uma taça de vinho tivesse o mesmo gosto em New York e Goiás, como se não tivessem os lobos o pleno direito de estar ocultos nas virtudes das grandes utopias.

Agora que preparo no silêncio uma nova idade para minha fala, terei finalmente aprendido algo com teu ruído, tua música urbana, teu grito?

Ass: Toinho Alves
(publicado a 26 de Setembro de 2008)

A propósito de um telefonema que faço para agradecer de viva voz uma mensagem de felicitação, cumprido o ‘apagão’, de volta à civilização e ao calendário. Pode ter sido só uma cortesia, eu bem sei. Mas, ainda assim, considero que merece um retorno especial. Depois de desligar e tentar mais tarde, conforme solicitado, dou comigo a sorrir e a lembrar-me do reparo de Kierkegaard que, com enorme subtileza, deixa  bem explicado porque razão não é afinal tão absurda a tendência para “fazer sempre a coisa errada”, “estragar tudo” e, como o povo gosta de dizer, “deitar outra vez tudo a perder”, quando finalmente alguma coisa boa, há muito desejada, acontece. É porque é mesmo assim. Apesar de à primeira vista parecer não fazer sentido, é mesmo essa a ideia: impedir que a felicidade se concretize para garantir que não se é subitamente subtraído do tão mais confortável e inofensivo domínio das possibilidades. É que lá tudo é permitido, tudo permanece provável. Sempre. Como o próprio nome indica, tudo é só, mas sempre possível. Mais que não seja em teoria e com os 50% de hipótese, garantidos a priori pelo ratio das probabilidades. E é por isso, e apenas por isso, que não é de espantar que – exactamente no momento que poderia ser decisivo – a possibilidade da felicidade seja frequentemente preferida à felicidade ela própria.

Pleasure disappoints; possibility never.
Kierkegaard

A Mafalda tem uma amiga a quem conta sempre as coisas todas que lhe vão acontecendo. E, de entre todas essas coisas, para as que são mais dramáticas, diz a Mafalda que ela tem sempre uma expressão que é muito reconfortante: «Acontece, deixa lá: faz parte!». E realmente faz. Um destes dias, estávamos as duas à conversa e concluímos sem grande dificuldade que realmente fazem parte, sim. Portanto, «não é preciso complicar de mais porque mesmo as coisas mais complicadas há um dia em que deixam de o ser». Como a Mafalda bem lembrou nessa tarde, «há um momento em que as coisas acalmam e planam». E lá continuámos a experimentar chás e a escolher colares, naquele poiso que escolhemos dar-nos nesse dia para albergar a conversa. Ela ia falando. Eu ia escutando. Pareceu-nos justo. Pareceu-nos ter sentido. E como eu ia ouvindo mais do que falando, reparei em muitas coisas que explicam porque razão, desde o primeiro instante, falar nos é tão voraz e doce como as cerejas. Ia a Mafalda dizendo de como é importante «descobrirmos rapidamente o que sentimos» e da extrema impressão que cada vez mais lhe faz o muito tempo que às vezes demoramos «a desligar-nos e a tirar de cima todas as cascas que nos enfiam e que nos impedem de respirar e sermos nós» só para «podermos fazer parte do sistema».

#

Hoje apetecia-me ter tempo e escrever sobre essa coisa de ficar perto, essa coisa de estar perto, sobre a proximidade com alguém que muito simplesmente pressentimos, pois como diz a Mafalda, acho que me acontece muito «pressentir pessoas». E, só porque não tenho tempo e sei que não estarei a cometer nenhuma inconfidência grave, é que me apetece lançar mão, aqui, do que a Mafalda me disse certa vez:

Há muitas histórias na nossa vida que vivemos pressentidas. São igualmente importantes, coisas que sabemos, apesar de não terem sido ditas: estão lá no olhar dos outros e nós sabemos. Se calhar não precisamos de as dizer, talvez passem anos até serem verbalizadas. Mas os pressentimentos são tão fortes como os sentimentos.

Como escreve Carpinejar, a propósito da freira Mariana Alcoforado:

aspas Nem Deus a proibiu de escrever!

A lua girou, girou
Traçou no céu um compasso
A lua girou, girou
Traçou no céu um compasso

Eu bem queria fazer um travesseiro dos seus braços
Eu bem queria fazer…

Travesseiro dos meus braços
Só não faz se quiser
Um travesseiro dos meus braços

Só não faz se não quiser…
Sustenta a palavra de homem
Que eu mantenho a de mulher
Sustenta a palavra de homem…

A lua girou, girou
Traçou no céu um compasso
A lua girou, girou
Traçou no céu um compasso

Eu bem queria fazer um travesseiro dos seus braços
Eu bem queria fazer…

Milton Nascimento – “Lua Girou

Talvez porque esta noite me sinto tomada de uma felicidade inabalável e a salvo, apetece-me partilhar uma pérola rara que guardo, há muitos anos, fervorosamente em segredo e que nunca até hoje predispus à partilha fosse de quem fosse. A primeira vez que a ouvi, foi cantada ao vivo por Ney Matogrosso, no Coliseu de Lisboa, quando ele veio vestido de palitó branco, com o show “Pescador de Pérolas“, um show por sinal recheado de escolhas e canções de inominável beleza, a caberem inteiramente no nome dado ao álbum que serviu de escora à digressão. Foi, portanto ali, na bancada da geral, que primeiro me recordo de ter escutado esta canção, na época eu era pré-adolescente, estudava e não ganhava dinheiro, mas insistia ainda assim em ver espectáculos todos os dias e não podia abusar mais da generosidade dos pais. Todos os instrumentos se calaram e ficou só a voz aberta no breu da sala, com aquela coisa linda a sair pela garganta e a desenhar-se em espiral rumo à cúpula. Como uma oração, uma declaração de amor, uma súplica, uma confissão, não importa. Como qualquer coisa que, na época, de imediato me arrebatou ao âmago de tão singela e sem enfeites, de tão fina e delicada, de tão perfeita que qualquer suspiro parecia o suficiente para a desequilibrar e fazer sumir feito um sonho delirante de impossíveis sublimes. Soube nessa mesma hora, que se canções existem que pautam a banda sonora da existência de cada um, essa era uma das que para sempre acabava de se inscrever no alinhamento da minha partitura. Com o tempo fui apurando a reflexão e chegando depois a entendimentos mais refinados dessa intuitiva suspeita que desde criança me acompanhava. Tenho, aliás, para mim que a música e as suas canções, quando vêm e, sem pedir licença, se gravam sobre a nossa pele e a nossa alma, se infiltram no imaginário particularíssimo de cada um, esse pedaço que nos dá consistência e coerência, mesmo quando olhado de fora tudo parece contraditório, absurdo e sem razão que lhe confira sentido visível e pronunciável. Assim como tenho para mim que é nessa sinfonia, em que o imaginário de cada um se vai compondo, que se encontra a chave daquilo que nos dá unidade e nos torna inconfundíveis, bem como o mistério que dita e profundamente influencia os nossos rumos, preferências, escolhas e opções. Por outras palavras, a composição que laboriosamente vamos tecendo de nós próprios.

Pois muito bem, a ser assim, e se eu não estiver enganada, essa canção contém em si decisivos arquétipos que reconfiguraram o que, desde então, venho buscando e almejando. Por outras palavras, é chave para alguns aparentes enigmas meus, expressão cifrada do que me descodifica, e onde muito provavelmente entroncam as imagens de colo, travesseiro, círculo, fecho e braços, como metáforas explícitas desse repouso só possível dentro e ao alto da perfeição mais perfeita de todas.

Momento histórico, portanto, na reformulação dos meus egoísmos mais silenciosos e inconfessados: deixo a canção ao dispor de todos.
Considerem como a primeira oferenda ao meu primeiro sobrinho-rapaz que acaba de nascer. Dizem que “quando a lua vira, resolve” e nasce quem está para nascer. Gosto de pensar que o meu sobrinho nasceu porque “a lua girou, girou / traçou no céu um compasso” e, quando virou, provocou-lhe esse desejo maior de vir “fazer um travesseiro” nos nossos braços. Por mim, abro-lhe os meus, fecho-lhos num círculo que o embale e ampare e, na ausência de um anjo que possa fazer-lhe de arauto à chegada, canto-lhe uma das canções mais belas que me lembro de trazer guardada.

Para ouvir cantada por Ney Matogrosso, tal qual a ouvi pela primeira vez: só na voz – aqui. Ou na versão cantada por Milton Nascimento, que descobri mais tarde: para ouvir aqui.

Seus filhos não são seus.
Eles são os filhos e filhas do desejo da Vida por si mesma.
Eles vêm através de você mas não de você
e, embora possam lhe haver sido entregues, não lhe pertencem.
Você pode lhes dar seu amor, mas não seus pensamentos,
Pois eles têm os seus próprios.
Você pode abrigar seus corpos, mas não suas almas,
Pois estas vivem na morada do amanhã, a qual você não pode visitar nem em sonhos.
Você pode lutar para tornar-se como eles, mas não tente transformá-los no que você é.
Pois a vida não anda para trás nem se prende ao passado.

Kahlil Gibran

A Mariana Pantoja anda pelo Acre desde 1991 e mora agora numa «colocaçãozinha urbana», como ela gosta de dizer. Se não tem ideia do que seja uma ‘colocaçãozinha’, recomendo o mesmo que a Mariana recomendaria: pergunte a um seringueiro. Ele há-de explicar. Quando tem que dar conta dos dias e da vida por lá, a Mariana costuma ser clara: «idéias e sensações têm aflorado nos últimos tempos», ela responde. E acontece que desses ‘afloramentos’, por vezes ela escolhe alguns para sinalizar. E acontece igualmente que eu escuto. Porque gosto de saber da película ínfima das sementes, que vem antes da raíz, do fruto, da flôr e dos fiapos.
Geralmente, reparando bem e com jeitinho, sempre ela é possível de decantar e remultiplicar num vaso. Mesmo quando se mora num burgo arredado das florestânicas colocações.

dalailama

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Uma noite, estava um velho índio contando ao seu neto sobre a guerra que acontece dentro das pessoas.

- A batalha é entre dois ‘lobos’ que vivem dentro de todos nós. Um é Mau. É raiva, inveja, ciúme, tristeza, desgosto, cobiça, arrogância, pena de si mesmo, culpa, ressentimento, inferioridade, mentiras, orgulho, falsidade, superioridade e ego. O outro é Bom. É alegria, paz, esperança, serenidade, humildade, bondade, benevolência, empatia, generosidade, verdade, compaixão e fé.

O neto pensou nessa luta, e perguntou ao avô:

- Avô, qual lobo vence?

O velho respondeu:

- Aquele que você alimenta…

Ontem, sentámos-nos na área de tendas, mesas e cadeiras montadas sobre aquele tapete arrelvado, propositadamente germinado para nos criar, na recepção, uma certa impressão de belo. Ali mesmo, na beira de uma desmilinguída língua do rio Trancão, que apesar de fétido, saturado dos resíduos de décadas e décadas de abusos e maus tratos, padecido de uma poluição crónica e sem remédio, insiste ainda assim em ser água e correr leito. Sentámos-nos, eu dizia, de frente para o pôr-do-sol sobre a boca do estuário, um pouco para lá dos pilares da ponte Vasco da Gama que abre em direcção à metade Sul do País, e ali ficámos, tomando cerveja gelada e jogando conversa fora, num círculo alargado a cada nova cadeira que ia se achegando. Ventava muito mas ninguém se agitou na demasia. Mosquitos indo e vindo, na picada incerta. Mais cerveja gelada. Mais vento, mais brisa. E o odor ocre das águas nauseabundas que serviam de entorno ao cenário. Ficámos sentados, degustando espetos de mozzarela de búfala e tomate cherry e aquela prosa boa de prosear, por ser igual ao aperitivo e não ter nenhuma ânsia de nos saciar enquanto nos íamos alimentando. Não me lembro nunca de ter estado num festival sem verdadeiramente ver ou participar do festival. Nunca, a não ser ontem. Porque, creio, cada um que ia se achegando, percebia de imediato que o verdadeiro acontecimento era aquele: o que estava acontecendo ali. Único e irrepetível, sem nenhuma dúvida, na próxima edição que, no ano que vem, mais ou menos por esta altura, há-de voltar a juntar-nos outra vez a todos no tapete arrelvado da área montada especialmente para o efeito, no Parque Tejo. Com vista para o poente, o baile envenenado dos mosquitos de picada pronta e o braço fétido do Trancão.

Às vezes, uma frase deixada escapar quase sem se sentir, pode ser mais reveladora do que uma conversa de horas que se quer e jura franca. Por diversas vezes, e sem ser de hoje, me tenho dado conta que assim é. Como aqui há um par de bem medidos meses, numa frase curta a fechar a madrugada. Numa simples frase ficou absolutamente claro porque razão o que poderia ter servido para ‘recomeço de conversa’ antes decretou, de modo irrevogável, o ‘fim de papo’. Porque não há entendimento possível entre quem habita metades opostas do universo. Por nenhuma razão em especial, a não ser essa que inviabiliza toda e qualquer tentativa de comunicação. Não se fala a mesma língua, dialecto, gestos e movimento inclusos, que a língua é e há-de ser sempre corpo anímico e animado, muito para lá do pé da letra que existe fincado na palavra (escrita ou dita, tanto faz!).

Existem pois os que levam a vida certos de terem sido amaldiçoados por ela, num qualquer troço do caminho; e existem os outros, os que todos os dias se deitam e acordam crentes de terem sido abençoados com ela. E depois é como nas mónadas do Leibniz, ou nas moléculas dos cientistas: chegados à mais ínfima porção, ao núcleo do cerne, ao miolo do indivizível – que se supõe ser onde reside o caroço vital da identidade – chega-se à conclusão que são incomunicáveis entre si.

Vem isto a propósito de ontem, esta mesma intuição com espessura de descoberta, que se revelou naquela madrugada há um par de meses atrás, me ter voltado a assaltar por diversas vezes, enquanto assistia ao espectáculo de Djavan no Coliseu de Lisboa. Subitamente: muito claro, muito límpido, muito sereno e conciliado, o entendimento que tardava da razão pela qual as coisas são assim e não são de outra forma. As coisas são como são porque, simplesmente, não podem – porque não têm como – ser de outra maneira. E tudo é sempre e só como é. Até as coisas, que são sempre e só como são, sendo que são o que podem ser, já que nada tem a possibilidade de ser aquilo que não é.

Hoje, ao ler casualmente um texto que a Sofia Vieira terá escrito mais ou menos nas cercanias de um dia emblemático (nem de propósito, é verdade!), não pude deixar de sorrir-lhe diante do tiro certeiro e da fineza da ironia velada que trespassa a figura do brando consentimento. No caso, o foco da Sofia é entre amores, mas a mesma acuidade lhe subsiste, se colocarmos entre parentesis os predicados próprios dos amantes e ficarmos só com a parte em que pessoas se relacionam com outras pessoas.

Foi ela, que eu sei (foi ela). Que te lançou feitiços e macumbas, milongas e mandingas, com os amuletos e talismãs que enrodilha no pescoço, as rezas ao pai de santo e os serviços encomendados. Foi ela, que se banhou em águas turvas, segregou fluidos biliosos e depois tos deu a beber, entrada à força dentro de ti, coitado, que não tens culpa (que não sabes o que fazes). (…) Ela a zoar-te aos ouvidos rezas e encantamentos, a ensaiar nas tuas costas sacrifícios e sortilégios, a coser-te a boca com o veneno de promessas e os seus beijos peçonhentos. Ela, que te deixou indiferente a esta dor de silício que se me crava na carne e que, com um vudu de muitas loas, fez de ti um morto-vivo e parou esse coração que dantes batia por mim. E eu, que nem acredito nessas coisas, que sou de estudos e não de crenças, racionalista positivista epistemológica matemática; eu que passo por baixo de escadas, que durmo com gatos pretos e me vejo partida nos espelhos partidos, sei que foi ela e não tu (coitado), que não tens culpa (coitado), que não sabes o que fazes.

Ass: Sofia Vieira
(publicado a 22 de Abril de 2008)

Releio o que a Sofia escreveu. Não sei se terá tido alguma madrugada semelhante àquela minha, de há um par de bem medidos meses atrás. Não sei, portanto, se terá calhado descobrir o mesmo que eu. Só sei que, quanto mais penso nisso, mais me parece que apesar de ser mais fácil e maior o alívio dos que se crêem amaldiçoados – seja pelo quê ou por quem for – ao limite, acredito que também seja desesperante de tão entorpecedor. Acredito, sim, que seja uma verdadeira tortura contínua e sem tréguas, esta coisa de terem que acordar todos os dias, independentemente da única verdade adquirida que possuem ser a da sua suposta impotência diante de uma inescapável maldição. Dito de outro modo, apesar da utilidade providencial da desculpa, que ninguém lhes inveje esse seu padecer!…

amanhecerilha

Por diversas vezes fiz reparo em como é semelhante a luz de certas horas, com esta ‘tal’ luz de Lisboa que, desde séculos, tanta tela tem inspirado e tanta tinta tem feito correr à pena. Não acontece sempre, visto que a ilha bóia no Amazonas e, como toda a região, ela é por natureza e condição exuberante e berrante muito para lá dos cânones das circunspectas Europas temperadas. É só em certas horas, sim. O suficiente, todavia, para me saciar amplamente qualquer resquício de saudade alfacinha que sobrar pudesse. Suponho ser também por isso que não me lembro de em alguma ocasião lhe ter sentido a falta. Ou das suas gentes. O que vem a dar no mesmo.

Como me disse uma vez um caboclo, lá para as bandas do mercado à beira rio, “o peito da gente faz morada onde o coração se sente em casa“. E eu, então, lembrei-me de Shakespeare, que gostava de escrever máximas, mas tinha por costume escondê-las na boca de cena, disfarçadas de fala de gente:

aspas Quando o ancoradouro se torna amargo, a felicidade vai aportar em outro lugar.

* foto de Renato Stockler

rainhadafloresta

aspas Senhora Rainha da Floresta
Dai-me a força da ayahuasca
Pra cantar nessas malocas
Pros índios desse lugar

Quero beber caiçuma
E tomar muito cipó
Quero bailar o mariri
Nas aldeias do Aquiry

Dai-me a força do jagube
Na luz do lampião
Iluminando todas veredas
Que dão pro meu coração

Como é grande essa floresta
É maior a solidão
Dessa vida passageira
Desse verde sertão

Vou seguindo pela vida
Varejando de ubá
Todos os rios dessa terra
Unidos chegarão ao mar

Pia Vila* – “Rainha da Floresta

Essa vai para você, por mil e uma razões, como muito bem creio que, por esta altura, sabe de ’sabedoria sabida’. Tome como um remanso, um sinal, um reconhecimento, uma prece, uma oferenda, eu sei lá. Qualquer coisa assim. Qualquer coisa dessas que a Floresta é pródiga em estender à gente, na passagem. Como um galho sumarento, providenciado no caminho. Para que ninguém sinta precisão de sede ou fome que lhe trave o passo. Cantado fica mais bonito ainda!… Ora escute aqui.

* A canção é uma parceria com Txai Terri Aquino e Felipe Jardim. A foto foi tirada pela Angela U. no Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

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Ainda na linha do meu último post ( e nem bem de propósito!):

… Gadamer lembra a dimensão educativa da experiência, que defrauda expectativas, trazendo a dor do crescimento. O que o homem aprende pela dor é a percepção de seus limites, por isso a experiência humana é a experiência da finitude. “O homem experimentado sabe que não é dono nem do tempo nem do futuro, pois conhece os limites de toda previsão e a insegurança de todo plano“. (Gadamer, 1977).

Ass: Ana Beatriz Gomes
(publicado a 06.Junho.2008)

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